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Existem rios dentro do mar?

08 DE OUTUBRO, 2026
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Fluxos de água extremamente salgada podem formar paisagens submarinas que lembram rios e lagos, com margens e até ondas

Pode parecer contraditório imaginar um rio correndo dentro do oceano. Mas, em algumas regiões do fundo do mar, cientistas já encontraram fluxos e grandes piscinas de água que se comportam de maneira semelhante a rios e lagos em terra firme. A diferença é que, nesses ambientes, a água não é doce. Ao contrário, ela pode ser muito mais salgada do que a água do mar ao seu redor.

Essas formações são conhecidas como rios ou piscinas de salmoura (brine rivers e brine pools, em inglês). A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) usa inclusive a expressão “lagos e rios submarinos” para explicar o fenômeno. Eles podem apresentar uma superfície bem definida, cachoeiras, margens e até ondulações semelhantes às observadas em corpos d’água terrestres.

Água dentro da água

O segredo para que isso aconteça está principalmente na salinidade e na densidade. Em locais onde existem grandes depósitos de sal sob o fundo marinho, a água do mar pode infiltrar-se por essas camadas, dissolvendo parte do sal. Quando retorna ao fundo do oceano, essa água transforma-se em uma salmoura com concentração de sal muito superior à da água que a cerca.

Quanto mais sal dissolvido, maior pode ser a densidade da água. A salmoura, portanto, tende a permanecer junto ao fundo em vez de se misturar rapidamente com a água do oceano. Dependendo do relevo submarino, pode escorrer por canais ou se acumular em depressões, formando estruturas semelhantes a rios e lagos.

Um exemplo estudado pela NOAA fica no Santuário Marinho Nacional de Flower Garden Banks, no Golfo do México. Ali, a água que emerge de um domo de sal sob o fundo marinho apresenta salinidade superior a 200 partes por mil, enquanto a água do mar ao redor tem aproximadamente 35 partes por mil. A diferença de densidade é tão grande que a separação entre as duas massas de água pode ser observada visualmente.

Rios, lagos e até cachoeiras

A semelhança com uma paisagem terrestre pode ir além. A NOAA já documentou salmoura escoando por encostas submarinas e acumulando-se em áreas mais baixas. Durante uma expedição no Golfo do México, em 2018, o veículo operado remotamente encontrou marcas deixadas pelo fluxo da salmoura em uma encosta até uma piscina localizada abaixo. Os pesquisadores descreveram a formação como uma “cachoeira de salmoura” submarina.

Essas formações podem ter dimensões muito diferentes. Segundo a NOAA, há estruturas com poucos metros de extensão e outras que chegam a vários quilômetros. Algumas apresentam algo semelhante a uma linha de costa e uma superfície de separação entre a salmoura e a água do oceano, onde podem aparecer até pequenas ondas.

Apesar da aparência, porém, esses ambientes não são rios e lagos no mesmo sentido daqueles encontrados nos continentes. Não existe ali um curso de água doce correndo em meio ao oceano. Os termos são usados para descrever o comportamento de uma massa de água extremamente salgada que, por ser mais densa, permanece separada da água marinha ao redor.

Um ambiente extremo para a vida

As piscinas de salmoura também criam ambientes muito diferentes do restante do fundo oceânico. A combinação de salinidade extrema e condições químicas particulares pode tornar seu interior inóspito para muitos organismos. Em uma das formações estudadas no Flower Garden Banks, por exemplo, a NOAA informa que apenas tapetes bacterianos sobrevivem dentro da área de salmoura.

Nas bordas de outras piscinas, porém, a história pode ser diferente. Já foram encontrados mexilhões, vermes tubulares e outros organismos associados a ecossistemas que não dependem diretamente da luz solar. Nesses ambientes profundos, microrganismos conseguem obter energia a partir de substâncias químicas, em um processo chamado quimiossíntese. Esses microrganismos podem sustentar comunidades inteiras em regiões onde a luz do Sol não chega.

Embora o oceano cubra cerca de 70% do planeta, apenas uma parte ínfima do seu fundo foi mapeado em alta resolução, e somente uma pequena fração foi observada visualmente e explorada. Os “rios” e “lagos” submarinos são, assim, mais um exemplo de como o fundo do oceano abriga paisagens e ecossistemas muito diferentes daqueles que vemos na superfície. E lembram o quanto ainda existe por conhecer.

Fonte:

NOOA: The Depths Below – Lakes in an Ocean