Expedições a bordo do navio Falkor (too) revelam novas espécies e ambientes inexplorados nas profundezas do Atlântico
BiodiversidadeEm apenas duas semanas de exploração nas profundezas do Atlântico Sul, ao largo da costa do Brasil, uma equipe internacional de cientistas confirmou a descoberta de 31 novas espécies marinhas. A expedição, realizada entre maio e junho de 2026, explorou a camada de meia-água, a vasta região da coluna d’água entre a zona iluminada pelo sol e o leito oceânico, considerada o maior ecossistema habitável do planeta e um dos menos conhecidos pela humanidade.
As criaturas encontradas revelam formas de vida pouco conhecidas e algumas características impressionantes. Entre as novas espécies estão os vermes-fio-de-seda (tomopteris), pequenos animais marinhos capazes de nadar em uma velocidade surpreendente para o formato de seus corpos, e os larváceos, que têm aparência semelhante a de um girino e vivem dentro de estruturas feitas de muco, que funcionam como uma espécie de “casa”. Também foram identificados sifonóforos, animais formados pela união de vários organismos que vivem juntos; ctenóforos, que se movimentam pela água usando pequenas estruturas que brilham ao refletir a luz; e crustáceos hiperídeos, cujos minúsculos olhos têm uma estrutura que lembra um favo de mel.
Os pesquisadores se depararam com eventos surpreendentes, como uma fêmea de polvo (haliphron atlanticus) devorando uma água-viva vermelho-brilhante a 800 metros de profundidade. Também encontraram larvas de lagosta completamente transparentes, tão finas que foi possível observar seus sistemas nervoso e digestivo através do corpo.

ROV SuBastian / Schmidt Ocean Institute
Robôs submarinos e tecnologia não invasiva
Para estudar seres tão delicados e gelatinosos sem danificá-los, a equipe empregou abordagens tecnológicas não invasivas. O Veículo Operado Remotamente, chamado de ROV SuBastian, foi equipado com scanners 3D a laser, além de câmeras de sombra. Essas ferramentas permitiram mapear a anatomia e as estruturas celulares internas dos organismos vivos em seu próprio habitat. Já o sequenciamento genético, realizado nos laboratórios do próprio navio, permitiu confirmar as novas espécies em poucos dias.
Toda essa infraestrutura pertence ao R/V Falkor (too), um dos navios de pesquisa oceanográfica mais modernos do mundo, operado pelo Schmidt Ocean Institute.

Sistema de imagem utilizado para criar modelos 3D de animais gelatinosos. ROV SuBastian / Schmidt Ocean Institute
Caça a fontes hidrotermais
Poucas semanas antes de a missão de meia-água revelar novas espécies, o Falkor (too) também foi palco de uma investigação sobre os processos geológicos que moldam o fundo do oceano. Entre 17 de maio e 20 de junho de 2026, durante uma expedição de 35 dias à Zona de Fratura Doldrums – uma região tecnicamente ativa no Atlântico Central, a cerca de 800 milhas da costa nordeste do Brasil – pesquisadores descobriram dois novos campos de fontes hidrotermais híbridas. Esses ambientes raros combinam vulcanismo tradicional com a serpentinização, uma reação química entre a água do mar e as rochas do manto terrestre.
A missão contou com a participação direta do pesquisador brasileiro Alex Bastos, professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e integrante da rede INPO. Além do mapeamento geológico e hidrotermal, a viagem registrou encontros marcantes com a vida marinha profunda, incluindo filmagens inéditas do peixe-olho-de-barril (winteria telescopa) e avistamentos da rara lula-de-barbatana-grande (magnapinna sp).
A sequência de expedições terá continuidade entre 20 e 30 de setembro de 2026. O Brasil será representado na expedição, batizada de The Gap, liderada por José Angel Perez, professor da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI) e pesquisador da rede INPO. Sua equipe investigará a Zona de Fratura Romanche, uma fenda submarina gigantesca de quase dois mil quilômetros localizada no Atlântico Equatorial entre o Brasil e a África, explorando comunidades biológicas a até 4.500 metros de profundidade. Alex Bastos também estará a bordo dessa missão e, posteriormente, comandará sua própria expedição focada em corais de águas profundas.
Um mergulho nas águas profundas do Atlântico
A expedição ao Atlântico Sul contará com a participação de “tripulantes virtuais” muito especiais. A convite do INPO, 150 estudantes de escolas públicas do Rio de Janeiro se comunicarão com pesquisadores embarcados no navio e poderão acompanhar de perto essa jornada pelas profundezas do oceano.
Ao todo, serão seis encontros entre setembro e outubro, conectando estudantes à ciência, à tecnologia e às possibilidades de carreira ligadas ao oceano. A iniciativa é promovida pelo INPO, em parceria com o Schmidt Ocean Institute (SOI) e a Society for Underwater Technology (SUT), e conta com o apoio do Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia (Lamce) da Coppe/UFRJ, e do Laboratório de Controle e Automação, Engenharia de Aplicação e Desenvolvimento (LEAD), ambos da Coppe/UFRJ.