INSTITUIÇÃO DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO

Saúde azul: pesquisadores defendem cooperação científica e dados interoperáveis para criação de sistemas de alerta precoces

Andrei Polejack, Diretor de Pesquisas e Inovação do INPO, mediou a mesa “Ocean observations as an integrative foundation for Blue One Health”
14 DE MAIO, 2026
Compartilhe

Diretor  de Pesquisa e Inovação do INPO destacou que o Brasil pode ser expoente nessa agenda de saúde integrada

O oceano como aliado da saúde humana, animal e ambiental esteve em evidência nas discussões da mesa “Ocean observations as an integrative foundation for Blue One Health”, realizada durante o evento “Blue One Health Dialogues: Bridging Ocean Science and One Health”. Mediado pelo diretor de Pesquisa e Inovação do INPO, Andrei Polejack, o encontro reuniu pesquisadores em defesa da integração entre dados oceanográficos, climáticos e de saúde pública para criar sistemas de alerta precoces, capazes de prevenir doenças e proteger populações humanas e ecossistemas marinhos.

Participaram do debate o professor Moacyr Araújo, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e membro da rede de pesquisadores do INPO; a pesquisadora e coordenadora de Pesquisa e Inovação do INPO, Priscila Lange; e Silvia Matos Nascimento, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio).

“Ao longo da sessão, apresentamos a possibilidade de fazer o cruzamento de dados e pesquisas de áreas muito distintas para o benefício de uma saúde integrada. Há chance de o Brasil ser um expoente nessa agenda. Não podemos jamais esquecer o bem que o mar nos faz. O oceano está em tudo”, ressaltou Polejack.

Silvia Nascimento alertou sobre os impactos das microalgas nocivas na saúde humana e na fauna marinha, ao explicar que algumas espécies produzem toxinas capazes de se acumular em peixes e moluscos, causando intoxicações alimentares graves. Como exemplo, mostrou análises desenvolvidas em Fernando de Noronha, em Pernambuco. Os pesquisadores verificaram no local um aumento da incidência de ciguatera, uma intoxicação alimentar decorrente do consumo de peixes contaminados por microalgas tóxicas. As conclusões serviram como um alerta para a população local, o que ajudou na prevenção e nos tratamentos.  

De acordo com Silvia, o monitoramento de microalgas nocivas pode funcionar como ferramenta estratégica para prevenir riscos à saúde pública. “Com as mudanças climáticas, essas doenças estão se expandindo”, avisou a pesquisadora. 

Moacyr Araújo apresentou pesquisas que relacionam o aumento da temperatura da superfície do oceano à incidência de dengue em municípios da região metropolitana de Recife. A análise de dados oceânicos possibilitou a previsão de chuvas na região, que interferem diretamente no aumento dos casos de dengue na população. 

“É extremamente útil em termos de defesa civil. É comum se fazer a associação entre as chuvas e a dengue. No entanto, olhar para o oceano primeiro faz com que você ganhe meses de antecedência”, afirmou, ressaltando o ganho de tempo para o desenvolvimento de medidas preventivas.

Araújo destacou, ainda, que eventos extremos de precipitação, intensificados pelas mudanças climáticas, estão associados ao aquecimento oceânico e ao aumento da umidade transportada para o continente.

A coordenadora do INPO, Priscila Lange, reforçou a necessidade de integração entre dados ambientais, climáticos e de saúde para consolidar uma estratégia nacional de Saúde Azul. Segundo ela, embora o Brasil ainda não possua um programa nacional estruturado nessa área, o país já dispõe de inúmeras plataformas de dados disponíveis. 

A pesquisadora lembrou que o instituto trabalha atualmente na estruturação de um sistema integrado de dados oceânicos para facilitar análises conjuntas e subsidiar políticas públicas. “O país tem muita capacidade de desenvolver rapidamente um programa de Saúde Azul. Temos muitas plataformas de dados. Precisamos definir os problemas mais importantes, harmonizar dados e torná-los acessíveis para os tomadores de decisão”, defendeu.

Ao final do debate, os participantes destacaram como prioridades a criação de plataformas interoperáveis de dados e o fortalecimento da cooperação científica para o desenvolvimento de sistemas de alerta precoces. “O oceano pode ser o marca-passo da saúde humana no país inteiro, porque influencia o clima. Precisamos aprender a ler o mar para saber o que vai acontecer daqui a dois, três meses”, concluiu Priscila.