INSTITUIÇÃO DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO

Como o barulho humano ameaça a vida no oceano?

Vida Marinha Courtesy E. Lyman – HIHWNMS/ NOAA Permit # 14682
06 DE NOVEMBRO, 2026
Compartilhe

Sons de navios, obras e exploração sísmica podem interferir na comunicação, na alimentação e na reprodução dos animais marinhos

Para baleias, golfinhos e diversas espécies de peixes e invertebrados, o som faz parte da sobrevivência. Ele ajuda a encontrar alimento, localizar parceiros e perceber a presença de predadores. Mas alguns sons representam uma ameaça. O ruído produzido por embarcações, obras e outras atividades humanas pode interferir nessas funções e alterar a maneira como os animais utilizam o ambiente marinho.

Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), os impactos variam conforme as características da fonte sonora, a duração da exposição e o local, com efeitos imediatos ou cumulativos. Entre as possíveis consequências estão estresse, afastamento de habitats, interferência na alimentação e na reprodução e perda auditiva temporária ou permanente.

O ruído também pode encobrir sons importantes para os animais, dificultando a comunicação e a percepção de sinais do ambiente. Com isso, fica mais difícil localizar alimento, identificar predadores e manter contato com outros indivíduos do grupo.

Entenda como o som se propaga no mar

Na água do mar, o som se propaga a aproximadamente 1.500 metros por segundo, cerca de 4,4 vezes a velocidade de propagação no ar, de 340 metros por segundo. De acordo com a NOAA, a distância percorrida pelas ondas sonoras depende de condições como temperatura e pressão. A frequência do som também influencia seu alcance.

As variações dessas condições ao longo da profundidade podem formar canais que conduzem as ondas sonoras, permitindo que viajem milhares de quilômetros com menor perda de energia. Em condições favoráveis, tanto vocalizações de baleias quanto ruídos humanos podem ser detectados longe de sua origem.

Entre as fontes humanas estão motores de embarcações, construções submarinas, sonares ativos e levantamentos sísmicos para exploração de petróleo e gás. Algumas produzem sons intermitentes; em áreas de tráfego intenso, os navios podem acrescentar um ruído de fundo persistente ao ambiente.

Mudanças na comunicação dos botos

No Brasil, uma dissertação de mestrado de 2026 da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) investigou variações nos assobios dos botos-cinza da Baía Babitonga, no litoral norte catarinense, e sua relação com fatores ambientais e a proximidade de áreas portuárias.

A comparação de registros acústicos separados por 15 anos mostrou que os animais passaram a emitir assobios mais longos e graves, com menor variação de frequência. Esses sinais são utilizados principalmente na comunicação e na socialização da espécie. Também foram observadas diferenças entre regiões da baía. Na área mais ruidosa, os assobios atingiram frequências máximas menores e apresentaram uma faixa mais estreita. A redução desses dois parâmetros esteve associada ao aumento do ruído na faixa de 63 hertz.

A análise identificou ainda relações com a salinidade e o tamanho dos grupos, mostrando que as variações nos sinais sonoros envolvem diferentes fatores. O trabalho foi desenvolvido por Amanda Martins Ruthes, sob orientação de Marta Jussara Cremer, no Programa de Pós-Graduação em Ecologia da UFSC.

Os sons do litoral paulista

No litoral de São Paulo, pesquisadores da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), com apoio do Centro de Biologia Marinha (CEBIMar), monitoraram continuamente a paisagem acústica submarina próxima à Ilha de Alcatrazes e à Laje de Santos, entre 2016 e 2018.

As gravações permitiram identificar diferentes tipos de coros de peixes, formados pela emissão simultânea de sons por vários indivíduos. Esse tipo de monitoramento registra sons dos animais, de fenômenos naturais e das atividades humanas, fornecendo dados para estudar esses ambientes e apoiar a gestão de unidades de conservação marinhas.

Escutar para monitorar

Para investigar o ambiente sonoro, cientistas utilizam hidrofones, microfones submarinos que captam vocalizações de animais, sons naturais e ruídos de atividades humanas. Dependendo das condições de propagação e da profundidade de instalação, esses equipamentos conseguem detectar sinais emitidos a muitos quilômetros de distância.

A NOAA utiliza o monitoramento acústico passivo para estudar a presença e a distribuição de animais marinhos e avaliar o ruído em seus habitats. As informações ajudam a compreender a exposição da fauna e a orientar medidas de proteção e gestão do ambiente marinho.

Fontes do texto:

NOAA Fisheries — Ocean Noise
NOAA — What is ocean noise?
NOAA — How far does sound travel in the ocean?
UFSC — Variações espaciais e temporais dos assobios do boto-cinza (Sotalia guianensis) na Baía Babitonga, sul do Brasil, e sua relação com fatores ambientais e áreas portuárias. Dissertação de Amanda Martins Ruthes, 2026.
USP/CEBIMar — Paisagens acústicas submarinas no litoral de São Paulo.