Aplicativo contribui para detecção de Florações de Algas Nocivas
Projeto de extensão de Gleyci Moser, pesquisadora da rede do INPO, conta com parceria da população
Um aplicativo , feito em linguagem R e um formulário intuitivo disponibilizado no kobotoolbox, que permite a qualquer pessoa relatar mortandade de peixes e mudanças no odor e na cor da água, contribuindo para o rastreamento de Florações de Algas Nocivas (FANs) no litoral brasileiro. Essa é a nova ferramenta desenvolvida pelo Laboratório de Cultivo e Ecologia de Microalgas Marinhas (LabCult) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde atua a professora da Faculdade de Oceanografia da UERJ e membro da rede de pesquisadores do INPO, Gleyci Moser.
Desde 2009, a pesquisadora se dedica ao estudo das florações de algas no litoral do Rio de Janeiro. Velejadores, canoístas, surfistas, praticantes de stand up paddle e pescadores já são parceiros constantes de seus estudos. E foi justamente essa aliança com a população que inspirou a criação do aplicativo. Observações dos frequentadores das praias são essenciais para detectar as áreas de maior incidência do fenômeno, os tipos de algas presentes e os aspectos ambientais que estimulam a sua proliferação.
O aplicativo, desenvolvido pelo pesquisador Mandi Domingues Frias, também da UERJ, foi lançado justamente na primavera, época do ano na qual são iniciadas as florações de algas. Essas florações persistem durante toda a primavera e verão devido à combinação de águas costeiras eutrofizadas, ressurgência, intensa luz solar e aumento da temperatura das águas superficiais, intensificado nas ondas de calor.

“Há décadas, o Rio de Janeiro é palco dessas florações, que ficaram comumente conhecidas como Maré Vermelha. Elas estão associadas ao calor e a nutrientes que entram na coluna d’água pela poluição. Nossos verões são chuvosos, arrastando ainda mais detritos para o oceano. E esse será um verão marcado pela presença do fenômeno climático La Niña, com muitas ondas de calor”, explica a pesquisadora. Ela lembra que as florações são chamadas de nocivas porque afetam negativamente o ambiente e a sociedade, seja produzindo toxinas que causam doenças em humanos e animais, ou pela alta concentração de algas cuja biomassa é decomposta, levando à redução do oxigênio na água e consequente mortandade de peixes e outros animais.
Ciência cidadã fortalece o monitoramento das algas
Há tempos, o LabCult realiza um trabalho de conscientização com crianças, adolescentes e esportistas, associado às escolinhas de esportes da cidade e ONGs, como o Instituto Núcleo Maré (INMAR). A parceria é essencial para o estudo do fenômeno conhecido como Maré Vermelha – apesar de, nem sempre, as florações serem vermelhas.
Com o aplicativo, pretende-se ampliar o conhecimento adquirido, já que, ao acessá-lo, o usuário pode marcar em um mapa a localização de onde observou mudanças na água, manualmente ou pela geolocalização do seu celular. Em um breve questionário, pode relatar se o oceano estava avermelhado, marrom ou verde, se há espuma, peixes mortos ou odor forte, e pode também enviar fotos do local.
Os pesquisadores receberão os formulários resultantes das contribuições e poderão detectar se há uma maior incidência de denúncias em uma mesma região. Esta informação auxiliará na detecção e rastreamento das manchas utilizando imagens de satélite, bem como fornecerá informações valiosas sobre os possíveis efeitos nocivos da floração. A combinação das informações fornecidas pelos usuários do aplicativo com dados de satélite auxiliará agências ambientais no monitoramento da qualidade da água, além de fomentar os tomadores de decisão na implementação de políticas públicas.
Regiões mais afetadas e desafios futuros
“Algumas regiões do Brasil têm políticas públicas associadas ao monitoramento de microalgas. Santa Catarina é um exemplo. Eles trabalham em associação com as fazendas de maricultura. Costumamos monitorar as florações e outros aspectos relacionados ao oceano. Mas, em outras regiões, as florações não são monitoradas.”, explica Gleyci.
O Rio de Janeiro, juntamente com algumas cidades do Nordeste, está entre as localidades do país com maior incidência de FANs. O verão de 2021 foi um marco para os pesquisadores, quando houve uma floração sem precedentes que começou na Baía de Guanabara e atingiu todo o litoral do Estado. “Começou na primavera e adentrou dezembro, se espalhando para as praias fluminenses. Algumas ficaram com a água vermelha. Foi um ano de La Niña, de calor extremo, assim como estão prevendo para este verão”, adverte a pesquisadora da rede do INPO.
Para acessar o formulário e contribuir com a pesquisa do LabCult-UERJ, basta acessar este link.