Arquiteturas Cloud-Native: tecnologias de ponta para a ciência oceânica
Em entrevista, o professor Tobias Ferreira, do National Oceanography Centre, fala sobre curso desenvolvido pelo INPO
Tobias Ferreira construiu uma trajetória marcada pela mudança de mares. Oceanógrafo, após trabalhar na Marinha do Brasil por 12 anos, ele trocou o país pelo Reino Unido há cerca de três anos para assumir o cargo de engenheiro de software do National Oceanography Centre (NOC), uma das principais instituições internacionais dedicadas às ciências oceânicas. Nesta semana, de volta ao Brasil, Ferreira compartilha sua experiência em uma área cada vez mais estratégica para a ciência: o armazenamento, o processamento, a integração e a disponibilização de grandes volumes de dados. À frente do curso “Arquiteturas Cloud-Native e Formatos Modernos de Dados para Oceanografia Operacional, Clima e Meteorologia em Escala de Múltiplos Terabytes”, realizado na sede do INPO, no Rio de Janeiro, o pesquisador ajuda a aproximar a comunidade oceânica brasileira das práticas e tecnologias que estão transformando a forma de fazer ciência.
Segundo a diretora de Infraestrutura e Operações do INPO, Janice Trotte-Duhá, as aulas têm a capacidade de ampliar a competência da comunidade oceânica brasileira. “Ao reunir neste curso 22 profissionais de diferentes instituições do país, contribuímos para disseminar práticas modernas de infraestrutura de dados e fortalecer uma comunidade tecnicamente preparada para os novos desafios da ciência oceânica digital no Atlântico Sul ”.
Na entrevista a seguir, Ferreira fala sobre os objetivos do curso e as expectativas sobre a intensa troca de conhecimento entre o Brasil e o Reino Unido em um workshop, em 2027.
Quais os objetivos deste curso desenvolvido pelo INPO?
A ideia é trazer para a comunidade brasileira o entendimento de como o mundo trata dados climáticos, meteorológicos e oceanográficos. Com a quantidade de dados aumentando de uma forma tão grande, fica difícil manter padrões antigos. As pessoas estão se voltando para os dados em nuvem, onde você faz com que seu dado seja mais fácil de encontrar, mais seguro, mais processável. Esse conhecimento pode ajudar a comunidade brasileira, universidades e empresas a evoluírem neste sentido.
Como foi a seleção dos participantes e como está sendo a interação entre eles?
O curso conta com a presença de pessoas de diversas instituições, públicas e privadas, de universidades, de empresas e de centros de pesquisa de diferentes regiões do país. Tem gente do Pará, do Amazonas, de vários estados do do Nordeste, Sudeste e do Sul. A ideia é disseminar o conhecimento para o país inteiro. Há participantes da área de energia e de aquicultura, por exemplo, professores universitários, estudantes de graduação. O objetivo é trazer esse conhecimento para profissionais de vários níveis acadêmicos e áreas de atuação, para que eles possam, depois, compartilhar internamente na comunidade brasileira.
Qual o diferencial do curso?
Durante muitos anos, as pessoas só processavam dados ou compartilhavam dados localmente, entre seus grupos. Mas, atualmente, os dados têm tamanhos absurdos, terabytes, petabytes. Então, é difícil você ter dado local no seu computador. Se você gera muitos dados, você precisa ter formas de fazer com que eles sejam compartilháveis, de forma que todo mundo possa acessar. Por isso, esse tipo de dado cloud-native é o futuro, na meteorologia, na oceanografia. Você pode salvar dados nesses formatos para tornar os seus dados mais acessíveis para o mundo inteiro.
Hoje as previsões acertam muito mais, porque a precisão do modelo está melhorando. Só que, para melhorar a previsão, você tem que ter muito mais informação, o modelo tem que ter um tamanho muito maior de dados, tem que rodar com maior frequência. São arquivos grandes e isso trouxe complexidade. Com esse conhecimento que estamos compartilhando no curso, os participantes aprenderão como esses dados grandes podem ser acessados por todo o mundo, de qualquer lugar, sem você ter o dado no seu computador, no seu celular. Para melhorar a previsão, melhorar o seu resultado, você precisa ter tecnologias a seu favor.
A intenção é que esse grupo de participantes se transforme em uma comunidade de troca de conhecimento?
Esse projeto é financiado pela Cake, uma instituição britânica que engloba várias instituições no Reino Unido. A ideia é criar uma comunidade de troca de conhecimentos no Reino Unido. Mas, como eu sou brasileiro, apesar de morar lá, quis estender essa rede para o Brasil.
Eu vou ministrar esse mesmo curso no Reino Unido no fim do ano e, no ano que vem, pretendemos criar um workshop para trocar experiências. Tornar nossos dados mais acessíveis para a comunidade britânica e tornar os dados da comunidade britânica mais acessíveis à comunidade brasileira. Então, o objetivo final seria esse: trazer a comunidade brasileira para mais perto da europeia e a comunidade europeia e britânica para mais perto da brasileira.