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Expedição à Antártica investiga como o extremo Sul do planeta influencia o clima global 

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15 DE JANEIRO, 2026
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Moaçyr Araújo, pesquisador da rede do INPO, fala sobre projeto que busca  respostas aos eventos extremos no Brasil

À frente do projeto Mephisto 2, o professor e pesquisador Moacyr Araújo, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e membro da rede de pesquisadores do INPO, vai anualmente ao extremo Sul do planeta com um objetivo central: compreender como a Antártica é afetada pelas mudanças climáticas e como influencia o clima global e a ocorrência de eventos extremos no Brasil. A última expedição ocorreu entre outubro e novembro de 2025, com embarque no Rio de Janeiro e retorno após semanas de coleta intensa de dados em um dos ambientes mais desafiadores do mundo.

Araújo liderou uma equipe de cinco pesquisadores, sendo dois da UFPE, dois da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e um da Universidade Federal do Paraná (UFPR). “O Mephisto é um projeto de longo prazo, com várias etapas. Esta foi a segunda edição. Começamos em 2018 e, agora, com um novo edital iniciado em 2024, seguimos até 2027, indo todos os anos à Antártica”, explica. 

Segundo ele, a proposta é monitorar continuamente o Atlântico Sul e o Oceano Austral, descendo do litoral brasileiro até as águas polares. Durante a viagem, os pesquisadores coletaram dados físicos e geoquímicos da atmosfera e do oceano – como temperatura, salinidade, correntes marinhas e amostras de água – ao longo de todo o trajeto. Também foram feitos o monitoramento contínuo de dados atmosféricos e a coleta de microplásticos com redes de arrasto.

Moacyr Araújo: coleta intensa de amostras ao longo de toda a expedição

“Coletamos dados de praticamente todo o Atlântico Sul. Existe um transporte muito grande de microplástico que chega ao Atlântico pela Passagem de Drake. O Atlântico acaba funcionando como um grande receptor, recebendo material que vem tanto do Índico quanto dessa região”, afirma o pesquisador.

Além do microplástico, a equipe investigou aspectos físicos, geoquímicos e biológicos do Estreito de Bransfield, região do Oceano Glacial Antártico, entre as ilhas Shetland do Sul e a Península Antártica. Para o pesquisador, o aquecimento do oceano tem impactos diretos em eventos extremos. 

Grande parte das medições é feita a bordo do Navio Polar Almirante Maximiano, da Marinha do Brasil. As amostras de água são coletadas, filtradas e congeladas em ultrafreezers no próprio navio, para posterior análise em laboratórios no Brasil e no exterior. O projeto mantém colaborações com instituições internacionais, como a Agência Internacional de Energia Atômica, em Mônaco – onde são analisadas as amostras de microplástico –, a Universidade de Kiel, na Alemanha, além de parcerias com universidades da Carolina do Norte (EUA), de Tóquio (Japão) e de Magalhães, no Chile.

Os dados já resultaram em diversos artigos científicos que mostram a ampla dispersão do microplástico pelo planeta. “Isso deixa claro que enviar lixo para outro extremo não é solução. O material percorre longas distâncias e se espalha globalmente. Não temos a menor dúvida disso”, ressalta Araújo.

Outro foco central da pesquisa é entender o papel da Antártica na dinâmica climática do Hemisfério Sul. Segundo o pesquisador, alterações no oceano polar e subpolar influenciam diretamente fenômenos extremos, como as enchentes que atingiram recentemente o Rio Grande do Sul. “Há uma combinação de fatores: regiões muito secas, oceano muito quente, instabilidades que ficam estacionadas por muito tempo. Temos observado também uma presença cada vez maior de ciclones intensos, algo que não acontecia com essa frequência”.

A partir desses dados, o objetivo é desenvolver modelos capazes de identificar combinações geofísicas que indiquem a probabilidade de eventos extremos. “Quando esse cenário se forma, há uma grande chance de esses eventos climáticos acontecerem no Sul do Brasil. Entender isso nos permite pensar em sistemas de alerta precoce”, esclarece o pesquisador.

Rotina a bordo exige preparação intensa

A rotina a bordo é intensa e exige preparo físico e psicológico. A expedição envolve de 20 a 25 pesquisadores de diferentes projetos, todos atendidos pelo mesmo navio. A programação de coletas é rígida e depende das condições do mar e da atmosfera. “Quando o navio chega ao ponto de medição, não importa a hora. A equipe inteira precisa trabalhar”, conta Araújo.

Antes do embarque, eles passam por uma bateria de exames médicos e recebem da Marinha todo o equipamento necessário, como macacões, botas, luvas e óculos especiais. A bordo, o navio oferece infraestrutura completa, incluindo alimentação e até academia. Ainda assim, os desafios são constantes. “Ficamos à mercê do mar e da atmosfera. Para atravessar a Passagem de Drake, por exemplo, precisamos esperar ondas menores que cinco metros. É uma das regiões mais traiçoeiras do mundo”, relata.

Mesmo acostumado ao balanço do navio, ele diz que a última viagem foi particularmente marcante. “É um ambiente muito desafiador. Nesta expedição, o navio nos jogou e bati o rosto em uma escotilha. Precisei levar pontos.” Ainda assim, ele descreve a experiência com fascinação. “A Antártica é o lugar onde a natureza mostra toda a sua força. O navio fica como uma folha boiando. Você sente o poder do mar, do vento, da atmosfera. É isso que torna tudo tão fascinante.”

De volta ao Brasil, a equipe agora se dedica à análise dos dados e à distribuição das amostras congeladas entre os laboratórios parceiros. Um trabalho que continua em terra firme, mas que tem origem em semanas de convivência intensa com o frio e o mar agitado. Tudo para que a ciência possa compreender melhor os fenômenos do planeta e prever os impactos da presença humana no meio ambiente.

A equipe viaja a bordo do Navio Polar Almirante Maximiano, da Marinha do Brasil