Pesquisa em mar profundo busca desvendar mistérios da Zona de Fratura Romanche
Pesquisador da rede INPO, José Angel Perez, chefia em setembro expedição no Falkor (too)
Quem se encanta com os exóticos seres do oceano profundo pode se preparar para fortes emoções. Professor da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI) e integrante da rede de pesquisadores do INPO, José Angel Alvarez Perez está à frente de uma das expedições que o navio de pesquisas Falkor (too), do Schmidt Ocean Institute, está realizando ao longo de 2026.
Angel e equipe vão investigar uma das regiões menos conhecidas do Oceano Atlântico, a zona de fratura Romanche, entre a costa brasileira e a África, em busca de respostas sobre a biodiversidade e os processos oceanográficos do mar profundo. Muitos seres exóticos devem ser avistados e transmitidos em tempo real pelo canal do instituto norte-americano no Youtube. A iniciativa é apoiada pelo INPO, que desenvolve um Programa de Pesquisa no Oceano Profundo, com ênfase no Atlântico Sul.
“Nosso principal objetivo científico é investigar essa estrutura geológica gigantesca, que é a zona de fratura Romanche. Vamos buscar entender, ao longo de um gradiente de profundidade que vai do mais raso e chega a aproximadamente 4.500 metros, as comunidades biológicas profundas e as condições físicas que as sustentam”, explica Perez.
A Zona de Fratura Romanche é uma enorme fenda submarina localizada no Atlântico Equatorial com quase dois mil quilômetros, entre as costas do Brasil e da África. O embarque acontecerá em 20 de setembro, em Fortaleza, e a expedição será concluída no dia 30, no Porto de Takoradi, em Gana. Durante dez dias, cerca de 25 cientistas participarão das atividades em alto-mar.
A expedição é resultado de um projeto desenvolvido ao longo de quase dois anos, envolvendo 12 pesquisadores principais, entre eles cinco brasileiros (da UNIVALI, FURG, USP e UFES), além de pesquisadores em início de carreira. Segundo Perez, a região foi escolhida por reunir características únicas, tanto do ponto de vista geológico quanto biológico.
“Ninguém nunca tirou uma foto deste local. O que não chega a ser novidade, já que a maior parte do oceano continua inexplorada. É uma região extremamente importante para compreender a origem do Atlântico, que interessa muito aos geólogos. Mas do ponto de vista biológico não conhecemos nada. Sempre houve também a expectativa de que esta é uma área de alta diversidade biológica, porque na superfície há o que chamamos de ressurgência equatorial (fenômeno oceanográfico em que águas profundas, frias e ricas em nutrientes sobem para a superfície do mar). É muito especial”, explica o pesquisador.

Foram escolhidas duas áreas de estudo, uma mais próxima ao Brasil e outra da costa africana. A expedição utilizará tecnologias de ponta para realizar o levantamento da área. Inicialmente, será feito o mapeamento com equipamentos acústicos (ecossonda multifeixe) para selecionar os locais de estudo. Em seguida, veículos autônomos subaquáticos (AUVs) produzirão mapas de alta resolução, enquanto veículos operados remotamente (ROVs) realizarão missões de nove a 16 horas para registrar imagens, fotografias e coletar amostras biológicas e geológicas. É nesse momento que os aficionados pelo oceano profundo vão poder se deleitar, porque serão feitas imagens ao vivo, com comentários de pesquisadores em inglês e português.
Os instrumentos oceanográficos ainda vão medir temperatura, salinidade, correntes marinhas e outras características físicas da coluna d’água até quatro mil metros de profundidade. “Vamos coletar dados geológicos, biológicos e físicos”, explica Perez.
Os protocolos são repetidos nas duas áreas de estudo da fratura de Romanche, separadas por cerca de dois dias de navegação. Perez destaca que a missão representa uma oportunidade rara para a ciência brasileira, especialmente diante das limitações tecnológicas existentes no país para pesquisas em mar profundo.
“O Brasil ainda possui limitações importantes para realizar pesquisas profundas in situ. Não contamos, por exemplo, com ROVs de última geração em operação para a pesquisa científica. Participar dessa expedição permite não apenas produzir conhecimento, mas também formar pesquisadores e ampliar nossa capacidade científica nessa área”, comemora.
A expedição, batizada de The Gap, foi selecionada em um processo internacional, com dois anos de duração, desenvolvido pelo Schmidt Ocean Institute. Em 2026, apenas nove expedições foram aprovadas, sendo duas lideradas por pesquisadores brasileiros: a coordenada por José Angel Alvarez Perez e outra liderada pelo pesquisador Alex Bastos, professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e também membro da rede do INPO.
Devido à 3ª Conferência da Década das Nações Unidas da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, que ocorre em 2027, no Brasil, a atuação do Falkor (too), que aconteceria apenas ao longo de 2026, se estenderá também pelo próximo ano. Mais uma oportunidade para que pesquisadores brasileiros desenvolvam seus projetos.
Além da pesquisa científica, a missão terá forte componente de divulgação e educação. Todas as operações realizadas pelo ROV serão transmitidas ao vivo, com a possibilidade de interação por chat. Serão organizadas também atividades educativas voltadas para escolas públicas e universidades brasileiras, permitindo que estudantes acompanhem em tempo real as descobertas realizadas no fundo do oceano.
A iniciativa também está alinhada ao programa de Mar Profundo do INPO, que busca ampliar o conhecimento sobre a extensa área de mar profundo sob jurisdição brasileira e formar uma nova geração de pesquisadores especializados nesse ambiente ainda pouco explorado. “Essa participação não é só para a minha pesquisa, aquilo que eu me interessei a vida toda. Eu entendo que estamos edificando um caminho para o estudo do mar profundo, para que seja perseguido pelas próximas gerações”, afirma Perez.
