Conservação dos manguezais é urgente diante da intensificação dos eventos extremos, diz Luiz Drude de Lacerda
ClimaZonas CosteirasEm entrevista ao INPO, pesquisador da UFC e da rede INPO explica que o ecossistema é dos mais eficientes na mitigação das mudanças climáticas
Os manguezais são hoje reconhecidos como um dos ecossistemas mais estratégicos para enfrentar os impactos das mudanças climáticas. Além de protegerem o litoral contra erosão e inundações, essas florestas costeiras armazenam grandes quantidades de carbono, têm importância fundamental para a pesca e ajudam na adaptação das zonas de costa contra os efeitos das mudanças climáticas, como, por exemplo, o aumento do nível do mar. Em entrevista, o pesquisador Luiz Drude de Lacerda, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e presidente do Conselho Científico do INPO, traça a situação dos manguezais no Brasil, segundo país em extensão de mangues, com aproximadamente 14 mil quilômetros quadrados ao longo do litoral. Drude fala sobre suas pesquisas sobre o tema e defende que conservar esses ecossistemas é uma medida urgente diante da intensificação de eventos climáticos extremos, como as projeções de chegada de um super El Niño.
INPO: Qual a importância dos manguezais para a proteção das zonas costeiras?
Luiz Drude: Os manguezais desempenham um papel significativo na proteção costeira e no sequestro de gases de efeito estufa (GEE), particularmente em um contexto das mudanças climáticas e seus impactos. Manguezais atuam como proteção natural para a linha costeira em casos de erosão e inundações. Eles atuam como filtro para sedimentos trazidos pelos rios, que permanecem retidos em sua estrutura complexa, resultando em elevadas taxas de sedimentação. Este processo também tem um papel importante no sequestro e armazenamento de carbono, aspectos que podem mitigar e adaptar a zona costeira ao efeito da elevação do nível do mar. Entretanto, os impactos indiretos gerados pelas atividades humanas, como a aquicultura, por exemplo, resultam em redução dos serviços ecossistêmicos, da resistência e da resiliência a impactos ambientais.
INPO: Qual a situação dos manguezais no Brasil em relação à preservação destes ecossistemas? Há regiões em situação mais crítica?
LD: No Brasil, os manguezais e todos os seus subsistemas eram, até recentemente, áreas ambientalmente protegidas. Apesar do relaxamento das regulamentações, o uso direto de produtos de manguezais, como lenha, carvão vegetal e madeira, foi proibido desde o primeiro código florestal, em 1925, embora as populações tradicionais locais possam usar esses recursos. Entre os produtos pesqueiros, os caranguejos de mangue são o recurso mais valioso, mas a pesca, em geral, é mal-gerenciada, não preservando estoques. Além disso, a pesca ilegal ainda ocorre na maioria das áreas isoladas. Os manguezais sustentam uma porção significativa, embora ainda não totalmente quantificada, da pescaria costeira, por meio de fluxos de matéria orgânica e nutrientes, além de servir como viveiro para muitas espécies marinhas e estuarinas. Por exemplo, estima-se que um hectare de floresta de manguezais preservada abriga cerca de 5,1 toneladas de caranguejo-do-mangue (Ucides cordatus) e produz cerca de 20 toneladas de biomassa animal por ano, incluindo peixes, moluscos e crustáceos.
Pesquisas e levantamentos recentes destacam a importância dos impactos indiretos de atividades humanas, como a aquicultura, sobre as florestas, particularmente após a revisão do código florestal em 2014-2015. Por outro lado, como a maioria das pessoas prefere ver uma floresta em vez de uma área degradada, o uso de florestas naturais ou de manguezais reflorestados para contemplação, ensino ou turismo em pequena escala já contribui bastante para a conscientização e preservação, sendo um serviço adicional prestado pelos manguezais. Apesar de bastante preservados em relação a outros manguezais no mundo, algumas ameaças permanecem.
INPO: Os manguezais são importantes para a mitigação das mudanças climáticas. Neste momento em que todos estão discutindo os possíveis efeitos de um super El Niño e pensando em medidas de adaptação, faz sentido falar sobre a necessidade urgente de sua conservação?
LD: Além da proteção dos litorais à erosão costeira resultante da elevação do nível do mar, manguezais são sumidouros significativos de carbono atmosférico, armazenando várias vezes mais carbono do que as florestas terrestres. Os manguezais representam cerca de 3% do carbono sequestrado pelas florestas tropicais, embora representem cerca de 1% da área florestal. Essa contribuição significativa não se deve apenas às altas taxas de produtividade, mas também ao grande acúmulo de carbono em sedimentos anóxicos (quase sem oxigênio), protegendo a matéria orgânica da oxidação e, assim, contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas.
Com base nos resultados disponíveis até agora, os impactos das mudanças climáticas nas florestas de manguezais no Brasil, em relação à cobertura e distribuição, variam conforme o setor da costa brasileira. Ao longo da costa do Quaternário Norte, incluindo a Amazônica e Semiárida, os manguezais estão se expandindo terra adentro, como resultado do aumento do nível do mar e da intrusão salina. Na costa semiárida do Nordeste, como resultado das poucas chuvas anuais e do represamento de rios, a expansão e a migração terrestre aceleraram, mas desenvolvimentos recentes na criação de camarão podem limitar esse processo. Em muitas áreas, entretanto, a erosão de manguezais na foz dos rios e nas ilhas deltaicas compensa o aumento da cobertura florestal localmente.
Em contraste, ao longo do litoral Sul-Sudeste, os manguezais estão desaparecendo mais rápido devido à elevação do nível do mar e à frequência crescente de eventos climáticos extremos. Esses fatores são agravados pela forte pressão humana, especialmente a urbanização, nas estreitas planícies costeiras. Ao longo do litoral leste, existem poucos dados sobre a resposta dos manguezais às mudanças climáticas. A alta diversidade de habitats, a configuração morfológica desta região e a enorme, porém variada, pressão da ação humana podem resultar em respostas diferentes e nenhuma tendência geral pode ser evidenciada.
INPO: Qual pesquisa o senhor vem desenvolvendo recentemente em relação aos manguezais?
LD: Estudo os processos biogeoquímicos relacionados à acumulação e exportação de metais e suas diferentes espécies químicas nos e pelos manguezais. As pesquisas incluem tanto a interação de metais com sedimentos, como a fisiologia da incorporação, distribuição e excreção de metais pelas árvores de mangue, com ênfase no litoral semiárido do Nordeste do Brasil. Por derivação, estudamos ativamente o impacto das mudanças climáticas sobre esses processos biogeoquímicos e a ação direta da ação humana, com ênfase na aquicultura.
