INSTITUIÇÃO DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO

Workshop da ONU reúne especialistas para apoiar novo ciclo da Avaliação Mundial dos Oceanos

Ian Butler (esq.), Andrea Latgé, Segen Estefen e Francois Bailet. No telão, Eden Clabuchar Martingo
18 DE AGOSTO, 2026
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Durante cinco dias, cerca de 20 cientistas de diferentes áreas de atuação ligadas ao mar estarão envolvidos na avaliação científica do oceano

O Rio de Janeiro está sediando o Workshop Regional para o Atlântico Sul e o Caribe Estendido, iniciativa da ONU, organizada pelo INPO e pelo projeto Maré de Ciência, que dá início ao 4º Ciclo do Processo Regular para o Relatório e Avaliação Global do Estado do Meio Ambiente Marinho, Incluindo Aspectos Socioeconômicos (2026-2030). Durante cinco dias, cerca de 20 cientistas de diferentes áreas de atuação ligadas ao mar estarão envolvidos na avaliação científica do oceano. Entre os temas discutidos ao longo dos encontros estão questões relacionadas a gênero, conhecimento tradicional, cultura oceânica e economia azul.

As contribuições do workshop auxiliarão na elaboração do esboço da quarta Avaliação Mundial dos Oceanos, conhecida como WOA IV. “Estão reunidos pesquisadores e lideranças do Atlântico Sul, Caribe, África e América Latina para discutir como será o escopo do próximo relatório. Há representantes de diferentes países e da comunidade brasileira para ajudar neste processo global de elaboração do novo documento”, destaca o diretor de Pesquisa e Inovação do INPO, Andrei Polejack.

A abertura do evento, nesta segunda-feira (17), contou com a participação do diretor-geral do INPO, Segen Estefen; da secretária de Políticas e Programas Estratégicos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Andrea Latgé; do representante do Ministério das Relações Exteriores (MRE), Eden Clabuchar Martingo; além de Francois Bailet, da ONU, e Ian Butler, coordenador-conjunto do Grupo de Especialistas.

“Essa é uma oportunidade para tornar o conhecimento científico mais acessível aos tomadores de decisão. Uma maneira de beneficiar também a diversidade de conhecimentos e expertises. Tenho certeza de que esse workshop vai gerar muitas ideias e transformar conhecimento em ações”, afirmou Estefen.

Segundo Butler, a diversidade entre os participantes em relação à nacionalidade e às áreas de atuação é um ganho para o workshop. “Estamos nos reunindo em um momento crítico do planeta, com perda de biodiversidade, poluição, necessidade de monitoramento e  apuração de dados. Precisamos pensar em atualizações com questões como essas na cabeça”, diz. 

O painel “Presentations on the science-policy interface within ocean governance frameworks and lessons learned from national and regional approaches” tratou da relação entre ciência e políticas públicas no âmbito da governança do oceano e abordou as experiências nacionais e regionais, por meio de estudos de caso. Na ocasião, Polejack falou da atuação do INPO e apresentou alguns dos projetos do Instituto. Alexander Turra, da Universidade de São Paulo (USP) e integrante da rede de pesquisadores do INPO, relatou  seu trabalho na Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano.

A perspectiva regional também esteve presente nas discussões. Gonzalo Prado, da Direção Nacional de Recursos Aquáticos do Uruguai, apresentou uma abordagem relacionada ao Atlântico Sul. Já Idelia Ferdinand, da Research and School Safety, de São Vicente e Granadinas, levou ao debate a perspectiva dos Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS). 

Segen Estefen (esq.), Francois Bailet, Andrea Latgé e Andrei Polejack

Segundo dia de workshop traz questões de gênero para o debate

A inclusão da perspectiva de gênero no próximo relatório global sobre o estado do oceano foi um dos temas discutidos no segundo dia do workshop. Durante a mesa-redonda sobre gênero e oceano, pesquisadores e participantes defenderam que a temática – incorporada pela primeira vez de maneira específica no terceiro ciclo do World Ocean Assessment (WOA 3) – avance no próximo relatório e deixe de ser tratada como um tema isolado. A proposta é que questões relacionadas a gênero, justiça, equidade e diversidade sejam consideradas em diferentes capítulos e áreas de análise do relatório.

A professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e integrante da rede de pesquisadores do INPO, Leandra Gonçalves, reforçou que o WOA 3 representou um marco ao incluir um capítulo dedicado a gênero, além de ampliar a presença das ciências humanas e sociais na avaliação do estado do oceano. “Gênero não é uma questão à parte, que não tenha relação com o oceano”, afirmou.

A estudante Cristiane Lima de Souza (esq.), Maria Bebiano e Leandra Gonçalves

Segundo ela, o próximo ciclo precisa avançar principalmente na construção de indicadores que permitam acompanhar a evolução da igualdade, da equidade e da diversidade nas atividades relacionadas ao oceano. Leandra ressaltou que a dificuldade está, em grande parte, na ausência de dados consolidados.

A pesquisadora também chamou atenção para a baixa presença feminina em posições de liderança e nos processos de tomada de decisão relacionados ao desenvolvimento costeiro, à pesca, à navegação e a outras atividades ligadas ao mar. Para ela, ampliar a diversidade nos espaços de decisão pode contribuir para a formulação de soluções mais abrangentes.

Participação de jovens estudantes

A programação principal do workshop tem como diferencial a participação de jovens estudantes. Na mesa sobre Gênero e Oceano, Cristiane Lima de Souza, 20 anos, da Escola Azul Ambassador em Macapá (AP), integrou as discussões trazendo sua experiência pessoal. Vinda de uma comunidade ribeirinha do interior do Pará, ela destacou a participação das mulheres nas atividades relacionadas à pesca e à vida nas comunidades.

O painel “Youth participation in science-policy process: integrating generations and scales” reuniu seis estudantes de seis escolas diferentes, de níveis escolares distintos, desde o ensino fundamental até universitário. Eles trouxeram questões amplas de como os jovens precisam  ser incluídos na discussão sobre as prioridades para enfrentamento da questão do oceano, desde a discussão dos problemas até a sugestão e implementação de soluções. “Os jovens precisam participar desses espaços de negociação climática. Podemos trazer contribuições técnicas, mas também nossas vivências territoriais”, defendeu Luan dos Santos, do Youth Climate Negotiators Program, criado para capacitar jovens, com idades entre 18 e 35 anos, para participarem de forma ativa de negociações climáticas da ONU.

Estudantes participam da mesa “Youth participation in science-policy process”

“Estamos dando um passo único no mundo. A partir deste workshop, a voz da juventude não é só lateral, em eventos paralelos, mas faz parte das principais mesas”, explicou o pesquisador Ronaldo Christofoletti, coordenador do Programa Maré de Ciência e do Programa Escola Azul Brasil, que selecionou jovens do Ensino Fundamental 2 e Ensino Médio para participarem da programação.

Além de estimular as contribuições da comunidade científica para a elaboração da quarta Avaliação Mundial dos Oceanos, o evento, que termina na sexta-feira (21), visa coletar dados em nível regional e ampliar a conscientização sobre o processo de avaliação. A realização do workshop no Rio de Janeiro coloca o Atlântico Sul no foco das discussões, aproximando especialistas de diferentes países e perspectivas para tratar da interface entre conhecimento científico e governança relacionadas ao oceano.