Pesquisas investigam resiliência climática e impactos das ondas de calor na costa brasileira
Lideradas por Marcus Polette (Univali), as iniciativas analisam a percepção de surfistas e moradores para mapear vulnerabilidades em cidades costeiras e subsidiar políticas públicas
Duas importantes pesquisas acadêmicas em andamento no Brasil buscam preencher uma lacuna crítica de dados sobre o impacto das ondas de calor e das mudanças climáticas nas populações que têm o mar como elemento vital de suas vidas. A primeira, intitulada “Entre o sol e o mar: estratégias de adaptação, proteção à saúde e sustentabilidade para a comunidade de surfistas no Brasil”, é direcionada a surfistas de todo o Brasil.
Coordenada pelo Prof. Dr. Marcus Polette, pesquisador da rede do INPO e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciência e Tecnologia Ambiental da Universidade do Vale do Itajaí (Unavali), o estudo visa transformar a vivência cotidiana desses atletas e entusiastas em conhecimento científico para subsidiar políticas de proteção à saúde e sustentabilidade costeira.
De acordo com Polette, os surfistas estão na “linha de frente” das transformações ambientais. “É fundamental entender como quem sente no corpo, na pele e no mar os efeitos do calor extremo e do sol intenso está se adaptando”, explica o pesquisador. Dados preliminares mostram que a insolação e casos de câncer de pele entre praticantes de longa data (muitos na faixa de 40 a 60 anos) reforçam a necessidade de estratégias de proteção. Além disso, a pesquisa abre diálogo com a indústria de cosméticos para repensar a composição de protetores solares, na busca de produtos que protejam o ser humano sem afetar o ecossistema marinho.
Surfistas de qualquer região do Brasil podem responder ao formulário online. A participação é voluntária, anônima e leva poucos minutos.
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Verticalização e Ilhas de Calor em Balneário Camboriú
A segunda frente de pesquisa, “Entre o Sol e o Mar: Calor Extremo e Resiliência Climática na Zona Costeira (Ilhas de Calor)”, foca especificamente na Praia Central de Balneário Camboriú (SC). O estudo, também coordenado por Polette, busca entender a percepção de residentes, turistas e proprietários de imóveis sobre o fenômeno das ilhas de calor em um ambiente urbano marcado pela intensa verticalização. “O desenvolvimento dessas cidades costeiras ocorreu de forma muito rápida e, muitas vezes, orientada pelo setor imobiliário, deixando de lado questões fundamentais como áreas verdes e parques”, pontua o professor.
Balneário Camboriú, famosa por seus arranha-céus, enfrenta desafios únicos de resiliência climática.O fenômeno das “ilhas de calor” é agravado pela falta de arborização e pelo adensamento urbano, que, muitas vezes, supera a capacidade de carga suportada pelo município. “No Balneário, a população de 150 mil habitantes saltou para mais de dois milhões no verão. Essa pressão afeta a resiliência da infraestrutura e a saúde dos usuários da praia”, explica.
O estudo tem como público-alvo moradores, turistas e frequentadores de Balneário Camboriú.
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Ciência para as pessoas
As pesquisas alimentam o Observatório Costeiro, uma iniciativa apoiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) que visa suprir a carência de dados socioambientais organizados e transparentes para a zona costeira no Brasil. O objetivo é criar indicadores claros que permitam aos gestores públicos e à sociedade entender o estado real do ambiente costeiro. Para o pesquisador, integrar a dimensão humana às pesquisas oceânicas é um passo vital.
“O oceano depende diretamente das relações que ocorrem na área costeira. Entender o que as pessoas pensam e como elas interagem com esse ambiente é fundamental para implementarmos uma verdadeira cultura oceânica e uma economia azul sustentável”, afirma.
As pesquisas seguem abertas para coleta de dados durante o período de veraneio, que se estende até a Páscoa, momento em que a pressão sobre os municípios costeiros atinge seu ápice. Os resultados ajudarão não apenas na produção acadêmica, mas também no diálogo com o setor público e privado — como empresas de cosméticos, para o desenvolvimento de protetores solares mais eficazes e menos prejudiciais ao ecossistema marinho.
Os estudos são conduzidos pelo Laboratório de Conservação e Gestão Costeira da Escola Politécnica da Univali e pelo Observatório Costeiro, contando com o apoio de instituições como o Instituto Ecosurf, Io Tec LAB, CNPq e Capes.