Reunião Magna da ABC destaca impactos do aquecimento global no oceano
destaque-4Membros da rede de pesquisadores do INPO participaram do primeiro dia do evento no Rio de Janeiro
Os impactos do aquecimento global sobre o oceano e suas consequências para o equilíbrio climático do planeta estiveram no centro dos debates do primeiro dia da Reunião Magna da Academia Brasileira de Ciências (ABC) 2026. Sob coordenação de Luiz Drude de Lacerda, da Universidade Federal do Ceará (UFC) e presidente do Conselho Científico do INPO, o encontro reuniu pesquisadores e especialistas para discutir o “Oceano do amanhã”.
“O objetivo é discutir o papel essencial do oceano no equilíbrio planetário, destacando sua importância na regulação do clima, na manutenção da biodiversidade marinha e no fornecimento de serviços ecossistêmicos fundamentais para a humanidade”, afirmou Lacerda, lembrando que o oceano cobre cerca de 70% da superfície terrestre — sendo 39% em áreas costeiras e 61% em regiões profundas.

“O colapso da AMOC: impactos no clima e eventos extremos”, foi o tema da Conferência Magna conduzida por Edmo Campos, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) e integrante da rede do INPO. A AMOC (Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico) é um sistema de correntes oceânicas responsável por redistribuir calor pelo planeta, desempenhando papel central na regulação climática global.
O pesquisador destacou que o oceano já absorveu cerca de 90% do calor gerado pelo aquecimento global, funcionando como um amortecedor térmico. No entanto, esse equilíbrio está sob pressão. “Estamos provocando o oceano, e ele está demonstrando que está sentindo essas mudanças”, alertou.

Campos ressaltou que o derretimento de gelo nas regiões polares tem aumentado a entrada de água doce no oceano, o que pode enfraquecer a AMOC. Esse enfraquecimento está associado a possíveis “tipping points” — pontos de não retorno no sistema climático, que, uma vez atingidos, dificilmente são revertidos. Entre as consequências de um eventual colapso estão o resfriamento do Atlântico Norte, o aquecimento do Atlântico Sul, alterações nos regimes de chuva, intensificação de eventos extremos e impactos diretos na agricultura, na infraestrutura e na segurança energética.“O impacto será global e inevitável. A dúvida não é se vai acontecer, mas quando”, ressaltou.
O professor também enfatizou a importância de sistemas de monitoramento de longo prazo, como o SAMBA (da sigla em inglês South Atlantic Meridional Overturning Circulation Basin-wide Array), que acompanha a circulação no Atlântico Sul. Para ele, iniciativas desse tipo exigem compromisso contínuo de Estado e cooperação internacional, pois somente com monitoramento constante é possível tirar conclusões mais assertivas e desenvolver adaptações.
Mudanças climáticas e oceano
Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e membro da rede do INPO, participou da primeira plenária, que contou ainda com os pesquisadores Jefferson Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Cristiano Chiessi, da Universidade de São Paulo (USP), e mediação de Ilana Wainer, também da USP. A pesquisadora apresentou um panorama atualizado sobre os efeitos das mudanças climáticas no oceano. Ela alertou para a possível redução da capacidade do mar em absorver calor e carbono, já que estudos recentes indicam que esse mecanismo pode estar perdendo eficiência, o que agravaria ainda mais o aquecimento global.
O aumento da temperatura gera efeitos em cascata, como ondas de calor marinho, redução do oxigênio na água e a acidificação do oceano. Segundo Regina, esse contexto agravou-se gradativamente a partir de 1980. “Esses eventos compostos aumentaram drasticamente nas últimas décadas, diminuindo a capacidade desses ecossistemas se recuperarem”, lembrou.

De acordo com a professora, ecossistemas e espécies são diretamente afetados. Ela chamou atenção, por exemplo, para o branqueamento em massa dos recifes de corais, considerados próximos de atingir pontos de não retorno. Mencionou ainda a diminuição das microalgas, o que afetaria a base da cadeia alimentar da vida no mar. “Precisamos de um oceano saudável para preservar ecossistemas silvestres e marinhos. Mas como convencer os políticos de que precisamos de mudanças? A questão é que pesquisamos o problema e não a solução. Talvez devêssemos trabalhar de forma interdisciplinar, com outras áreas de conhecimento, para apresentar resultados e contribuir para o surgimento de políticas públicas”, defendeu.
Nesta quarta-feira (6), os diretores do INPO Segen Estefen, Andrei Polejack e Janice Trotte-Duhá vão participar da programação da Reunião Magna. Confira aqui. As discussões seguem até quinta-feira (7). É possível acompanhar presencialmente, mediante inscrição, e online pelo YouTube da ABC.
A presidente da Academia Brasileira de Ciências, Helena Nader, destacou que, ao fim do evento, será elaborado um documento que deve servir de base para políticas públicas e estratégias de cooperação científica internacional.