Algas marinhas podem ser aliadas para o desenvolvimento sustentável na América Latina
Relatório da FAO aponta oportunidades para segurança alimentar, mas destaca necessidade de políticas públicas específicas
As algas marinhas podem se tornar um recurso estratégico para a segurança alimentar da América Latina. É o que aponta o relatório “Algas Marinhas para o Futuro: Recomendações de Políticas Públicas para uma Transformação Azul na América Latina”, elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que reúne recomendações para ampliar, de forma sustentável, o cultivo e o aproveitamento desses organismos na região. O boletim sobre o estudo foi divulgado em português este ano e a análise contou com a participação do pesquisador Wagner Valenti, do Centro de Aquicultura da Universidade Estadual Paulista (Caunesp) e membro da rede de pesquisadores do INPO.
“A FAO faz grupos de trabalho sobre determinados assuntos que considera importantes, como foi o caso da algicultura marinha da América Latina. O cultivo de macroalgas corresponde a ¼ de tudo o que é produzido em aquicultura no planeta. A Ásia, porém, concentra 97% de toda a produção de mundial”, explica Valenti.
Embora a produção mundial de algas tenha crescido de forma constante, a América Latina e o Caribe respondem por apenas 2% do volume global. O cultivo regional, entretanto, aumentou em 66% na última década, indicando um potencial ainda pouco explorado. Entre as vantagens da região estão a extensa cobertura costeira, a diversidade de espécies nativas e o conhecimento tradicional de comunidades costeiras sobre o uso de algas. Em 2023, três países foram responsáveis por 98,6% da produção total da região: Chile (65,4%), Venezuela (28,2%) e Brasil (5%).
Para a pesquisa, Valenti contribuiu com uma análise sobre a sustentabilidade das produções, avaliando a viabilidade econômica do cultivo. No capítulo desenvolvido por sua equipe para o relatório, ele enfatiza que a produção regional compete com a asiática, que consegue produzir enormes quantidades com preços muito reduzidos, o que dificulta a concorrência.
“Nós não temos uma cadeia de produção estruturada ainda. As algas têm rentabilidade baixa, mas têm um custo de produção igualmente baixo. São boas para comunidades ribeirinhas e produção familiar. Para ser viável, precisa de uma cadeia produtiva curta. Uma pessoa produz e ela mesma vende para o consumidor. Neste caso, a produção pode contribuir para gerar renda e melhorar a qualidade de vida nas áreas costeiras do país”, defende o pesquisador.
As estratégias para ampliar o cultivo de algas na região passam pela criação de cadeias de valor mais curtas e pela exploração de mercados emergentes, como alimentos vegetarianos e veganos, bioestimulantes agrícolas e cosméticos. O investimento em pesquisa e inovação também é apontado como fundamental pelo pesquisador.
“Precisamos ampliar a pesquisa com espécies locais. O Brasil, por exemplo, tem um potencial enorme, caso sejam usadas algas já adaptadas às condições de cada localidade. Pode ser uma área muito importante para gerar desenvolvimento socioeconômico”, afirma.
Boletim reforça que o cultivo de macroalgas pode gerar empregos e renda
As recomendações presentes no relatório desenvolvido pela instituição têm como uma de suas bases o workshop ACUIALGAS, realizado em junho de 2024, no Chile, pela FAO em colaboração com instituições acadêmicas e governamentais. O encontro reuniu especialistas de sete países — Argentina, Brasil, Chile, Equador, México, Peru e República Bolivariana da Venezuela — e discutiu alimentos e biotecnologia, governança, serviços ecossistêmicos, tecnologias de produção, inclusão social e cadeias de valor.
Segundo o relatório da FAO, as algas oferecem benefícios ambientais e nutricionais. Apresentam rápido crescimento, baixa pegada ecológica e capacidade de absorver nutrientes, CO₂ e outros compostos nocivos. Também contribuem para a melhoria da qualidade da água, a captura de carbono e a proteção costeira. Na alimentação, fornecem proteínas, ômega-3, fibras, vitaminas e minerais, como iodo, ferro e cálcio, e podem ser utilizadas no desenvolvimento de alimentos funcionais, especialmente para populações com deficiências de micronutrientes. Algas e seus derivados já são utilizados nas indústrias alimentícia, cosmética e farmacêutica.
O estudo ressalta, porém, que o aproveitamento desse potencial depende de políticas públicas específicas. Entre as prioridades estão a criação de marcos regulatórios claros para o cultivo, a integração da atividade ao planejamento marinho-costeiro, a redução da burocracia no licenciamento e a adoção de padrões de biossegurança. O objetivo é garantir a proteção ambiental e a segurança dos alimentos, além de evitar conflitos com atividades como navegação, turismo e recreação.
Outro eixo das recomendações é a inclusão social. O cultivo de algas de pequena escala pode contribuir para a geração de empregos e renda, com políticas voltadas à igualdade de gênero e à participação de jovens. O relatório também defende o acesso a financiamento e a valorização do conhecimento tradicional das comunidades costeiras.