Latitude 34 Sul acende alerta global: sinais de colapso climático começam a aparecer no Atlântico Sul
Um dos pontos mais críticos do oceano global pode estar muito mais próximo do Brasil do que se imagina. Localizada entre o sul do Brasil e a Cidade do Cabo, na África do Sul, a latitude 34º Sul tornou-se um dos epicentros da vigilância científica mundial sobre o clima. Ali, mudanças recentes e aceleradas nas propriedades físicas do oceano estão acendendo um alerta para a possibilidade de um colapso na circulação oceânica global — com impactos devastadores para o clima do planeta.
A advertência vem do oceanógrafo físico Edmo José Dias Campos, pesquisador da Rede INPO (Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas) e um dos mais respeitados especialistas da área e coordenador do Projeto SAMBAR, braço brasileiro da rede internacional SAMOC (South Atlantic Meridional Overturning Circulation), que monitora a circulação meridional do Atlântico — uma das engrenagens centrais do sistema climático da Terra.
“Se queremos saber se o sistema climático vai entrar em colapso nas próximas duas décadas, é na latitude 34 Sul que precisamos olhar”, afirma Edmo Campos.
Um sistema sob pressão
Edmo Campos cita estudos recentes, como o liderado por Van Westen e publicado na Science Advances, que indicam que essa faixa do oceano já mostra alterações significativas no balanço de calor, salinidade e entrada de água doce oriunda do degelo polar. A circulação meridional do Atlântico (AMOC) — responsável por transportar calor entre hemisférios — pode estar se tornando instável.
Essa instabilidade pode deflagrar um efeito dominó: o colapso da AMOC comprometeria os padrões globais de precipitação, causaria secas prolongadas em regiões tropicais, impactaria diretamente a Amazônia e intensificaria extremos climáticos em todo o planeta. O Atlântico Sul, especialmente a região observada pelo SAMOC, é o único “portal” por onde essas trocas interoceânicas podem ser medidas com precisão. Por isso, é estratégico.
Mudanças já detectadas
De acordo com Campos, os instrumentos do projeto já registram sinais concretos e preocupantes:
- aumento da temperatura das águas profundas no Atlântico Sul, inclusive no Canal de Vema — ponto de entrada de águas antárticas no oceano Atlântico;
- mudanças nos padrões de salinidade;
- elevação do nível do mar;
- perda de biodiversidade, incluindo episódios de branqueamento de corais;
- aumento na frequência e intensidade de furacões e eventos extremos.
Essas transformações indicam que o oceano está buscando um novo equilíbrio — e não há garantias de que ele será favorável à estabilidade climática atual.
“Já sabemos que vamos sofrer consequências drásticas. A pergunta agora é: quando?”, alerta Edmo. “E só poderemos preparar medidas mitigatórias se soubermos quando isso vai ocorrer.”
Brasil: liderança natural em risco
Campos defende com veemência que o Brasil assuma o protagonismo na pesquisa oceânica do Atlântico Sul, tanto pela sua posição geográfica estratégica quanto pela capacidade científica instalada. Ele lembra que países como Argentina e África do Sul enfrentam restrições políticas ou focam outras regiões, como o Índico ou a Antártica.
“Em termos de Atlântico Sul, o Brasil tem que assumir o protagonismo. Temos o maior número de pesquisas, de conhecimento e condições políticas para liderar esse processo”, afirma.
Mas há um entrave: a falta de infraestrutura e apoio logístico para a ciência de águas profundas. Apesar de o país dispor do navio de pesquisa Vital de Oliveira, ele é pouco utilizado para esse tipo de pesquisa.
“Precisamos colocar instrumentos a 4.000 ou 5.000 metros de profundidade no meio do Atlântico. Isso requer apoio logístico robusto. Hoje, o Brasil ainda precisa investir muito.”
O impacto será regional — e profundo
A América do Sul será a primeira a sentir os efeitos dessas mudanças. Alterações na circulação oceânica vão afetar o regime de chuvas, com consequências para a Amazônia, o Sul do Brasil e outras regiões. Agricultura, saúde pública, abastecimento de água e segurança alimentar podem ser diretamente impactados.
“Precisamos olhar para o oceano com a visão da próxima década, não apenas do amanhã. O tempo de agir é agora.”
Um alerta científico, um chamado político
Edmo Campos vê o monitoramento da latitude 34º Sul como uma prioridade nacional — e internacional.
“Se queremos evitar surpresas climáticas catastróficas, precisamos investir agora em observação, modelagem e cooperação internacional”, afirma.
Num mundo que acabou de reunir os melhores especialistas do mundo na Conferência do Oceano da ONU (UNOC 2025), em Nice, e caminha COP30, no Brasil, as palavras de Edmo Campos ganham urgência. O que está acontecendo sob as águas do Atlântico Sul pode decidir o futuro do planeta — e a liderança brasileira nesse esforço pode ser decisiva.