Projeções climáticas e evidências históricas de corais apontam para o “novo normal” do Pacífico
Regina Rodrigues, da rede INPO, explica como o aquecimento global tem transformado as características do El Niño
O Oceano Pacífico quebrou um recorde histórico absoluto neste mês de outubro: no dia 5, a temperatura da superfície do mar na região do Niño 3.4 – área frequentemente usada para calcular e monitorar a intensidade do fenômeno – superou pela primeira vez na história a marca dos 30°C, atingindo 30,06°C. Segundo monitoramento da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA), na semana seguinte, em 14 de outubro, o índice consolidou uma anomalia térmica excepcional de +3,3°C acima da média climatológica tradicional.
Para a oceanógrafa Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e integrante da rede de pesquisadores do INPO, a incerteza que no passado cercava os modelos climáticos deu lugar a uma convergência nas projeções mais recentes da ciência. Regina explica que as simulações do CMIP6, iniciativa do Programa Mundial de Pesquisa Climática, apontam para um “novo normal”.
“Os estudos sobre as projeções futuras do El Niño começaram a convergir. Esses eventos devem ficar mais intensos e frequentes. As La Niñas também devem ocorrer em sequência, como já vimos na última década. Os modelos mais recentes, que são melhores, já preveem esse comportamento tanto para La Niña quanto para El Niño”, explica.

A tendência também ganhou confirmação empírica em pesquisa publicada este ano na revista Science, que analisou testemunhos de corais no arquipélago de Galápagos datados de quase mil anos, e demonstrou que a variabilidade da temperatura oceânica no último século foi a mais elevada de todo o milênio.
“Galápagos fica bem na região do El Niño, no Pacífico. Os pesquisadores pegaram testemunhos de corais, porque o crescimento deles é muito afetado pela temperatura da água do mar. Então você pega um coral antigo, consegue datar e voltar quase mil anos para fazer uma inferência da temperatura da água. Eles provaram que a variabilidade aumentou, o que significa a ocorrência de eventos mais frequentes e mais intensos, para cima e para baixo, mais vigorosamente”, detalha a pesquisadora..
Diante dessas evidências, Regina resume sua avaliação sobre o futuro desses fenômenos. “Respondendo cruamente, eu acredito que sim, a gente vai ter agora um novo normal de ter esses super El Niños mais frequentes”.
A posição do aquecimento no Pacífico faz diferença?
Para entender como o El Niño afeta o Brasil, não basta observar a intensidade do evento, mas é também necessário considerar onde se concentra o aquecimento das águas. A distribuição da mancha de água quente ao longo da faixa equatorial do Pacífico influencia a resposta da atmosfera e, consequentemente, os padrões de precipitação em diferentes regiões do continente. Ao explicar esse mecanismo, Regina chama atenção para as diferenças entre os episódios. “Os eventos mais fortes não estão no centro; o aquecimento se estende até a região leste”, ressalta.
Quando as águas mais quentes avançam em direção à costa da América do Sul, alterações na circulação atmosférica podem favorecer impactos mais severos em determinadas áreas do país. “Quanto mais para o leste é o aquecimento nesses El Niños mais fortes, maior a tendência de ter seca na Amazônia, no Norte e no Nordeste”, esclarece, complementando que a interação com outros sistemas oceânicos também influencia esse cenário. O aquecimento do Atlântico Norte tropical, por exemplo, pode contribuir para agravar a estiagem na Amazônia e em partes do Norte e do Nordeste. Já no Sul do Brasil, o El Niño costuma favorecer condições mais chuvosas.
A intensidade desses efeitos, porém, depende da configuração de cada episódio. O aumento da temperatura atmosférica, por exemplo, permite que o ar retenha mais vapor d’água e intensifica a evaporação da água presente no solo e na vegetação. “O El Niño é um fenômeno natural que está sendo modificado pelas mudanças climáticas e, quando ele ocorre localmente numa atmosfera mais quente, os processos locais se intensificam: se for em regiões que o El Niño gera seca, a seca vai ficar mais intensa por causa das mudanças climáticas, e em lugares que causa chuva, a chuva vai ficar mais intensa também”, descreve a pesquisadora.
Essa combinação entre a variabilidade natural e o aquecimento global amplia os riscos socioambientais, sobretudo em territórios expostos a secas prolongadas, enchentes e outros eventos extremos. Os impactos registrados em 2023 e 2024 evidenciaram como a atuação conjunta de diferentes fatores climáticos pode produzir consequências severas para as populações e os ecossistemas. Ao retomar esses episódios, Regina sintetiza a relação entre o fenômeno oceânico e o contexto climático mais amplo. “O El Niño vem com impactos e as mudanças climáticas amplificam esse impacto. É isso que a gente segue vendo e é por isso que em 2023 e 2024 os impactos foram catastróficos”.
Para 2026, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) já aponta um Super El Niño, com pico em dezembro de 2026 e com efeitos que podem se estender até o início de 2027.