Novo relatório da ONU alerta para crise profunda nos oceanos e aceleração das mudanças climáticas
BiodiversidadeoceanoONUVida MarinhaTerceira Avaliação Mundial do Oceano foi divulgada neste mês de junho
Embora cubra mais de 70% da Terra e atue como o principal sistema de suporte à vida, regulando o clima e produzindo a maior parte do oxigênio, o oceano está sob estresse crescente devido à superexploração, poluição e aos impactos acelerados das mudanças climáticas. Dados da Terceira Avaliação Mundial do Oceano (World Ocean Assessment 3) da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgada neste mês de junho, alertam para a velocidade das transformações. A taxa de elevação do nível do mar dobrou, passando de menos de 2,0 mm por ano antes de 2015 para 4,3 mm por ano em 2023. Além disso, o aquecimento oceânico está se intensificando: cerca de 16% de todo o aumento do conteúdo de calor do oceano registrado desde 1955 ocorreu apenas entre 2018 e os dias atuais.
Essa escalada térmica ameaça extinguir o gelo marinho do Ártico, que pode desaparecer completamente durante o mês de setembro até meados do século XXI. Paralelamente, a absorção de CO2 tem causado uma acidificação contínua, enquanto as “zonas mortas” (hipóxicas), onde há falta de oxigênio, expandiram-se em 4,5 milhões de km² nos últimos 50 anos.
Biodiversidade sob ataque: plásticos e corais
A crise da biodiversidade marinha atingiu níveis críticos. O relatório destaca que 90% dos recifes de coral podem desaparecer se o aquecimento global ultrapassar 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais. Habitats costeiros como manguezais, pântanos salgados e pradarias de ervas marinhas também apresentam declínio mundial devido ao desenvolvimento costeiro e à poluição.
A poluição por plásticos emergiu como uma ameaça onipresente, com evidências de impactos em mais de quatro mil espécies marinhas. Embora existam esforços de conservação e apesar da criação de Áreas Marinhas Protegidas (MPAs), a pressão da pesca predatória, do ruído subaquático e das espécies invasoras continua a degradar os ecossistemas.
Saúde única e conexão humana
O estado do oceano afeta diretamente a sobrevivência humana. O pescado proveniente da pesca selvagem e da aquicultura representa cerca de 20% da proteína animal consumida globalmente. No entanto, a proporção de estoques pesqueiros dentro de níveis biologicamente sustentáveis caiu para 62,3% em 2021, segundo mostra o relatório.
O documento introduz o conceito de “Saúde Única” (One Health), enfatizando que a saúde das pessoas, dos animais e dos ecossistemas é interdependente. A pandemia de Covid-19 ilustrou essa complexidade: enquanto houve uma redução temporária no ruído subaquático, ocorreu um aumento drástico na poluição por máscaras descartáveis e resíduos farmacêuticos nos mares.
Caminhos para soluções: governança e conhecimento
Apesar do cenário sombrio, a publicação da ONU aponta marcos históricos na governança dos oceanos, como a adoção, em 2023, do Acordo BBNJ (Tratado do Alto Mar), que passou a ser ratificado por diversos países em 2026. O tratado é considerado um passo crucial para a conservação da biodiversidade em áreas além da jurisdição nacional.
No texto, a ONU também enfatiza que a gestão eficaz deve ser baseada na ciência e na integração de conhecimentos de povos indígenas e comunidades locais, que oferecem perspectivas complementares essenciais para a sustentabilidade. Ressalta, ainda, que a proteção do oceano é indispensável para salvaguardar o clima, os sistemas alimentares e o futuro da humanidade.