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Técnicas de criação controlada com moluscos e macroalgas impulsionam sequestro de carbono e sustentabilidade marinha

Espinhéis para cultivo de moluscos em SC | Fonte: Felipe Vieira - UFSC
24 DE JUNHO, 2025
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Aquicultura cresce com potencial ambiental e impacto na qualidade da água dos oceanos

Nem todo mundo sabe, mas o oceano é um grande sumidouro de carbono: cerca de 30% do CO₂ da atmosfera é capturado pelo mar, minimizando os efeitos do aquecimento global. Organismos como moluscos (ostras, mexilhões, vieiras) e, principalmente, as macroalgas desempenham papel essencial nesse processo, contribuindo com o que se chama de serviços ecossistêmicos — como a captura e o armazenamento de carbono.

“As algas e os moluscos têm um alto potencial para a captura de carbono”, explica o professor Ronaldo Cavalli, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e membro da rede de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO). “As macroalgas crescem rápido, têm valor de mercado e podem ser usadas para limpar ambientes degradados.”

No Brasil, projetos-pilotos já estão utilizando espécies nativas de macroalgas para a recuperação de áreas como a Lagoa de Marapendi, no Rio de Janeiro. Ao lado das algas, os moluscos também têm seu papel. Suas conchas, formadas por carbonato de cálcio, acumulam CO₂ de forma mais duradoura. Pesquisas estimam que a aquicultura de moluscos pode sequestrar de 0,5 a 1 tonelada de CO₂ equivalente por hectare/ano.

“A aquicultura de moluscos tem um benefício duplo: captura carbono e melhora a qualidade da água, já que esses animais se alimentam por filtração e removem partículas em suspensão”, diz Cavalli.

Cordas de produção de mexilhões em sistema contínuo | Fonte: IFREMER

Produção multitrófica: sinergia entre peixes, moluscos e algas

A aquicultura evoluiu para sistemas mais sustentáveis, como a aquicultura multitrófica integrada, que associa espécies de diferentes níveis tróficos. Um exemplo é o cultivo conjunto de peixes com moluscos e macroalgas.

“O cultivo de peixe pode se tornar mais sustentável quando feito junto com organismos filtradores, como os moluscos, e com algas”, explica o pesquisador. “Os resíduos dos peixes alimentam os moluscos, e as macroalgas ajudam a absorver o CO₂, inclusive o que é liberado pelos peixes”, comenta. 

Essa integração aumenta a circularidade do sistema e pode ampliar o sequestro de carbono para até 10 toneladas de CO₂ equivalente por hectare/ano. A adoção de tecnologias “ômicas”, da biologia molecular, também está transformando o monitoramento da aquicultura, permitindo análises em nível celular e metabólico.

Produção de moluscos em queda; macroalgas em ascensão

Apesar do seu potencial ambiental, a produção de moluscos no Brasil está em declínio. Já chegou a 20 mil toneladas, mas os dados mais recentes do IBGE apontam uma redução para cerca de 8 mil toneladas.

“Em que pese o enorme potencial do Brasil, infelizmente, a produção de moluscos vem diminuindo”, afirma Cavalli. “E um dos motivos é justamente o crescimento da produção de macroalgas, que são mais estáveis e não enfrentam os mesmos riscos sanitários que os moluscos”, reforça. 

Cultivo da macroalga Kappaphycus alvarezii em Sambaqui, SC | Fonte: Leila Hayashi – Acadian Seaplants, Canadá

Segundo ele, o cultivo de moluscos sofre com limitações associadas à poluição e às florações de algas nocivas, que afetam a segurança alimentar e interrompem as vendas. Já as macroalgas não apresentam esse tipo de risco e têm maior viabilidade comercial.

Impactos sociais e ambientais da aquicultura

Mesmo com a queda na produção de moluscos, a aquicultura segue sendo uma atividade importante para o meio ambiente e para a economia local.

“A maioria dos produtores são pequenos aquicultores familiares, que trabalham com estruturas simples, como cordas suspensas no mar ou mesas instaladas em estuários”, conta Cavalli. “É uma atividade que promove inclusão produtiva e não exige grandes investimentos.”

Em estados como Santa Catarina — maior produtor de ostras e mexilhões do país —, a cadeia produtiva é fortalecida pelo apoio de instituições como a EPAGRI e a UFSC, com distribuição de sementes e capacitação técnica.

“A aquicultura tem um papel fundamental no desenvolvimento sustentável das comunidades costeiras e pode ser uma importante aliada na mitigação das mudanças climáticas”, conclui Cavalli.

Espinhéis para cultivo de moluscos em Palhoça, SC | Fonte: Gilberto Manzoni – UNIVALI