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Vilões nos filmes de Hollywood, tubarões são vitais para o oceano

reprodução do filme "Tubarões"
08 DE SETEMBRO, 2025
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Há 50 anos estreava nos cinemas o filme Tubarão, de Steven Spielberg, que não apenas inaugurou a era dos grandes blockbusters como também deixou uma marca profunda no imaginário coletivo: a de que o tubarão é o “vilão dos mares”, um predador implacável que deve ser caçado e eliminado.   O filme de suspense, que mostrava ataques sangrentos a turistas em uma pacata cidade litorânea, está sendo relançado nos Estados Unidos e, mais uma vez, atingindo recorde de bilheteria e reforçando essa imagem que ajuda a explicar o pânico que a simples visão de uma barbatana pode causar na praia.

Mas, se o cinema moldou um estereótipo, a ciência tem se empenhado em desconstruí-lo. Oceanógrafos e biólogos afirmam que os tubarões estão longe de serem monstros irracionais e são fundamentais para preservar a saúde do oceano. Por serem predadores de topo, são fundamentais para manter o equilíbrio das cadeias alimentares no oceano pois controlam populações intermediárias de peixes, evitando desequilíbrios que poderiam comprometer recifes de corais, pastagens marinhas e até a pesca de interesse comercial.

Foto: reprodução

Tubarão exerce no oceano papel semelhante ao do leão na savana

Segundo o professor Marcelo Vianna, coordenador do Laboratório de Biologia e Tecnologia da UFRJ e membro da rede de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), o papel do tubarão pode ser comparado ao de um leão na savana africana. “Assim como o leão seleciona suas presas, muitas vezes indivíduos doentes ou mais fracos, o tubarão faz o mesmo nos ambientes marinhos.

Com isso, contribui para o controle de epidemias, eliminando organismos com componentes genéticos prejudiciais e fortalecendo a saúde das populações”, explica. Essa função, acrescenta ele, gera um efeito em cascata: “A saúde de um ecossistema marinho depende diretamente da saúde da comunidade de tubarões e, consequentemente, a nossa saúde também, já que dependemos de oceanos equilibrados”.

Tubarão em águas abertas – Fonte: NOAA

Ataques a humanos são raríssimos

Nos últimos anos, têm circulado com frequência imagens e vídeos de tubarões e raias na costa do Rio de Janeiro, o que pode passar a impressão de que essas espécies estariam mais abundantes. Para o professor Marcelo Vianna, a realidade é outra: “O que aumentou não foi a presença dos animais, mas a capacidade de registrá-los. Hoje todo mundo tem celulares, drones e acesso a redes sociais, então esses encontros são filmados e rapidamente compartilhados. A divulgação é muito maior, mas, na prática, as populações de muitas espécies seguem em declínio”.

Os dados confirmam esse alerta. Os ataques a humanos são raríssimos e, na maior parte dos casos, resultam de confusões momentâneas, quando os animais confundem banhistas com presas habituais ou são empurrados para áreas costeiras pela falta de alimento. Já a ameaça que os tubarões enfrentam é bem mais concreta: a pesca predatória, a captura acidental e o comércio de barbatanas têm levado várias espécies à beira da extinção.

Tubarão oceânico-de-pontas-brancas em ambiente pelágico Foto: NOAA

O tubarão não é herói nem vilão, mas parte essencial de uma engrenagem natural da qual dependem os ecossistemas marinhos e, em última instância, a própria sobrevivência humana.