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O mar que brilha no escuro: o espetáculo da bioluminescência

Costa brilha à noite com bioluminescência
13 DE AGOSTO, 2025
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Imagine caminhar na beira da praia, à noite, e ver as ondas iluminadas, quebrarem em azul. Cada passo na areia molhada acende rastros luminosos, como se o próprio oceano respirasse luz. É a bioluminescência, fenômeno natural que transforma organismos vivos em lanternas biológicas.

Para a oceanógrafa Gleyci Moser, professora da UERJ e integrante da rede de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), o brilho do mar é mais que espetáculo: é um convite à conexão. “Vi pela primeira vez quando era criança e está até hoje na minha memória. Foi uma das coisas que me levou à oceanografia e ao estudo do plâncton. A única forma de proteger um ecossistema é se sentir parte dele. Quando você vê uma onda azul quebrando no escuro, isso nunca mais sai da sua memória.”

Como a natureza cria luz

A luminescência é, basicamente, a luz que alguns seres vivos conseguem produzir. Esse brilho nasce de uma reação química entre duas substâncias: a luciferina (a molécula que guarda a “energia da luz”) e a luciferase (a enzima que faz a reação acontecer). O resultado, em geral, é um brilho azul ou esverdeado, cores que se propagam melhor nas profundezas. Há também raras manifestações em vermelho ou amarelo. Alguns organismos, como certos plânctons, produzem a luciferina sozinhos. Outros, como algumas lulas, dependem de bactérias simbióticas para gerar luz.

Água-viva bioluminescente

O fenômeno está presente em quase todos os grandes grupos marinhos: plânctons, algas unicelulares, bactérias, lulas, camarões, peixes e até vermes das regiões abissais. Fora da água, é raro, restrito a alguns fungos e insetos, como vaga-lumes. Diferente da fluorescência ou fosforescência, a bioluminescência é produzida ativamente pelo metabolismo do organismo.

Luz como estratégia de sobrevivência

Nos oceanos, especialmente na zona mesopelágica (entre 200 e mil metros de profundidade), ela é ferramenta vital para sobrevivência. No breu absoluto, luz pode significar caça, defesa ou reprodução. Peixes-pescadores atraem presas com “anzóis” luminosos. Lulas e vermes ejetam nuvens brilhantes para despistar predadores. Alguns crustáceos piscam para chamar parceiros. Outros usam o brilho para se camuflar, confundindo-se com feixes de luz que penetram a água.

Nas regiões costeiras, os maiores espetáculos costumam vir de dinoflagelados, como Noctiluca scintillans. Agitados por ondas ou passos na areia, liberam uma luz azul intensa. O fenômeno chama a atenção em vários lugares do mundo, como em Porto Rico, virou atração turística noturna na famosa Baía Fosforescente.

Uma herança evolutiva persistente

A bioluminescência é uma herança antiga. Surgiu de forma independente ao menos 40 vezes na história da vida, em diferentes grupos e épocas. Uma hipótese sugere que, antes de servir para comunicação ou defesa, ela ajudou organismos primitivos a neutralizar o oxigênio, que no início da Terra era tóxico para muitas formas de vida.

Para o professor Frederico Brandini, do Instituto Oceanográfico da USP e pesquisador do INPO, trata-se de um mecanismo persistente na história evolutiva. “Se todos os organismos bioluminescentes se extinguissem hoje, é provável que a reação surgisse de novo em poucos milhões de anos. A natureza insiste em recriar e manter esse processo, envolvendo sempre os mesmos compostos reativos. Pode ser que ele seja essencial à sobrevivência de quem o produz, ou apenas um fruto teimoso da Árvore da Vida.”

No escuro do oceano, a luz não é apenas beleza – é sobrevivência, linguagem e memória. E, para quem vê, difícil de esquecer.