Poluente proibido há décadas continua circulando na costa brasileira e desafia acordos internacionais
Estudo inédito na Europa, pesquisas no Brasil e evidências no México revelam que o TBT persiste no ambiente marinho, inclusive com produção ativa nos Estados Unidos
Um dos compostos mais tóxicos já introduzidos pelo ser humano no ambiente marinho continua ativo nos oceanos, décadas após sua proibição global. Pesquisas mostram que o tributilestanho, conhecido como TBT, segue sendo detectado nas regiões costeiras – em sedimentos, organismos marinhos e até na coluna d’água, indicando que seus impactos estão longe de ter sido superados. Estudo na Europa, pesquisas no Brasil e evidências no México revelam que o TBT persiste no ambiente e ainda circula globalmente, inclusive com produção ativa nos Estados Unidos.
A constatação ganha força com um estudo conduzido ao longo da costa de Portugal, publicado em maio na revista científica Marine Pollution Bulletin, que reúne mais de duas décadas de monitoramento ambiental. Parte das análises foi realizada no Brasil, no Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), sob coordenação do professor Gilberto Fillmann, Professor do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e membro da Rede INPO, que é referência internacional no estudo de contaminantes marinhos, evidenciando a contribuição direta da pesquisa brasileira para a compreensão desse problema em escala global.
Os resultados mostram que, embora os níveis tenham caído após a proibição internacional, o processo de recuperação estagnou e, em alguns casos, pode estar se revertendo.

Um problema global que não ficou no passado
O TBT foi amplamente utilizado entre as décadas de 1960 e 2000 em tintas anti-incrustantes aplicadas em embarcações para evitar a fixação de organismos marinhos. Sua eficiência era inquestionável. Sua toxicidade, devastadora. O composto é um desregulador endócrino capaz de provocar alterações profundas em organismos marinhos, sendo o efeito mais conhecido o imposex, quando fêmeas de moluscos desenvolvem características sexuais masculinas, comprometendo sua reprodução.
Diante desses impactos, o TBT foi proibido globalmente em 2008 pela Organização Marítima Internacional. Ainda assim, estudos recentes mostram que o problema persiste — e em escala global.



Casco de embarcação com tinta anti-incrustante, tecnologia amplamente utilizada no setor naval e que, por décadas, empregou compostos como o TBT . Fotos: Hein Mück / Wikimedia Commons (CC BY-SA) Local: estaleiro Nordseewerke, Alemanha
Portugal revela estagnação da recuperação
O estudo realizado na costa portuguesa indica que houve uma redução significativa da contaminação nas primeiras décadas após a proibição. No entanto, esse processo perdeu força ao longo do tempo.
Hoje, o TBT continua presente no ambiente e ainda provoca efeitos biológicos em diversas regiões, especialmente em áreas costeiras com intensa atividade de embarcações.
Os dados mostram que a recuperação foi mais evidente em áreas abertas e portos comerciais, mas permanece limitada em marinas, estuários e portos de pequeno porte, onde os níveis de contaminação seguem relevantes.
Para os pesquisadores, esse padrão indica que a legislação foi eficaz, mas não suficiente para eliminar o problema.
Brasil concentra hotspots de contaminação
No Brasil, um estudo que sintetiza décadas de monitoramento ao longo de mais de 6 mil quilômetros de costa confirma um cenário semelhante — e, em alguns aspectos, mais crítico. A pesquisa mostra que a contaminação por TBT permanece disseminada, com níveis elevados especialmente em marinas, estaleiros e portos de pequeno e médio porte.
Segundo o professor Gilberto Fillmann, a fiscalização é o principal gargalo:
“A fiscalização internacional resolveu grande parte do problema nos grandes navios, mas as embarcações menores continuam sendo um ponto crítico. Em alguns casos, elas ainda usam TBT porque é mais barato e mais eficiente.”
Além do uso ilegal, outro fator contribui para a persistência do contaminante. Durante a manutenção de embarcações, a raspagem de tintas antigas libera partículas altamente contaminadas, que se acumulam no sedimento e passam a atuar como fontes secundárias de contaminação.
Uma das descobertas mais recentes da pesquisa brasileira mostra que o TBT não está apenas presente no passado registrado nos sedimentos, mas também continua circulando no ambiente atual. Novas metodologias de monitoramento na coluna d’água indicam que o composto permanece biodisponível, ou seja, pode ser absorvido pelos organismos marinhos neste momento.
“Quando detectamos na água, isso significa que ele está disponível agora, entrando na cadeia alimentar”, explica Fillmann.
México continua vendendo e EUA produzindo
Se o Brasil evidencia a persistência do problema e Portugal aponta a estagnação da recuperação, um estudo conduzido na Península de Yucatán, no México, revela uma dimensão ainda mais complexa.
A pesquisa identificou níveis elevados de TBT e outros biocidas em sedimentos e organismos marinhos, especialmente em áreas com intensa atividade náutica. Em diversos pontos, as concentrações ultrapassam limites internacionais de segurança, indicando risco direto à vida marinha.
O professor Fillmann relata que, durante sua passagem pelo México, identificou a venda livre de tintas contendo TBT em lojas especializadas, inclusive com indicação explícita da presença do composto em altas concentrações.
E o dado mais contundente está na origem dessa contaminação. Apesar de proibido globalmente, o TBT continua sendo produzido nos Estados Unidos e comercializado internacionalmente, inclusive em países que adotaram convenções ambientais que restringem seu uso.
A contradição é direta. O composto é banido para uso, inclusive em território norte-americano, mas sua fabricação para exportação permanece ativa.
Segundo Fillmann, a equipe identificou a comercialização do produto em diferentes regiões do mundo, incluindo Caribe e Ásia, com origem em uma empresa norte-americana.
“É um produto proibido globalmente, mas que continua sendo produzido e distribuído. Isso mantém o ciclo de contaminação ativo”, afirma.
Entre o legado e o presente
Os estudos convergem para uma mesma conclusão. O TBT não é apenas um problema do passado, mas um contaminante que permanece ativo por dois motivos principais.
O primeiro é sua persistência ambiental. O composto pode permanecer por décadas nos sedimentos, sendo liberado lentamente de volta ao ambiente. O segundo é a continuidade de fontes de contaminação, seja por uso ilegal, seja pela circulação global do produto.
No oceano, onde não há fronteiras, a produção em um país, o uso em outro e os impactos distribuídos globalmente formam um sistema interconectado.
Para Fillmann, o alerta é claro:
“O problema não acabou. Ele mudou de forma, mas continua presente. E, em alguns lugares, ainda está ativo como se nunca tivesse sido proibido.”
Um alerta para o futuro
Fillmann destaca que o caso do TBT se tornou um dos exemplos mais emblemáticos da poluição química marinha. E evidencia que banir uma substância não é suficiente para eliminar seus efeitos, especialmente quando persistem lacunas na fiscalização e na governança internacional.
“O problema deixa claro que, ou não temos uma legislação efetiva, ou ela não está sendo implementada de forma eficiente. No Brasil, a fiscalização é praticamente inexistente. O problema só não é maior porque grandes embarcações, que circulam em portos internacionais, são fiscalizadas no exterior, o que nos beneficia. Mas em embarcações abaixo de 25 metros, que operam apenas localmente, assim como nos estaleiros onde recebem manutenção, a fiscalização é inexistente.”
E conclui que, mais do que um capítulo encerrado, o TBT representa um alerta contínuo sobre os desafios de controlar contaminantes em escala global.