Calor extremo reforça urgência na redução das emissões de gases
Segundo Regina Rodrigues, pesquisadora da rede INPO, alerta do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus prova que há limites para a adaptação
“Não estamos preparados para as mudanças climáticas”. A afirmação é da pesquisadora Regina Rodrigues, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e membro da rede de pesquisadores do INPO, ao se referir à onda de calor que tomou conta do continente europeu em 2026. Dados recentes do Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus – uma referência no monitoramento do clima – mostram que a região atingiu, este ano, a temperatura mais alta já aferida para a época. De acordo com a pesquisadora, essas informações apontam para um alerta: além de serem uma prova de que os países mais ricos do planeta também sofrerão de forma extrema os efeitos das mudanças climáticas, revelam o quanto as medidas de adaptação são limitadas.
“Nós precisamos nos adaptar, mas há um limite. Vai chegar a hora em que não será mais possível. E isso revela o quanto precisamos atacar a causa do problema: diminuir as emissões de gases. Continuar apostando na mitigação é muito importante. Essa é a principal lição deste cenário”, diz Regina.
Para a pesquisadora, o histórico das ondas de calor (quando a temperatura passa de um limite extremo) no continente europeu demonstra que as medidas de adaptação tem um limite. Em 2003, a Europa sofreu com altas e intensas temperaturas no verão e contabilizou cerca de 70 mil mortes. Várias medidas de adaptação foram implementadas na Europa, mas, com a ocorrência de ondas de calor mais intensas e longas, estas já não funcionam. Em 2026, só o mês de junho contou com mais de 10 mil mortes acima da média esperada. Olhar para o passado mostra que, mesmo com investimentos significativos em políticas públicas e medidas de adaptação, o panorama se repete este ano, ou seja, as medidas tomadas não foram suficientes para acabar com o problema.
“Não há dúvidas de que as populações de baixa renda são mais vulneráveis. Mas, quando falamos em injustiça climática, podemos dar a falsa impressão de que a população de renda média e alta vai escapar. Tem que ter cuidado com esse discurso, pois, infelizmente, a parcela mais rica da população tem mais influência política, maior capacidade de investir em políticas climáticas de mitigação. E talvez pense que não precisa agir. Essas ondas de calor na Europa mostram que estamos todos no mesmo barco e que, mesmo um continente rico como a Europa, está despreparado e sofre os impactos.”, explica.
Um artigo publicado na revista Nature traz as considerações de pesquisadores e especialistas a respeito de uma questão-chave: é possível afirmar que a Europa tem um novo clima? Segundo Regina, os episódios extremos não significam necessariamente que a Europa tenha passado, de uma hora para outra, para um novo regime climático. O processo é gradual e, justamente por isso, perigoso. À medida que a temperatura média do planeta aumenta, torna-se mais fácil ultrapassar os limites que caracterizam uma onda de calor. O resultado é uma mudança na frequência, na duração e na intensidade desses eventos.
Quando o oceano deixa de ser um amortecedor
O fenômeno também revela um componente menos visível das ondas de calor: o papel do oceano. Isso porque as mesmas condições atmosféricas que favorecem o aquecimento sobre os continentes provocam o aumento da temperatura no mar. “Você tem uma situação atmosférica que leva tanto a ondas de calor sobre o continente como no oceano. A circulação atmosférica não tem fronteira”, detalha a pesquisadora.
Inicialmente, o oceano funciona como uma espécie de amortecedor, contribuindo para amenizar as temperaturas. A água possui uma capacidade muito maior de armazenar calor do que a superfície terrestre e absorve parte da energia acumulada no sistema climático. Mas esse mecanismo também tem um limite.
Quando o oceano já está muito aquecido e ocorre uma onda de calor marinha, sua capacidade de continuar absorvendo o excesso de calor diminui, o que pode contribuir para que mais energia permaneça na atmosfera e intensificar as condições de calor sobre áreas continentais.
Regina Rodrigues destaca que as análises revelam que o calor extremo não pode ser tratado como um evento isolado, mas sim como resultado de um sistema climático cada vez mais em desequilíbrio, no qual atmosfera, oceano e continente interagem. Para ela, estamos diante de um alerta extremo. “Nós não estamos fazendo o nosso papel em diminuir as emissões e, ainda assim, acreditamos que vamos conseguir nos adaptar”, reforça.