Diretora do INPO defende inclusão e ciência aberta para fortalecer resiliência climática no oceano
Atividade realizada na COP30 reuniu pesquisadores do Brasil, Gana e África do Sul
A diretora de Infraestrutura e Operações do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), Janice Trotte-Duhá, mediou a mesa Ocean Observations in Action: Building Climate Resilience in the Global South, realizada nesta segunda-feira (17), no Pavilhão Virtual do Oceano durante a COP30. O encontro, organizado pelo INPO, reuniu especialistas do Brasil, Gana e África do Sul para discutir como a observação oceânica pode sustentar medidas de adaptação e promover justiça climática no Sul Global.
Na abertura, Janice apresentou os avanços dos países do Sul Global na integração entre ciência e sociedade para a resiliência climática. Ela destacou que democratizar o acesso a dados oceanográficos e integrar agendas internacionais – como AAORIA, Ocean20 e a Década da Ciência Oceânica da ONU – é fundamental para otimizar e ampliar a cooperação na esfera de observações oceânicas. “Cooperação é a palavra. Precisamos de ação. Empoderar comunidades locais é crucial para avançarmos: é preciso unir o conhecimento tradicional às ferramentas científicas”, afirmou.
Brasileiros e africanos juntos pelo oceano
O painel contou com a participação da oceanógrafa Leticia Cotrim, professora da Universidade do Rio de Janeiro (Uerj), integrante da Rede Clima e da rede de pesquisadores do INPO; da pesquisadora Cristine Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que atua no projeto Orla Sem Lixo; além de Juliet Hermes, da South African Environmental Observation Network (SAEON) e da University of Cape Town, e Peter Teye Busumprah, de Gana, fundador da Ocean Rock Base e da África Ocean Alliance.
As diferentes perspectivas convergiram para um ponto central: o futuro climático depende da integração entre ciência, saberes locais e políticas públicas robustas. Os participantes compartilharam suas experiências e defenderam a disseminação do conhecimento científico sobre o oceano.
Juliet Hermes ressaltou o desafio histórico de tornar as pesquisas oceânicas acessíveis, especialmente para comunidades e gestores públicos. Ela afirmou que a falta de acesso ao conhecimento científico compromete a capacidade de adaptação dos países. Como solução, defendeu a criação de narrativas que traduzam dados em fatos tangíveis: “Para falar do aumento do nível do mar, por exemplo, é importante mostrar como isso afeta famílias e negócios. Para explicar o aquecimento das águas, falar de como afeta os pescadores e a segurança alimentar.” E concluiu: “É preciso tirar o oceano da margem das discussões e trazê-lo para o centro das decisões políticas”.
O oceanógrafo Peter Teye Busumprah apresentou suas iniciativas de conservação marinha, incluindo o African Ocean Biodiversity Atlas, que aproxima comunidades pesqueiras de dados essenciais à gestão dos recursos marinhos. A iniciativa consolida informações sobre biodiversidade local e desafios ambientais, fornecendo recomendações a governos e fortalecendo o manejo de recursos costeiros.
A democratização da ciência e a educação oceânica também foram temas centrais da fala de Leticia Cotrim. Ela comemorou a expansão do conhecimento oceânico nas escolas por meio da Escola Azul — iniciativa que inclui o oceano na grade curricular em disciplinas como Geografia e Biologia. “A ciência precisa ser para todos, não só para estampar manchetes na imprensa”, enfatizou.
Já Cristine Carvalho apresentou sua experiência no projeto Orla Sem Lixo, que trabalha com comunidades da Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro. A iniciativa estimula a restauração de manguezais e o manejo de resíduos flutuantes na Baía de Guanabara, unindo saberes acadêmicos e conhecimentos comunitários.
Encerramento: ciência, comunidade e políticas públicas caminhando juntas
No encerramento, a diretora do INPO, Janice Trotte-Duhá, sintetizou as mensagens principais da mesa: a urgência de integrar ciência e saberes locais; o papel central das cidades costeiras e prefeituras na adaptação climática; e a necessidade de garantir recursos para que comunidades se tornem coautoras das soluções.
“Um último ponto, e muito relevante: as alterações climáticas impactam mais mulheres do que homens, considerando a natureza do seu trabalho nas comunidades tradicionais. Muitas soluções para as alterações climáticas são implementadas a nível comunitário, onde as mulheres desempenham frequentemente papéis de liderança. Por isso, precisamos encorajar mais mulheres a se envolverem na investigação científica, trazendo conhecimento científico para os seus círculos, promovendo um ciclo de participação e empoderamento. A promoção da participação das mulheres nas discussões e ações sobre as alterações climáticas é também uma questão de justiça social e de equidade de gênero”, afirmou Janice.
Ela concluiu ressaltando que o INPO seguirá comprometido em ampliar a cooperação científica internacional e a inclusão social na ciência do oceano: “Vamos fazer essa onda continuar em movimento. Esta é uma luta que não pode terminar.”