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Cinturão de algas no Atlântico ameaça ecossistemas, economia e o litoral brasileiro

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10 DE FEVEREIRO, 2026
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Uma extensa faixa marrom observada recentemente por imagens de satélite chamou a atenção da comunidade científica e do público. Trata-se de um gigantesco acúmulo de algas flutuantes do gênero Sargassum, fenômeno que tem se tornado cada vez mais frequente e intenso no Atlântico Tropical, impactando diretamente também o litoral brasileiro.

As manchas identificadas correspondem principalmente às espécies Sargassum natans e Sargassum fluitans, algas pardas popularmente chamadas de sargaços que, diferentemente da maioria das algas marinhas, não se fixam no fundo do oceano. Elas vivem à deriva, formando verdadeiros tapetes na superfície do mar. Em condições favoráveis — como águas quentes, alta luminosidade e grande disponibilidade de nutrientes — essas algas se multiplicam rapidamente e são agregadas pelas correntes oceânicas, formando extensas massas que podem alcançar milhares de quilômetros. 

“Nos últimos anos, esse acúmulo passou a formar um corredor quase contínuo no Atlântico Tropical, conhecido como ‘Great Atlantic Sargassum Belt’, visível por satélites devido à forte assinatura óptica da biomassa”, afirma o pesquisador e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro da rede de pesquisadores do INPO, Vinícius Peruzzi de Oliveira.

Desde 2011, os pesquisadores vêm observando um aumento na frequência, na duração e na extensão espacial dessas florações de macroalgas flutuantes. Segundo Peruzzi, registros recentes detectaram cerca de 22 milhões de toneladas.

O aumento do fenômeno é resultado de múltiplos fatores. O aquecimento global atua como um importante amplificador, ao elevar a temperatura das águas e acelerar o metabolismo dessas algas. No entanto, outros elementos são igualmente decisivos, como o aumento do aporte de nutrientes oriundos de grandes rios — especialmente o Amazonas e o Congo —, mudanças na circulação oceânica e nos regimes de ventos, além da escassez de predadores naturais. A combinação de luz, temperatura, nutrientes e ausência de controle biológico cria o cenário ideal para as chamadas florações de Sargassum.

No Brasil, os impactos já são realidade. Encalhes frequentes têm sido registrados principalmente no litoral Norte e Nordeste. As correntes superficiais transportam as algas do Atlântico equatorial em direção à costa brasileira, enquanto a pluma do Rio Amazonas fornece nutrientes que intensificam o crescimento da biomassa. Estados como Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Bahia estão entre os mais afetados. “O clima atua como amplificador, mas a eutrofização continental e a falta de controladores biológicos também têm papel central”, conclui o membro da rede INPO.

As consequências são amplas e vão além do aspecto ambiental. O excesso de algas pode bloquear a entrada de luz no ambiente marinho, prejudicando corais e gramíneas marinhas. Durante a decomposição da alga, há um consumo intenso de oxigênio na água, o que pode levar à morte de peixes e outros organismos. Nas praias, o acúmulo provoca mau cheiro — causado pela liberação de gases como o sulfeto de hidrogênio —, afeta o turismo, prejudica a pesca artesanal e eleva os custos de limpeza urbana. Em situações extremas, pode causar desconforto respiratório em moradores e visitantes. Os prejuízos econômicos também podem ser significativos, incluindo perdas na navegação, na aquicultura, na rede hoteleira e no setor imobiliário, além do aumento de gastos com saúde pública.

Apesar do cenário preocupante, é possível transformar o problema em oportunidade. O Sargassum pode ser aproveitado na produção de biofertilizantes, compostagem, biogás, bioplásticos e na extração de compostos bioativos, ajudando a reduzir os custos de remoção e convertendo um passivo ambiental em recurso econômico.

No entanto, para Peruzzi, a estratégia mais eficaz é a prevenção. Investimentos em saneamento básico, controle do aporte de nutrientes, monitoramento por satélite e ações de coleta antes do acúmulo são fundamentais. O manejo integrado da zona costeira surge, portanto, como peça-chave para minimizar os impactos desse fenômeno, que tende a se intensificar nos próximos anos.