INPO presta homenagem a mulheres que abriram caminhos na Ciência
Marta Vanucci, Zelinda Leão, Yocie Valentin, Ilana Wainer e Helena Nader têm trajetórias que se confundem com a própria história da pesquisa no Brasil
No mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, o INPO faz uma homenagem a mulheres pioneiras, que abriram caminhos e possibilitaram que tantas outras firmassem seus nomes na oceanografia e na ciência brasileira: Marta Vanucci, primeira mulher membro-titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC); Zelinda Leão, precursora dos estudos geológicos de recifes de corais no Brasil; Yocie Valentin, referência no estudo de macroalgas; Ilana Wainer, referência em Modelagem Climática e Circulação Oceânica, e Helena Nader, primeira presidente mulher da ABC. Todas elas possuem trajetórias que se confundem com a própria história da pesquisa no país e que evidenciam o papel decisivo das mulheres na formação de instituições, na criação de programas acadêmicos, e na defesa da Ciência.
“Os primeiros cursos formais de Oceanografia no Brasil surgiram nas décadas de 1950 a 1970, na Universidade de São Paulo (USP), na Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), num período em que muitas mulheres pioneiras enfrentaram barreiras institucionais significativas. Elas não apenas produziram ciência, mas ajudaram a criar laboratórios, estruturar programas de pós-graduação e formar as primeiras gerações de oceanógrafos brasileiros”, afirma Janice Trotte-Duhá, diretora de Infraestrutura e Operações do INPO.

A bióloga Marta Vanucci (1921-2021) nasceu na Itália, mas se mudou para o Brasil ainda criança. Fez história, inspirando gerações de oceanógrafos. Foi uma das responsáveis pela consolidação da oceanografia e da pesquisa marinha como área científica estratégica no país e pioneira no país na defesa da importância dos ambientes costeiros para a preservação do meio ambiente. Uma das fundadoras do Instituto Oceanográfico da USP, Marta foi a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Ciências (ABC) e a primeira a dirigir o Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP). “Marta Vannucci é lembrada não apenas pela produção científica, mas por sua atuação em defesa da ciência pública e da promoção da participação feminina na ciência”, ressalta Janice.
Yocie Valetin marcou a área de Biologia Marinha e, com mais de 50 anos de atuação, se destacou nos estudos das macroalgas no Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Contribuiu para o conhecimento dessas espécies no litoral brasileiro, principalmente na área de ressurgência, com água oriunda da zona subantártica. “Esse conhecimento proporcionou a descoberta de novas espécies numa zona ecológica atípica”, destaca Yocie. Sua carreira foi marcada por uma importante atuação no uso de algas para a produção de fármacos utilizados, por exemplo, no tratamento do vírus HIV e do vírus causador do herpes. Sua presença foi marcante também na formação de pesquisadores da área e na defesa da conscientização da sociedade sobre a importância de proteger o oceano.

“O oceano é, aparentemente, uma fonte inesgotável de recursos naturais para o ser humano. Porém, o efeito negativo da ação humana constitui uma crescente ameaça. Medidas devem ser tomadas para amenizar essas ameaças. Nesse contexto encontra-se o INPO, formado por uma rede de pesquisadores e especialistas nas diversas áreas das ciências do mar”, reforça Yocie.
Zelinda Leão é outra referência para o mundo da oceanografia brasileira. Foi precursora no estudo geológico de corais e seus trabalhos foram essenciais para a criação de unidades de conservação em áreas de recifes. “A minha ida para Abrolhos, em junho de 1977, para realizar meus trabalhos de campo para a minha tese de doutorado na Universidade de Miami, foi um dos momentos mais marcantes na minha carreira. A grande descoberta nesta pesquisa foi o conhecimento dos recifes de corais de Abrolhos, nesta época apenas descritos em relatos científicos de pesquisadores estrangeiros”, lembra Zelinda, que é professora aposentada da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e continua colaborando com projetos de pesquisas na pós-graduação em Geologia do Instituto de Geociências da UFBA.

Professora Livre Docente do departamento de Oceanografia Física do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), Ilana Wainer é especialista no estudo da interação entre oceano-atmosfera e clima, utilizando modelos acoplados de alta complexidade. Ao longo de sua carreira, construiu uma trajetória voltada à compreensão do papel do Atlântico Sul e do setor atlântico do Oceano Austral no sistema climático. “Considero particularmente relevante a ênfase que dei à interação entre o Oceano Austral e a AMOC, um dos componentes mais sensíveis da circulação climática global. Não se resume a uma descoberta isolada, mas à construção de um arcabouço interpretativo consistente para compreender como o Atlântico Sul participa da regulação do clima em escalas de tempo diversas”, revela.

Sobre a presença feminina na Oceanografia, Ilana, que é membro da Academia Brasileira de Ciências, comemora o número crescente de mulheres nos cursos de graduação e pós-graduação, mas ainda detecta grande desequilíbrio nas posições de liderança. “O desafio já não é apenas garantir acesso, mas assegurar permanência com reconhecimento, financiamento competitivo e protagonismo científico. A visibilidade de mulheres em posições de destaque tem efeito transformador, mas ainda há um caminho a percorrer para que a equidade seja estrutural e não circunstancial”, ressalta.
Professora emérita da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a biomédica Helena Nader atuou, entre 2011 e 2017, como presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Em 2022, foi eleita a primeira presidente mulher da Academia Brasileira de Ciências (ABC), em mais de um século de história da instituição. Em sua trajetória, Helena aliou as atividades de pesquisa ao exercício de cargos administrativos em destacadas instituições científicas. Também teve importante papel na identificação da necessidade de se promover a ciência oceânica no Brasil.

Como representante da ABC, passou a compor o Conselho de Administração do INPO. “O compartilhamento de valores comuns, desde os tempos de sua presidência junto à SBPC, tais como, o fortalecimento da ciência e da pesquisa, a integração de comunidades científicas, e a promoção de conhecimento para políticas públicas e sustentabilidade, forjaram uma contribuição muito especial da Helena para a ciência oceânica a cargo do INPO no Brasil”, destaca Janice.
A presidente da ABC defende o fortalecimento da ciência, tecnologia e inovação como estratégia nacional e a educação como base para o desenvolvimento científico. Promover a igualdade de gênero e pluralidade no meio científico também são pautas prioritárias. “As mulheres são as que mais se formam nas universidades, mas quando você olha no topo da carreira, elas não são a maioria”, comenta.
“Eu sou mãe, sou avó, eu adoro. Agora, não foi fácil. A cientista não pode ser impedida de ser mãe, mas a estrutura ainda é de que a mulher cuida e o homem ajuda. A sociedade tem que mudar”, enfatiza Helena.