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Pesquisador da rede do INPO explora região pouco conhecida do Atlântico em busca de fontes hidrotermais e novas pistas sobre a vida em mar profundo

15 DE JUNHO, 2026
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A bordo do navio de pesquisa R/V Falkor (too), Alex Bastos participará de quatro expedições realizadas pelo navio

Uma das regiões menos exploradas do planeta está sendo investigada por uma equipe de cientistas de vários países. Eles estão realizando suas investigações no navio de pesquisas oceanográficas R/V Falkor (too), do Schmidt Ocean Institute, que se encontra ao largo da margem continental brasileira, explorando o oceano profundo do Atlântico Equatorial. Pesquisadores brasileiros participarão de trechos da expedição, colaborando com os estudos e avançando em suas investigações. 

De maio até o próximo dia 20, Alex Bastos, professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), coordenador do Laboratório de Geociências Marinhas (Labogeo) e integrante da rede de pesquisadores do INPO, está a bordo do navio para desvendar os segredos da Zona de Fratura Doldrums, localizada em uma zona de falhas associadas à Cordilheira Mesoatlântica, onde as placas tectônicas se movimentam e promovem a expansão do fundo oceânico,  favorecendo a circulação de água através da crosta terrestre.

Alex Bastos (UFES e rede do INPO, à direita) e integrantes do Labogeo (UFES)

O pesquisador da UFES integra quatro projetos aprovados pelo programa de expedições da organização responsável pelo navio. As propostas foram selecionadas em uma concorrência internacional que reuniu dezenas de projetos científicos. Atualmente, Bastos participa da investigação na Zona de Fratura Doldrums. Em setembro, embarcará em uma nova missão liderada pelo pesquisador Angel Pérez (da Universidade do Vale do Itajaí e também integrante da rede do INPO). Já entre dezembro de 2026 e janeiro de 2027, comandará sua própria expedição como pesquisador principal. O projeto coordenado por ele terá como foco o papel de habitats de corais de águas profundas no armazenamento de carbono nos oceanos.

“Nessa expedição de agora, temos o objetivo de avaliar a morfologia, o relevo, o que ele reflete em termos de processos tectônicos, processos sedimentares e a relação desse relevo com a biodiversidade de fundo. Temos também o objetivo de encontrar fontes hidrotermais”, explica Bastos, que embarcou no navio em 17 de maio, no Ceará, e chegará em Trinidad e Tobago em 20 de junho.

A região estudada apresenta características geológicas consideradas estratégicas para a compreensão da evolução do fundo oceânico, da biodiversidade marinha profunda e da ocorrência de fontes hidrotermais. “Estamos explorando áreas que nunca foram mapeadas diretamente. Ainda hoje apenas cerca de 28% do fundo dos oceanos foi efetivamente mapeado com medições diretas”, explica Bastos.

Uma rotina intensa em busca de respostas no fundo do mar

O trabalho científico ocorre em ciclos que podem durar até três dias. A primeira etapa consiste no mapeamento de grandes áreas do fundo oceânico por meio dos sistemas acústicos instalados no navio. Os dados coletados permitem a construção de modelos digitais do relevo submarino. Após essa análise inicial, os pesquisadores selecionam áreas consideradas mais promissoras para investigações detalhadas. É nesse momento que entra em ação um Veículo Autônomo Submersível (AUV, na sigla em inglês), capaz de operar a apenas 50 metros acima do fundo marinho.

Enquanto o navio realiza levantamentos a aproximadamente 4 mil metros acima do leito oceânico, o AUV produz mapas de altíssima resolução e coleta informações sobre profundidade, relevo, composição do fundo e parâmetros físico-químicos da água, como concentração de metano, oxigênio dissolvido e fluorescência.

“O equipamento permite identificar possíveis evidências de fontes hidrotermais ou exsudações de metano, conhecidas como cold seeps”, destaca o pesquisador.

Quando os dados indicam áreas de interesse especial, os cientistas lançam um segundo equipamento: um Veículo Operado Remotamente (ROV), conectado ao navio por um cabo umbilical e controlado em tempo real por pilotos especializados. O ROV permanece até 16 horas no fundo do mar durante cada mergulho. Equipado com câmeras de alta definição, braços mecânicos e sistemas de coleta, ele permite recolher sedimentos, rochas, organismos marinhos e outros materiais para análises posteriores.

Integrantes do Labogeo analisando amostras

Entre a geologia e a biodiversidade

Segundo Bastos, a expedição busca compreender a relação entre a geodiversidade e a biodiversidade em ambientes profundos. Os pesquisadores investigam como o relevo submarino influencia a distribuição de comunidades bentônicas — organismos que vivem associados ao fundo marinho — e como fatores como temperatura, salinidade, oxigenação e circulação das massas de água moldam esses ecossistemas.

Outro foco importante está nos sedimentos marinhos. Amostras coletadas no fundo oceânico permitem estudar processos sedimentares, mudanças ambientais e até registros climáticos do passado. Entre os organismos analisados estão os foraminíferos, micro-organismos com carapaças de carbonato de cálcio que preservam informações químicas sobre as condições do oceano ao longo do tempo. “Esses foraminíferos trazem informações importantes sobre mudança climática. Esses registros ajudam a reconstruir variações de temperatura, circulação oceânica e ciclos do carbono ocorridos ao longo de milhares de anos”, explica.

A importância da Zona de Fratura Doldrums

A área estudada está localizada em uma zona de falhas associadas à Cordilheira Mesoatlântica, onde as placas tectônicas se movimentam e promovem a expansão do fundo oceânico. Essas estruturas geológicas favorecem a circulação de água através da crosta terrestre. Ao penetrar nas rochas e entrar em contato com materiais aquecidos pelo magma, a água retorna à superfície enriquecida em minerais como ferro, magnésio e enxofre, formando as chamadas fontes hidrotermais.

Esses ambientes extremos sustentam ecossistemas únicos, baseados não na fotossíntese, mas na quimiossíntese, processo em que organismos utilizam energia proveniente de reações químicas para sobreviver. Além do potencial biológico, a região se destaca pelo relevo.

“Existem montanhas submarinas com até mais de 3 mil metros de diferença de altitude. O Brasil não possui montanhas dessa altura em terra firme, mas elas são comuns no fundo dos oceanos”, observa Bastos.

Ciência em tempo real

Apesar da distância da costa, a equipe mantém contato constante com instituições de ensino, pesquisadores e o público em geral. O navio promove atividades de divulgação científica por meio do programa “Ship to Shore”, que conecta a expedição a escolas e universidades por videoconferência.

Durante a missão atual, Bastos já participou de encontros virtuais com estudantes do Espírito Santo e de universidades brasileiras, incluindo a UFES, a Universidade Federal do Ceará, a Universidade Federal do Pará, a Universidade Federal de São Paulo e a Universidade de São Paulo.

Outro diferencial é a transmissão ao vivo dos mergulhos do ROV pela internet. As operações podem ser acompanhadas em tempo real por milhares de pessoas em diferentes países, que também têm a oportunidade de enviar perguntas diretamente aos cientistas embarcados.

“A ideia é que a pesquisa não fique isolada no oceano. O conhecimento produzido aqui precisa chegar às universidades, às escolas e à sociedade”, afirma Bastos.

Enquanto o navio segue explorando uma das áreas mais desconhecidas do Atlântico, os dados e amostras coletados vão contribuindo para ampliar a compreensão sobre o oceano profundo e os ecossistemas que ainda permanecem ocultos abaixo das águas.

É possível acompanhar a localização do navio em tempo real clicando aqui.