Brasil prevê expedições ao oceano profundo em 2026
Programa de pesquisa no tema é uma das atividades promovidas pelo INPO
Os mistérios do oceano profundo, ainda pouco explorado, provocam curiosidade e mexem com o imaginário das pessoas. Uma prova disso foi o compartilhamento das imagens captadas no Atlântico Sul e transmitidas ao vivo por uma expedição científica na Argentina, que explorou o cânion de Mar del Plata. O evento causou alvoroço, com centenas de milhares de visualizações no Youtube e a publicação de matérias na imprensa de diferentes países. A grande repercussão demonstra o interesse cada vez maior da sociedade pelo oceano profundo.
Em 2026, o navio de pesquisas oceanográficas Falkor, da empresa norte-americana Schmidt Ocean Institute (SOI) – o mesmo da expedição que passou pela Argentina e pelo Uruguai – vai estar em águas brasileiras, com a participação de pesquisadores nacionais. A iniciativa é apoiada pelo INPO, que desenvolve um Programa de Pesquisa no Oceano Profundo, com ênfase no Atlântico Sul. Em março deste ano, o instituto promoveu o Workshop Internacional sobre Pesquisa no Oceano Profundo, em parceria com a fundação saudita Ocean Quest. No encontro, foram debatidas as bases para uma expedição inédita na Cadeia Vitória-Trindade (CVT), que alcançará três mil metros de profundidade de um ambiente marinho praticamente desconhecido. A previsão é que a iniciativa aconteça em 2026.

“No Atlântico Sul, o oceano profundo é menos conhecido ainda. No Brasil, ainda não temos como explorar o mar profundo sem o apoio de instituições estrangeiras, por conta da falta de um veículo subaquático operado remotamente. Ainda é um gap de conhecimento”, afirma a professora da Universidade de São Paulo (USP) Vivian Helena Pellizari, membro da rede de pesquisadores do INPO, que participará da expedição da SOI na Margem Equatorial, no cânion da Foz do Amazonas, contribuindo com estudos em microbiologia.
Segundo o diretor-geral do INPO, Segen Estefen, um dos principais benefícios da investigação científica no oceano profundo é a possibilidade de avançar na compreensão sobre a biodiversidade e os processos que caracterizam esse ambiente. “O monitoramento contínuo possibilita avaliar as transformações que ocorrem ao longo do tempo, oferecendo subsídios para identificar os fatores – naturais ou antrópicos – que influenciam essas mudanças. Esse conhecimento é fundamental para orientar políticas de conservação, mitigar impactos ambientais e ampliar o entendimento sobre o papel do oceano na regulação climática”, destaca.
Na Argentina, tecnologia possibilitou compartilhar imagens da expedição em tempo real
Para a comunidade científica, as expedições recentes realizadas na Argentina e no Uruguai, com o uso de alta tecnologia, possibilitaram conhecer o ecossistema e geraram expectativas em relação aos novos espaços que serão explorados. Vivian Pellizari explica que a expedição no Atlântico Sul possibilitou a descoberta de mais de 40 espécies adaptadas às condições do mar profundo. “Precisaremos aguardar as publicações e estudos dos envolvidos para entender a dimensão das descobertas”, diz a pesquisadora.

As tecnologias de estudo de mar profundo utilizadas na expedição da Schmidt Ocean Institute, incluindo robôs subaquáticos, propiciaram aos cientistas entender o ecossistema, medir condições de luz, temperatura e solo, observar e filmar o habitat e os organismos interagindo. “Os vídeos transmitidos em tempo real em zonas profundas surpreenderam o público com revelações de formas de vida totalmente diferentes daquelas já conhecidas. Para os cientistas, o ganho está na compreensão do ecossistema. Até pouco tempo, o conhecimento da diversidade em águas profundas em nossa região dependia de capturas feitas com redes, que traziam os organismos, solo, rochas, totalmente descaracterizados e fora de contexto”, explica o pesquisador José Angel Alvarez Perez, da Universidade do Vale do Itajaí (Univali), e membro da rede de pesquisadores do INPO.
Cientistas trabalham com dados remotos e modelos que permitem fazer previsões do cenário em oceano profundo. O uso de alta tecnologia, como no caso da expedição do navio Falkor, possibilitou a comprovação do que, até então, era suposição. “Ver aquilo que se esperava que deveria acontecer é sensacional. Mostrar ao mundo, também é. Na costa brasileira, há também muitos locais que acreditamos serem hotspots (ponto quente no manto terrestre), de diversidade profunda, mas não fomos ainda confirmar. É essa a importância da oportunidade que o SOI está trazendo à nossa região”, comemora Perez, que também participará da iniciativa como pesquisador.
O Brasil possui uma comunidade científica dedicada a estudar ambientes profundos do oceano em diferentes aspectos: físicos, químicos, biológicos e geológicos. No entanto, são raras as oportunidades de realização de um estudo integrado, em diferentes áreas, como o que ocorre na costa da Argentina e do Uruguai. A região profunda mais conhecida no país situa-se na margem continental das bacias do Espírito Santo, Campos e Santos, por conta dos estudos ambientais realizados no local para a exploração de petróleo e gás. “Mas há muito mais para ser conhecido. Uma das boas notícias é a estruturação de um programa de mar profundo no INPO, que pode facilitar estudos como esse”, destaca Perez.