Brasil encontra barreiras para o desenvolvimento da aquicultura
Pesquisador da rede INPO analisa problemas que afetam as fazendas marinhas brasileiras
Algumas localidades são marcadas pela produção pesqueira. A fama do salmão do Chile atravessa fronteiras, assim como o camarão do Nordeste é famoso entre os brasileiros. Mas, segundo Ronaldo Cavalli, do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e membro da rede de pesquisadores do INPO (Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas), a aquicultura dominou o mercado global e é responsável, inclusive, por grande parte da produção das regiões citadas.
Segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em 2022, pela primeira vez na história, a aquicultura superou a pesca de captura como principal produtora de animais aquáticos, e representa 51% da produção global total. No entanto, o pesquisador alerta que, apesar do avanço da atividade no mundo e do grande potencial nacional, o Brasil ainda encontra sérias barreiras para o desenvolvimento da prática. Especialmente quando o assunto é a aquicultura marinha, as chamadas fazendas marinhas, locais onde ocorre a produção de organismos aquáticos.
“O país está perdendo oportunidades, pois não está investindo ou levando a aquicultura a sério, apesar do seu crescimento global. A falta de incentivo, mercado e a persistência de problemas ambientais, como o descarte de esgoto em áreas produtoras, são barreiras significativas para o desenvolvimento no país”, explica o pesquisador da rede INPO.
Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados no fim de 2024, a produção aquícola aumentou 6,2% no Brasil em 2023, gerando R$ 10,2 bilhões. A aquicultura brasileira é predominantemente continental, tendo a tilápia como principal espécie, concentrada no Paraná, Oeste de São Paulo e Minas Gerais. Quanto à aquicultura marinha, as principais produções são de moluscos e camarão, concentradas em Santa Catarina e no Nordeste (Ceará e Rio Grande do Norte).
De acordo com Cavalli, a produção de moluscos no Brasil, principalmente em Santa Catarina, está em torno de oito mil toneladas, sendo cerca de seis mil toneladas de mexilhões e duas mil toneladas de ostras. Embora a produção em outros estados, como o Pará, por exemplo, seja menor em volume, ela é socialmente muito importante para as comunidades locais. Já a produção de camarão no Nordeste é significativamente maior, na faixa de 120 mil toneladas.
O país, porém, enfrenta desafios, como poluição, invasão de espécies exóticas por meio da água de lastro de navios e competição com produtos importados, como o mexilhão chileno – que é mais barato devido à sua escala de produção. “A produção de moluscos no Brasil já foi de 20 mil a 22 mil toneladas. Caiu para oito mil toneladas, principalmente devido à poluição e à má qualidade ambiental”, relata, lembrando que a situação levou alguns produtores a mudarem para o cultivo de macroalgas.
O investimento na produção das fazendas marinhas pode, inclusive, trazer mais benefícios ao meio ambiente. “A produção de carne bovina libera metano. Já a produção de mexilhões retira CO² do ambiente através de suas conchas. O cultivo de moluscos tem, portanto, um potencial ambiental mais interessante”, esclarece.
Apesar de o consumo de peixes selvagens ser teoricamente mais saudável, devido à sua alimentação natural e menor estresse, para Cavalli, a aquicultura permite um melhor manuseio pós-pesca, resultando em um produto final mais fresco. O camarão pescado, por exemplo, pode se decompor na rede, enquanto o camarão de cativeiro é imediatamente resfriado ao sair da água. “Com o crescimento da população mundial e a estagnação da pesca de captura desde os anos 1980, a aquicultura é a principal resposta para atender à crescente demanda por pescado”, afirma o pesquisador