Mudanças climáticas alteram rotas de peixes e impactam produtividade em águas tropicais
Migração de pescados é impulsionada pelo aumento da temperatura das águas
O avanço das mudanças climáticas está redesenhando não apenas paisagens terrestres, mas também a dinâmica do oceano — com efeitos diretos sobre a vida marinha e as populações humanas que dela dependem. Um dos fenômenos mais preocupantes é a alteração nas migrações de peixes, impulsionada pelo aumento da temperatura das águas, o que vem afetando a pesca e a economia de diversas regiões.
A mudança nas migrações vem ocorrendo porque, diferentemente dos humanos, os peixes não mantêm uma temperatura corporal constante. Ela varia de acordo com a temperatura ambiente, o que popularmente é conhecido como “sangue frio” (cientificamente chamado de poiquilotermia). Cada espécie de peixe tem também o seu estado térmico ideal para um bom desenvolvimento, alimentação, metabolismo e reprodução. Assim, temperaturas mais altas causadas pelo aquecimento global podem acelerar o crescimento dos peixes, mas também afetar negativamente seu sistema imunológico e aumentar sua vulnerabilidade a doenças e parasitas.
“Os peixes, portanto, procuram por áreas com temperaturas mais adequadas ao seu funcionamento, migrando para locais mais frios (às vezes mais ao Sul ou mais profundos) e, desta forma, ocasionando mudanças na pesca em uma determinada região”, explica o professor e pesquisador Ronaldo Cavalli, da Universidade Federal do Rio Grande (Furg) e membro da rede de pesquisadores do INPO.
Diante dessas condições, muitas espécies passam a migrar em busca de águas mais frias. Essas mudanças já são observadas no Brasil. Estudo publicado em 2024, identificou que a albacorinha (Thunnus atlanticus), espécie tradicionalmente pescada na região Nordeste, vem modificando suas rotas. Essa espécie apresenta registros frequentes na região Sul do país e pode, em breve, alcançar águas do Uruguai e da Argentina.
Intitulado “Poleward catch displacement of blackfin tuna Thunnus atlanticus in the southwestern Atlantic Ocean: Possible effect of increasing water temperatures”, o artigo, publicado sob a liderança do professor Luís Gustavo Cardoso, aponta que, a partir de 2007, houve um aumento nas capturas da espécie por frotas pesqueiras do Sul do Brasil, além de uma mudança geográfica nos locais de pesca. Ao longo das últimas décadas, a temperatura da superfície do mar apresentou tendência de aquecimento, especialmente após os anos 2000. Os dados sugerem que a distribuição da albacorinha avançou cerca de seis graus de latitude — aproximadamente 660 quilômetros — em direção ao polo Sul, tendo o aquecimento do oceano como principal fator.

Pesquisadora prevê queda de 30% de produtividade
Essa redistribuição tem consequências diretas para o setor pesqueiro. No Brasil, a pesca da albacorinha tornou-se mais instável, dificultando a previsibilidade das capturas. Para pescadores, especialmente os artesanais, isso significa renda irregular e maior insegurança econômica. Além disso, a necessidade de percorrer distâncias maiores para encontrar os cardumes eleva os custos da atividade, reduzindo a lucratividade.
Segundo Flávia Frédou, professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e integrante da rede de pesquisadores do INPO, a questão é muito mais abrangente. “A consequência do aumento da temperatura é a migração de espécies para zonas mais frias, uma questão global que afetará as águas tropicais, onde estão países em desenvolvimento, que têm a pesca como fator muito importante para a segurança alimentar”, reforça, prevendo uma queda de produtividade de 30%.

Os impactos vão além da pesca em si. A mudança de rota entre países gera novas questões. Diante da possível chegada da albacorinha a águas internacionais mais ao Sul, especialistas também alertam para a necessidade de cooperação entre países, já que um eventual aumento da pesca no Uruguai e na Argentina pode exigir acordos. “Talvez venha a requerer a negociação de um gerenciamento compartilhado da pesca entre os três países”, alerta Cavalli.
A atividade movimenta cadeias inteiras, incluindo comércio, transporte e processamento de pescados. A diminuição da disponibilidade de peixes também afeta a alimentação de comunidades costeiras, que dependem dessa fonte de proteína. Nesse contexto, os pescadores artesanais são os mais vulneráveis, fato que tende a aprofundar desigualdades dentro do setor, conforme detalha o pesquisador da rede do INPO. “Como a quantidade capturada varia bastante ao longo do tempo, os pescadores enfrentam dificuldades para manter uma renda estável, o que compromete o planejamento financeiro e a segurança econômica das famílias”.
Efeitos do aquecimento global no oceano vão além das migrações
Outros exemplos dos efeitos das mudanças climáticas na pesca se espalham pelo país. Flávia Frédou analisa a questão no Nordeste. Para a pesquisadora, a seca é uma marca do aquecimento global na região Nordeste do Brasil e afeta os estuários, locais onde a água doce dos rios se encontra com a salgada. “Isso acarreta um fenômeno denominado salinização. A força que o rio tem de empurrar o mar diminui e este adentra as regiões, o que pode afetar toda a biota aquática e, consequentemente, a pesca”, explica.
Ronaldo Cavalli ressalta os fenômenos climáticos advindos do aquecimento global. Na Lagoa dos Patos, no Rio Grande do Sul, a safra de camarão rosa é cada vez menor, já que o excesso de chuvas impede o crustáceo de entrar na região. “Além disso, em Florianópolis, Santa Catarina, há uma mortandade gigantesca de ostras cultivadas por conta do calor. No Rio Araguaia, no Tocantins, os pescadores vêm relatando cada vez menos peixes, o que faz com que tenham que se deslocar até 60 quilômetros ao longo do rio para pescar”, lamenta o pesquisador.
Para muitas comunidades pesqueiras, o caminho é a adaptação. Nem todas conseguem diversificar atividades ou buscar novas espécies, o que agrava os impactos sociais e econômicos e impacta a segurança alimentar da população. O cenário evidencia como as mudanças climáticas afetam tanto o campo ambiental quanto a economia. No oceano, assim como em terra firme, seus efeitos já são concretos.