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Especialistas debatem impactos da poluição ambiental na saúde humana e nos ecossistemas aquáticos

Saúde Azul Naja Bertolt Jensen / Ocean Image Bank
30 DE SETEMBRO, 2026
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INPO, Fiocruz e Cátedra da Unesco realizam série de webinários da Iniciativa Nacional sobre Uma só Saúde Azul

A presença de microplásticos nos oceanos, a contaminação por metais pesados, os efeitos de poluentes sobre organismos aquáticos e os desafios relacionados ao saneamento e ao acesso à água na Amazônia foram temas debatidos, nesta quarta-feira (30), no segundo webinário da Iniciativa Nacional sobre Uma Só Saúde Azul (Blue One Health).

Promovido pelo INPO, em parceria com a Fiocruz – por meio da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 – e com a Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano/USP, o encontro reuniu especialistas para discutir os impactos da poluição ambiental nos oceanos. Mediado pela coordenadora de Pesquisa e Inovação do INPO, Priscila Lange, o seminário virtual contou com a participação do diretor de Pesquisa e Inovação do instituto, Andrei Polejack.

O webinário reuniu especialistas nesta quarta-feira (30)

O pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (USP) e membro da rede INPO, Alexander Turra, destacou a relação entre a poluição por microplásticos e temas como segurança alimentar, mudanças climáticas e economia azul. Turra alertou que os resíduos plásticos de maior porte descartados inadequadamente se fragmentam no meio marinho e atingem de forma inevitável as redes de efluentes, enfatizando que “os microplásticos são fadados a ir para o esgoto”. 

Ao defender o combate ao problema na raiz, com o enfrentamento do descarte de resíduos maiores, o pesquisador advertiu que, “embora a gente saiba os efeitos que os microplásticos têm, a gente não tem informação sobre os limites seguros de consumo”. Ele ressalta, ainda, a urgência de fortalecer a capacidade nacional de análise dessas partículas no oceano. 

Luiz Drude de Lacerda, pesquisador da Universidade Federal do Ceará (UFC) e presidente do conselho científico do INPO, falou da mobilização de poluentes impulsionada pelas mudanças climáticas, concentrando-se na persistência dos metais pesados. 

“Os metais são permanentes no ambiente”, explicou Lacerda. Por não serem degradados, esses contaminantes permanecem nos ecossistemas, não podendo mais ser mitigados, mas demandando estratégias de monitoramento e adaptação.

O pesquisador apresentou, por exemplo, dados sobre a biomagnificação do metilmercúrio em peixes que mostram que processos naturais podem ampliar em até um bilhão de vezes a concentração do metal ao longo da cadeia trófica. Lacerda destacou ainda a dimensão da exposição relacionada à pesca no Brasil: o país responde por 1.285 quilos anuais de captura de metilmercúrio por meio da pesca, o equivalente a 21% do total global, embora a pesca brasileira represente apenas 0,38% da captura mundial de peixes.

O impacto dessas substâncias na fauna e na economia local foi aprofundado pelo pesquisador Afonso Bainy, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que citou o uso de biomarcadores em organismos aquáticos para mensurar a exposição e os efeitos de contaminantes. Definindo biomarcador como uma resposta biológica mensurável em níveis molecular, bioquímico, celular e fisiológico, Bainy apontou Santa Catarina como estado de referência no monitoramento de pescados e ilustrou a aplicação prática dessas ferramentas com dados do Projeto de Monitoramento de Praias. 

O pesquisador chamou a atenção para o efeito em cascata provocado pela contaminação ambiental, na qual a degradação dos ecossistemas leva à interdição de áreas de pesca e à queda na produção, gerando severas perdas de renda e impactos sociais sobre as famílias e cadeias produtivas locais. 

Água, saneamento e saúde na Amazônia

A dimensão social e de saúde pública também foi enfatizada pela pesquisadora da Fiocruz, Alessandra Nava, que tratou do direito humano à água e ao saneamento sob a ótica da saúde nos “territórios líquidos” da Amazônia. Ela conceituou esses territórios como espaços onde a vida comunitária, os deslocamentos e as políticas públicas dependem intrinsecamente dos ciclos e fluxos dos rios, enfrentando problemas de saneamento básico agravados por períodos de seca, isolamento geográfico e a complexidade do garimpo em comunidades ribeirinhas. A pesquisadora relatou que investigações de campo com animais utilizados como “sentinelas” identificaram a presença de bactérias com resistência a antibióticos, evidenciando como a contaminação aquática ameaça diretamente a saúde pública.

Os palestrantes concordaram sobre a importância fundamental de promover a educação ambiental voltada à saúde e de assegurar a manutenção e expansão contínua dos programas de monitoramento ambiental. O conceito de Uma Só Saúde Azul reafirma que a saúde humana, a saúde animal e a integridade dos ambientes marinhos, costeiros, insulares, ribeirinhos e estuarinos formam componentes inseparáveis de um mesmo sistema socioecológico. A iniciativa nacional dará continuidade ao ciclo com mais dois encontros virtuais, culminando em um workshop presencial para consolidar as prioridades de pesquisa e aproximar pesquisadores, gestores públicos e comunidades.