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Possibilidade de ‘Super El Niño’ acende alerta para o Brasil

Regina Rodrigues (UFSC/Rede INPO)
19 DE MAIO, 2026
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Pesquisadora Regina Rodrigues, da UFSC e da rede do INPO, diz que previsão requer urgência nas medidas de adaptação

As chances de formação de um novo El Niño em 2026 já ultrapassam 90%, segundo projeções da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), agência norte-americana responsável pelo monitoramento do oceano e da atmosfera. Os modelos climáticos também indicam cerca de 50% de probabilidade de que o fenômeno alcance intensidade forte ou muito forte – cenário popularmente chamado de “Super El Niño”. A possibilidade acende um alerta para o Brasil, principalmente após os eventos extremos registrados em 2023 e 2024, como as secas severas na Amazônia e as enchentes históricas no Rio Grande do Sul. A pesquisadora Regina Rodrigues, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e membro da rede de pesquisadores do INPO, chama atenção para  um aumento na frequência e na intensidade do fenômeno e ressalta a necessidade de medidas preventivas.

A imagem mostra o aumento da temperatura da superfície do mar no Oceano Pacífico Equatorial durante um evento de El Niño. As áreas em vermelho indicam águas mais quentes que o normal, concentradas na faixa equatorial, característica típica do fenômeno

Quais seriam os impactos do Super El Niño para o Brasil?

Geralmente esses El Niños fortes causam chuva severa no Sul do país e secas, geralmente, no Norte, na Amazônia, por exemplo, e no Nordeste. Então, estamos esperando esse padrão de impacto. Mas não é apenas a intensidade que define as consequências, há também outros fatores. O El Niño começa, geralmente, em julho/agosto e tem o seu pico em dezembro/janeiro/fevereiro. Depois, cai e vai acabar por volta de junho, julho e agosto. Porém, um fenômeno é sempre diferente do outro. As piores enchentes que tivemos no Rio Grande do Sul foram no segundo ano, em maio de 2024, quando o fenômeno já estava fraco. Às vezes, não é só a intensidade. O sistema climático é complexo.

Um fator que temos que levar em consideração sobre os impactos, é que eles estão ficando mais fortes. As mudanças climáticas estão fazendo com que os fenômenos fiquem mais frequentes e intensos. Existia um intervalo entre esses grandes El Niños, de cerca de 15 anos. Agora, a gente já está esperando um novo depois de apenas dois anos.

E outro ponto das mudanças climáticas é que elas agravam as tendências. Quando a situação sinótica (estado geral da atmosfera em uma grande região e em um momento específico) se configura, mostrando que haverá enchentes ou chuvas em excesso no Sul ou seca na Amazônia ou no Nordeste, isso é acentuado pelas mudanças climáticas. Com a atmosfera mais quente, as secas são mais severas. Essa atmosfera mais quente carrega mais umidade. Por isso, a chuva vai ser muito mais extensa e intensa.

As enchentes do Rio Grande do Sul, não tiveram precedentes no Brasil em termos de extensão e volume, assim como a seca na Amazônia, em 2023.

Por que as previsões estão oscilando tanto?

A previsão do El Niño tem a ver com o que chamamos de barreira de previsibilidade da primavera (no Hemisfério Norte) e do outono (no Hemisfério Sul), por conta de processos que ocorrem no Oceano Pacífico. Por isso, as previsões de agora em diante são muito mais confiáveis. 

Há algo que possa ser feito para amenizar a situação? O que os tomadores de decisão podem fazer com estas previsões da ciência?

Esse é o diagnóstico. Se tudo se confirmar, a gente vai ter uma chance grande de ter enchentes no Sul do país. Agora, onde essas enchentes vão ocorrer, não sabemos. No Vale do Itajaí? Em Porto Alegre? Isso é complicado. Só vamos saber com 10, 20 dias de antecedência. Por isso, no Sul do país, todos os estados e municípios precisam estar preparados, desde a limpeza e drenagem da cidade até os sistemas de alerta, a defesa civil e o treinamento da população. Porque não adianta ter apenas um sistema de alerta. Isso ficou claro no último desastre, em Minas Gerais. As pessoas não sabiam o que fazer com o alerta. Saber evacuar, direcionar para onde ir, apontar as áreas de risco. Portanto, quando o alerta chegar, as regiões já devem estar preparadas para responder. A preparação envolve uma gama de medidas. O momento é agora! Porque pode acontecer em setembro, outubro, novembro, até no ano que vem.

Já a seca não tem um impacto imediato, mas os efeitos são mais prolongados. Na Amazônia, é preciso tomar cuidado com as populações ribeirinhas, que vivem da agricultura de subsistência. Não há reserva de alimento e, quando a seca ocorre, esta população fica muito vulnerável. É preciso planejar e pensar em alternativas de plantio e alimentares para estas áreas.

Entenda o fenômeno

O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Trata-se de uma das principais formas de variabilidade climática do planeta e ocorre como parte de um sistema mais amplo de interação entre oceano e atmosfera.

Em condições normais, os ventos alísios sopram de leste para oeste ao longo do Pacífico, empurrando as águas quentes em direção à Ásia e à Oceania. Esse movimento permite que águas frias subam à superfície na costa oeste da América do Sul, contribuindo para o equilíbrio do sistema climático.

Durante o El Niño, esses ventos enfraquecem ou mudam de direção. Com isso, as águas quentes se deslocam para o centro e o leste do Pacífico, reduzindo a ressurgência de águas frias. Esse processo altera a dinâmica entre oceano e atmosfera e desencadeia mudanças que se propagam pelo planeta.

As alterações na temperatura do oceano afetam diretamente a circulação atmosférica, influenciando padrões de chuva, vento e temperatura em diferentes regiões do mundo.

Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), eventos como o El Niño tendem a elevar a temperatura média global e estão associados a uma maior ocorrência de situações extremas, como secas, enchentes e ondas de calor. Esse efeito ocorre porque o fenômeno redistribui grandes quantidades de calor na atmosfera, alterando sistemas de pressão e circulação em escala planetária (Leia informações completas sobre o fenômeno na seção blog do site).