A vida secreta das criaturas que sobem das profundezas
BiodiversidadeVida MarinhaVocê já imaginou flutuar em um vazio escuro, onde o chão simplesmente não existe e a única referência de espaço é a luz da sua própria lanterna? A fotógrafa premiada Jialing Cai revelou, em matéria à BBC, os bastidores do blackwater diving, uma modalidade de mergulho noturno em oceano aberto onde ela espera o “abismo” vir ao seu encontro.
Todas as noites, trilhões de minúsculos seres do zooplâncton, peixes, lulas e águas-vivas sobem centenas de metros das profundezas para se alimentar de fitoplâncton na superfície, sem serem detectados por predadores. Antes do amanhecer, retornam para a segurança da Zona Crepuscular, onde vivem. Trata-se de uma região de água localizada entre 200 metros e a escuridão total: 1.000 metros de profundidade, que abriga mais peixes do que todo o resto do oceano somado, e é vital para o ciclo global de carbono. Esse movimento é chamado de Migração Vertical Diária e é considerado o maior deslocamento de biomassa do planeta.
Por suas fotos, Jialing recebeu prêmios da revista Oceanographic, incluindo o Ocean Photographer of the Year, em 2023, e o Female Fifty Fathoms Award, em 2025. Confira como suas fotografias revelam curiosidades sobre a vida secreta das criaturas das profundezas!
A água-viva com botão de “reiniciar”

Entre os visitantes das profundezas, destaca-se a água-viva imortal. Ela recebeu esse nome por uma habilidade digna de ficção científica: ao detectar perigo ou doenças, ela consegue reverter seu ciclo de vida, voltando ao estágio de pólipo (sua fase de “bebê”). Teoricamente, ela pode repetir esse processo infinitamente, vivendo para sempre.
Estratégias de sobrevivência
O “mestre da transparência”: O polvo Wunderpus, em sua fase juvenil, é quase totalmente transparente para se misturar ao vazio escuro, desenvolvendo suas cores características apenas na vida adulta.


Peixes com “guarda-costas”: Alguns peixes juvenis capturam águas-vivas e usam seus tentáculos venenosos como um “escudo químico” contra predadores.
Troca de exoesqueleto: Em um registro raro, Jialing capturou um caranguejo juvenil no exato momento da troca de sua carapaça (exoesqueleto), um processo que ela descreve como “tirar um suéter”. Olhando de perto, é possível ver as diferenças de formato e estrutura entre o molde transparente que ficou para trás e o novo corpo que acaba de emergir.

O plástico também chega nas profundezas
Mesmo a centenas de metros da costa, a marca humana está presente. Em seus mergulhos, a fotógrafa registrou dois pequenos peixes, do tamanho de uma unha, usando uma embalagem de bala descartada como abrigo no oceano aberto. É um lembrete visual de que a Zona Crepuscular está sob ameaça. Conhecer essas criaturas é o primeiro passo para protegê-las antes que o abismo silencioso mude para sempre.
