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Ciclone-Bomba: o que explica o fenômeno extremo que atingiu Nova Iorque?

Clima Foto: nyc.gov
27 DE FEVEREIRO, 2026
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Nova Iorque foi palco de um evento climático severo este mês, quando um ciclone-bomba histórico atingiu a região, paralisando a cidade e estabelecendo novos recordes de neve. A tempestade, que muitos consideraram a pior da última década, trouxe consigo não apenas grandes volumes de neve, mas também ventos com força de furacão e condições de nevasca que tornaram a visibilidade quase nula. Milhões de pessoas foram afetadas, com cancelamentos de voos, interrupções no fornecimento de energia e a declaração de estado de emergência em vários estados do Nordeste dos Estados Unidos. O impacto foi tão significativo que a nevasca entrou para o ranking das dez maiores da história da cidade.

O ciclone-bomba ocorre quando a pressão em seu centro cai drasticamente em menos de 24 horas, impulsionado pela colisão de uma massa de ar frio com uma massa de ar quente. No caso recente, o aquecimento do Oceano Atlântico desempenhou um papel crucial, fornecendo a energia necessária para a intensificação explosiva da tempestade, que resultou em nevascas e até mesmo tempestades de neve com relâmpagos, um evento raro e perigoso. 

O aquecimento do oceano tem aumentado muito a quantidade de vapor nas atmosferas e quando encontra uma massa de ar frio, a precipitação  é muito significativa. Essas massas de ar frio têm se intensificado por conta de uma alteração  que ocorre ao redor do Ártico denominada vórtice polar ( correntes de vento) que funciona como uma espécie de bloqueio do que está lá contido. No entanto, devido ao aquecimento global, essas massas têm oscilado fazendo com que esse bloqueio não  seja  tão efetivo, permitindo que massas de ar frio desçam do Ártico em direção a regiões como o Nordeste dos EUA, onde encontram massas de ar quente com vapor que resultam nessas precipitações intensas.

Segundo os pesquisadores Lívia Sancho e Maurício Soares, do Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia (Lamce/Coppe/UFRJ) – parceiro do INPO – Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas – o ciclone-bomba é um ciclone extratropical que passa por um processo de intensificação conhecido como bombogênese ou ciclogênese explosiva. Embora comuns em regiões de médias e altas latitudes, como o Nordeste dos Estados Unidos, a intensidade observada nesse fenômeno é um sinal preocupante. Os pesquisadores explicam que o aquecimento global contribui para o aumento da frequência e intensidade de fenômenos extremos, com o Polo Norte mais quente deslocando o vórtice polar para o Sul e a atmosfera retendo mais umidade. Esses fatores combinados criam um cenário propício para a ocorrência de eventos climáticos mais severos, como o ocorrido em Nova Iorque, indicando que a intensidade alcançada não é tão comum e pode se tornar mais frequente no futuro.

Países localizados próximos às rotas de tempestades extratropicais e em regiões com correntes oceânicas quentes são os mais suscetíveis a serem atingidos por ciclones-bomba. O Sul do Brasil, por exemplo, já experimentou eventos semelhantes, o que demonstra a abrangência geográfica desse tipo de fenômeno. A interação entre o ar frio atmosférico e o ar mais quente do oceano é a chave para a formação e intensificação desses ciclones, tornando as áreas costeiras e as regiões de transição climática particularmente vulneráveis a esses eventos extremos, podendo causar danos significativos à infraestrutura e à vida das pessoas.

De acordo com os pesquisadores, para minimizar os impactos devastadores de fenômenos como o ciclone-bomba, é imperativo que haja um planejamento abrangente e ações adaptativas. Para isso, sugerem o mapeamento de áreas suscetíveis, a implementação de sistemas de alerta eficazes para a população, o reforço de infraestruturas críticas, como a rede elétrica, e um planejamento robusto da mobilidade urbana para evitar o isolamento. Além disso, enfatizam a necessidade urgente de ações agressivas e otimizadas para a mitigação dos gases de efeito estufa, juntamente com o replanejamento das cidades para se adaptarem à nova realidade climática, visando proteger vidas e reduzir os prejuízos econômicos e sociais causados por esses eventos extremos.