INSTITUIÇÃO DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO

Atuação feminina na ciência oceânica é destacada no último dia da Reunião Magna da ABC

Letícia Cotrim (UERJ e rede INPO): "Precisamos de ciência, monitoramento e governança”
07 DE MAIO, 2026
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Pesquisadoras e lideranças brasileiras e internacionais encerram encontro com reflexões sobre desigualdade de gênero, mudanças climáticas e desafios da preservação marinha

O papel das mulheres na ciência oceanográfica dominou os debates no  terceiro e último dia da edição 2026 da Reunião Magna da Academia Brasileira de Ciências, realizada no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Na programação, palestras de pesquisadoras latino-americanas e lideranças internacionais, além de homenagens a pioneiras da ciência, encerrando o encontro com reflexões sobre desigualdade de gênero, mudanças climáticas e os desafios da preservação marinha.

A oceanógrafa e diplomata brasileira Letícia Carvalho, primeira mulher e primeira latino-americana eleita para liderar a International Seabed Authority (ISA) no mandato 2025-2028, destacou a necessidade de fortalecer a presença brasileira na pesquisa oceânica internacional e valorizou o papel estratégico do INPO. 

Letícia Carvalho e Helena Nader, presidente da ABC

Ao se dirigir à diretora de Infraestrutura e Operações do instituto, Janice Trotte-Duhá, Letícia afirmou que o INPO representa um avanço institucional decisivo para a oceanografia brasileira. “A sua instituição representa exatamente os meios. Tem o sonho, o que a gente sabe que precisa ser feito, e vocês mobilizam os meios”, declarou, defendendo, ainda, a ampliação da infraestrutura científica brasileira voltada ao monitoramento dos oceanos. 

Em sua apresentação, intitulada Governança Global dos Oceanos para o Patrimônio Comum da Humanidade. Um Dever Compartilhado, a oceanógrafa reforçou que o Brasil precisa fortalecer sua presença em regiões estratégicas, como a margem equatorial. “Os nossos navios precisam estar lá na água, com nossos estudantes, pesquisadores e dados gerados”, disse, complementando que o INPO pode desempenhar papel central nessa articulação científica, técnica e diplomática.

A primeira sessão plenária do dia foi composta exclusivamente por cientistas latino-americanas. Coordenada por Monica Muelbert, da Universidade Federal do Rio Grande (Furg), a sessão reuniu Silvia De Marco, da Universidade Nacional de Mar Del Plata; Letícia Cotrim, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e integrante da rede de pesquisadores do INPO; e Judith Gobin, da University of the West Indies.

Na palestra Cientistas marinhas contra a corrente: navegando pelas desigualdades de gênero?, Silvia De Marco apresentou dados sobre a participação feminina na ciência e relatou experiências pessoais de violência de gênero no ambiente acadêmico. “A ciência tem a face de uma mulher, mas a voz de um homem”, declarou. 

Monica Muelbert (esq.), Silvia De Marco, Letícia Cotrim e Judith Gobin

Letícia Cotrim falou sobre O oceano no clima em mudança: como a ciência pode nos ajudar?, discutindo os impactos do aquecimento global sobre o oceano e ressaltando o papel da ciência na formulação de estratégias de mitigação e adaptação climática.

A pesquisadora da rede do INPO explicou que o oceano está mais quente, mais ácido e com menor concentração de oxigênio — processos que, segundo ela, são irreversíveis na escala de tempo da vida humana. Letícia apresentou dados que mostram o aumento da temperatura oceânica em diferentes profundidades desde a década de 1980 e alertou para a redução do oxigênio. Também abordou o processo de acidificação oceânica causado pela absorção de dióxido de carbono da atmosfera, alertando que, embora a alteração no pH da água pareça pequena, os impactos sobre a biodiversidade marinha podem ser profundos e em cascata.

Ao tratar das soluções, Letícia destacou a necessidade de ações simultâneas de adaptação, mitigação e redução efetiva das emissões de gases de efeito estufa. Entre as alternativas em estudo estão o uso de macroalgas para captura de carbono e técnicas de aumento da alcalinidade do oceano. Ela frisou ainda a importância da ciência transdisciplinar, da modelagem numérica e da observação oceânica contínua para enfrentar os desafios climáticos.  “Precisamos de ciência, monitoramento e governança”, resumiu. 

Encerrando a programação, a Reunião Magna promoveu uma homenagem especial a duas referências históricas da ciência: Marta Vannucci e Marie Curie. A sessão foi conduzida por Ildeu Moreira (UFRJ) e reforçou a importância do reconhecimento às mulheres que abriram caminhos na pesquisa científica e na oceanografia.