Do gêmeo digital à energia azul: o futuro do oceano em debate na ABC
destaque-4Diretores do INPO destacaram as energias renováveis e a diplomacia científica
O desenvolvimento de energias renováveis no oceano foi o tema da apresentação do diretor-geral do INPO, Segen Estefen, no segundo dia da Reunião Magna da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Na palestra, Estefen apresentou pesquisas desenvolvidas ao longo dos anos e o potencial do oceano como fonte de energias renováveis advindas de ondas, marés, gradiente térmico e gradiente de salinidade.
“Conflitos internacionais nos últimos tempos ressaltaram a importância e a premência na oferta de fontes alternativas de energias renováveis, como as advindas do oceano. É um tipo de energia que todo país costeiro tem e pode trazer independência, a médio prazo, não só de fontes tradicionais, como da necessidade de importação também”, afirmou.
Estefen falou sobre a viabilidade do uso do espaço oceânico para a instalação de placas solares oceânicas e eólica offshore. Ele ressaltou que INPO está criando um Centro de Energia Azul, com o apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), que prevê o desenvolvimento de quatro tecnologias para a produção de energia renovável offshore. “É um projeto que o INPO coordena, com a participação da COPPE-UFRJ, da Universidade Federal do Pará, da Universidade Federal de Pernambuco e da Fundação Getúlio Vargas. Ao longo de três anos vamos desenvolver esses conversores para a criação de protótipos que sejam atrativos a investidores. O objetivo é acelerar o processo entre a concepção e o protótipo”, esclareceu.
O diretor-geral do INPO falou ainda a respeito do projeto para desenvolvimento de um Gêmeo Digital do Atlântico Sul, tema que abriu a programação deste segundo dia de evento. “É um projeto desafiador, que o INPO pretende levar adiante para benefício estratégico. Estamos trabalhando intensamente na estrutura de dados oceanográficos nacionais, que hoje se encontram pulverizados”, afirmou. A plenária teve a participação da pesquisadora Cristiana Simão Seixas, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e mediação de Janice Trotte-Duhá, diretora de Infraestrutura e Operações do INPO. De acordo com Janice, as discussões do dia exploraram criticamente o papel do oceano no antropoceno. “Isso é um marco na história do nosso país, ter o oceano como tema. Um marco na história de muitos países”, ressaltou.

Oceano digital
Na Conferência Magna sobre as inovações do oceano digital para a proteção do ambiente marinho e o desenvolvimento sustentável, o diretor-geral da Mercator Ocean International (empresa global especializada em oceanografia digital), Pierre Bahurel, apresentou o sistema do Gêmeo Digital, uma representação virtual do oceano fornecer múltiplos dados, em tempo real, como, por exemplo, correntes, temperatura, salinidade, de modo a permitir previsões de situações que podem orientar tomadores de decisões na preservação do meio ambiente e na prevenção de eventos extremos, cada vez mais frequentes em função do aquecimento global.
“São 30 anos de experiência e passamos por várias fases para chegar ao sistema de previsão que temos hoje. Trabalhamos para a Comissão Européia, Unesco, ONU e outras instituições. A cada minuto, 10 milhões de pontos são analisados e o sistema fica aberto e livre para que qualquer pessoa possa pesquisar. São 300 mil usuários por mês e três mil no Brasil”, explicou Bahurel, acrescentando que em 2025 a Mercator firmou um memorando de intenção com o INPO para o desenvolvimento de um Gêmeo Digital do Atlântico Sul.

A partir de exemplos reais, Bahurel demonstrou as possibilidades de previsões por meio da captação de dados a partir de modelos digitais. Segundo ele, é possível monitorar a poluição por plástico e prever o itinerário de uma garrafa plástica no oceano. O sistema é capaz de monitorar a produção de sargaço, possibilitando medidas preventivas, assessorando decisões econômicas e de turismo, avaliar o impacto de uma fazenda eólica offshore antes de sua instalação. “Outro exemplo é a proteção de espécies marinhas. Os biólogos marinhos podem descrever o comportamento das tartarugas e, com estas informações inseridas e a análise de dados, como correntes oceânicas, é possível prever o itinerário dos animais e as zonas de maior risco, com concentração de navios pesqueiros. São dados fundamentais para a preservação de espécies”, acrescentou.
Diplomacia científica do oceano
Em plenária, ao abordar o tema “A diplomacia científica do oceano”, o diretor de Pesquisa e Inovação do INPO, Andrei Polejack, destacou a necessidade de articulação entre ciência, políticas públicas e sociedade, de forma a influenciar decisões estratégicas globais. Enfatizou também a importância crescente do papel da ciência na tomada de decisões relacionadas ao oceano. “Um exemplo é o defeso, período em que os pescadores recebem verba do governo para não atuarem, permitindo, assim, que algumas espécies consigam crescer e se reproduzir. Mas esse período ideal mudou ao longo dos anos e a lei é de 1983”, alertou.

Polejack enfatizou o papel do INPO na valorização da ciência e dos pesquisadores brasileiros. “A demanda para a criação do instituto, um processo que durou anos, era sobre a necessidade de uma instituição que abrisse caminhos, empoderando a academia, para que tivesse acesso a dados livres, valorizando, conectando os diferentes atores envolvidos. Tudo para que haja, de fato, benefícios reais para todo mundo”, reforçou.
Fotos: Mário Marques – Divulgação Academia Brasileira de Ciências