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Bióloga marinha do Sri Lanka fala sobre visita ao Brasil e projetos futuros

16 DE SETEMBRO, 2025
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Asha de Vos esteve na sede do INPO a convite do diretor Andrei Polejack

A trajetória profissional da bióloga Asha de Vos, nascida no Sri Lanka, é marcada pelo pioneirismo. Ela é a primeira doutora em Biologia Marinha de seu país. Apaixonada pelos mamíferos do oceano, dedicou grande parte de sua carreira como pesquisadora, desvendando o comportamento das baleias-azuis. Fez descobertas surpreendentes sobre o comportamento da espécie. Os resultados de seus  estudos mobilizaram a Comissão Baleeira Internacional, que passou a identificar a necessidade de mais ações de conservação desses animais. Inconformada com a falta de conhecimento da população, Asha passou a se dedicar à educação oceânica, na internet e fora dela, e fundou a primeira organização de pesquisa e educação sobre conservação marinha do Sri Lanka, a Oceanswell.

Em setembro, a pesquisadora esteve na sede do INPO a convite do diretor Andrei Polejack. “Ela é uma personalidade muito inspiradora. Tivemos a oportunidade de trocar experiências acadêmicas e perceber semelhanças entre as realidades dos dois países”, afirmou. 

Na entrevista a seguir, a bióloga marinha fala sobre seu período de visita ao Brasil, sua pesquisa com baleias e importância da transmissão do conhecimento científico de forma clara e acessível.

Qual foi o objetivo de sua viagem ao Brasil?

Cheguei no Rio de Janeiro no dia 31 de agosto e tive a honra de ser a principal palestrante da 29ª BioSemana da UFRJ, promovida pelos alunos da universidade. Foi uma semana maravilhosa, aprendi muito, mas também tive a oportunidade de compartilhar muita coisa.

Sua pesquisa se relaciona às baleias e golfinhos. Você teve a oportunidade de fazer observações aqui no Brasil?

Eu tive muita sorte. Quando cheguei aqui, a equipe da Ecomar, que estuda baleias e golfinhos no Rio de Janeiro, me levou para ver os golfinhos-da-guiana, na Baía de Sepetiba. Era uma espécie nova para mim. Então, fiquei muito animada mesmo quando os vi. Foi uma experiência mágica e foi muito bom estar com pesquisadores que sabiam tanto sobre eles e puderam compartilhar tantas informações. 

Você tem uma grande preocupação na transmissão do conhecimento oceânico, promovendo uma série de ações neste sentido. Poderia falar um pouco sobre isso?

Acho que a educação é muito importante na alfabetização oceânica. Infelizmente, a maior parte do mundo não dá atenção suficiente a isso. É importante que todos nós entendamos como o oceano influencia nossas vidas e os benefícios que obtemos dele, para que possamos aprender a cuidar muito melhor. Acho que isso só pode acontecer por meio da oferta do poder do conhecimento às pessoas. Tem que começar desde os mais jovens, para que seja basicamente um pensamento cotidiano. Passar que o oceano é importante. É necessária a consciência de que devemos cuidar dele e tudo o que fazemos tem um impacto, positivo ou negativo. Precisamos deixar o planeta e o oceano melhores do que encontramos.

A sua pesquisa sobre baleias-azuis no Sri Lanka trouxe descobertas importantes sobre o comportamento da espécie. Como foi o desenvolvimento deste trabalho?

Eu sou uma bióloga marinha da bela ilha tropical do Sri Lanka e a coisa mais importante que fiz foi ter feito uma descoberta: a de que existe uma população de baleias-azuis em nossas águas, essas águas tropicais quentes, que não migram. Então, normalmente pensamos em baleias-azuis indo para lugares frios, onde há bastante comida e onde podem se alimentar, e, depois, voltando para águas quentes para ter filhotes e encontrar parceiros.

Minha descoberta mostrou que nem todas as baleias-azuis precisam ir para águas frias. Algumas delas podem ficar nessas águas tropicais quentes e encontrar comida. E foi um momento realmente importante na pesquisa que faço com mamíferos marinhos. Mudou a forma como vemos o papel dos ecossistemas tropicais na vida desses gigantes incríveis, que são os maiores animais do planeta. Acho que isso abriu muitas portas e gerou muita empolgação. 

Mas é claro que há, ainda, grandes questões para serem discutidas. Elas são atingidas por navios e morrem, podem ficar presas em redes de pesca. Então, muito do nosso trabalho agora se concentra em celebrar a singularidade dessas baleias. E, ao mesmo tempo, reconhecer que precisamos nos esforçar muito para protegê-las. Assim, as gerações futuras terão a oportunidade de vê-las na natureza e vivenciar essas criaturas incríveis, assim como nós.

Você tem uma atuação muito ativa nas redes sociais. Faz parte da sua preocupação em disseminar conhecimento?

Eu uso as mídias sociais como uma forma de interagir com qualquer pessoa interessada. É assim que vejo. Muitas pessoas que encontro aqui no Brasil, no Rio, usam bastante as mídias sociais. Então, acho que é uma ótima maneira de interagir com pessoas de diferentes idades. E meu objetivo é usar minha plataforma para inspirar as pessoas a reconhecerem que podem ter vidas incríveis, nas quais precisam acreditar. Quero que as pessoas que me veem pensem: se ela consegue, eu também consigo. Compartilho ciência; minhas aventuras no oceano, quando estou fora, em campo, com as baleias. Às vezes, faço sessões ao vivo, onde posso responder às perguntas das pessoas, porque nem todo mundo tem o privilégio de ir ao oceano. Acho que cada um tem sua maneira diferente de levar as pessoas ao oceano e as mídias sociais me permitem fazer isso. 

Compartilho curiosidades. Faço uma série em que corro e, enquanto isso, conto às pessoas sobre as baleias e os golfinhos. Essas são duas coisas que eu amo muito no mundo. Adoro correr, adoro baleias e golfinhos. É um ótimo momento para compartilhar algumas informações, para que as pessoas possam se apaixonar por essas criaturas e pelo lar em que vivem, assim como eu tive essa oportunidade. Por isso, uso as mídias sociais de maneiras diferentes e realmente espero que elas se tornem um recurso para as pessoas se inspirarem, obterem conhecimento e se apaixonarem pelo oceano.

Como foi a visita ao INPO?

Tive o privilégio de vir ao INPO, a convite de Andrei Polejack e conheci pesquisadoras incríveis. Compartilhamos muitas experiências, tanto científicas, quanto sobre os desafios que enfrentamos enquanto mulheres do Hemisfério Sul. Também há alguns projetos realmente interessantes acontecendo aqui, que acho que podemos tentar imitar e fazer também no Sri Lanka. Espero poder construir relacionamentos de longo prazo com alguns dos cientistas que conheci no INPO, para que possamos implementar alguns desses projetos e construir colaborações maiores em todo o mundo.

Quero ter mais informações sobre projetos interessantes, com jovens e crianças, ensinando sobre plâncton e oceanografia. Fazemos muito trabalho educacional em comunidades costeiras por toda a ilha, com crianças em idade escolar. Estou sempre procurando maneiras divertidas de fazer isso. Acho que ainda tenho muito a aprender. Então, visitar lugares sempre me dá a oportunidade de aprender com pessoas que já estão fazendo coisas incríveis. Com sorte, vou ser capaz de exportar isso para o Sri Lanka, para que possamos ter projetos em toda a bacia oceânica.