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Artigo na Nature alerta para aumento de eventos extremos que ameaçam espécies marinhas

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25 DE JULHO, 2025
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Efeitos causados pelas mudanças climáticas impactam a segurança alimentar de países da América do Sul e da África

As ondas de calor marinhas, a alta acidificação e a baixa concentração de clorofila – fenômenos provocados pelas mudanças climáticas – têm um efeito devastador para o ecossistema do oceano e, nas duas últimas décadas, vêm se tornando cada vez mais frequentes e intensos no Atlântico Equatorial e Sul. Em artigo inédito, publicado na revista Nature Communications, a pesquisadora brasileira Regina Rodrigues, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e membro da rede de pesquisadores INPO (Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas), explica que essas ocorrências funcionam como um alerta.

O estudo revela que a interdependência entre os três fenômenos amplifica os impactos negativos e ameaça a saúde dos ecossistemas marinhos, podendo acarretar a mortalidade de diversas espécies, e, consequentemente, afetar a sustentabilidade das atividades pesqueiras e de maricultura.

Para que isso possa ser evitado, é preciso entender os mecanismos físicos que geram esses eventos compostos, de modo a prever com mais precisão quando e onde vão ocorrer, contribuindo para a adoção de ações que protejam o oceano. “A compreensão desses mecanismos é vital para proteger o oceano e as pessoas que dele dependem. Precisamos de políticas baseadas na ciência para garantir a segurança alimentar e o equilíbrio ambiental”, afirma Regina Rodrigues, em entrevista sobre o artigo publicado para o site da UFSC. Segundo ela, o avanço dessas pesquisas pode auxiliar gestores ambientais a tomar decisões mais assertivas, como, por exemplo, restringir temporariamente a pesca em determinadas áreas para resguardar os ecossistemas marinhos.

Intitulado Extreme compound events in the equatorial and South Atlantic e realizado com a participação de pesquisadores da UFSC, da Universidade de Sorbonne, da Universidade de Bern, da Universidade de Bergen e da Organização de Ciência e Pesquisa Industrial da Commonwealth da Austrália, o estudo analisou dados coletados entre 1999 e 2018, período em que foi possível cruzar as três variáveis com segurança. Desde 2016 esses eventos simultâneos, que aconteciam esporadicamente, passaram a ocorrer todos os anos. A alta frequência impossibilita que os ecossistemas se recuperem, já que é necessário um tempo mínimo para isso.

O estudo abrange seis regiões do Atlântico Sul conhecidas por sua alta biodiversidade e produtividade biológica. No Brasil, foram analisadas áreas do Nordeste, Sudeste e Sul, e foram incluídas também regiões costeiras do Uruguai e da Argentina. Entre os pontos estudados estão o Atlântico Equatorial Ocidental (próximo à costa do Nordeste brasileiro), o Atlântico Subtropical Ocidental, a Confluência Brasil-Malvinas, o Golfo da Guiné, a Frente de Angola e o Vazamento das Agulhas. A escolha dessas áreas se deu justamente por sua importância ecológica e econômica. Juntas, essas regiões são responsáveis pela pesca de oito milhões de toneladas de organismos marinhos por ano, o que sustenta muitas comunidades costeiras da América do Sul e da África. A intensificação dos eventos extremos nessas regiões afeta diretamente a pesca e a maricultura, impactando a segurança alimentar de países da América do Sul e da África, que dependem desses recursos marinhos.

Regina Rodrigues, Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), membro da rede de pesquisadores INPO

O que são estes fenômenos e quais as suas consequências

As ondas de calor marinhas são caracterizadas por períodos de temperaturas oceânicas excepcionalmente altas e persistentes, comparáveis às ondas de calor atmosféricas. O aquecimento do oceano nessas regiões leva a um aumento da concentração de íons hidrogênio na água e, assim, à acidificação. As consequências destes fenômenos poderiam ser aliviadas se houvesse uma oferta adequada de alimento para as espécies. Porém, este cenário ocorre simultaneamente a períodos de baixa concentração de clorofila, o que significa uma baixa presença de algas microscópicas, que são a base da cadeia alimentar no oceano.

As ondas de calor marinhas se intensificaram nas últimas quatro décadas, e sua frequência, intensidade e duração devem aumentar no futuro. O oceano é um dos principais reguladores do clima: absorve cerca de 90% do calor da atmosfera e 30% do dióxido de carbono (CO₂). Esse papel de “amortecedor” ambiental, no entanto, tem gerado efeitos colaterais graves. O calor excessivo leva ao superaquecimento do oceano, enquanto o acúmulo de CO₂ aumenta a acidificação. Essa combinação prejudica diretamente a vida marinha, afetando o crescimento, a reprodução e a sobrevivência de diversas espécies.