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Impacto do glitter no oceano: microplásticos do Carnaval ameaçam a vida marinha

BiodiversidadeSociedadeVida Marinha
05 DE FEVEREIRO, 2026
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Entenda como o brilho festivo, mesmo em versões “biodegradáveis”, se transforma em poluição marinha e altera a química dos ecossistemas aquáticos

O Carnaval é a época de maior consumo de glitter no Brasil. Milhões de foliões utilizam essas partículas brilhantes em maquiagens e fantasias, mas o que muitos ignoram é o impacto do produto no oceano. Longe de ser um adereço inofensivo, o glitter tradicional é um microplástico que representa uma ameaça silenciosa e significativa para a vida marinha e para o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos.

A jornada do microplástico: como o glitter chega ao mar

O glitter comum é fabricado a partir de filmes plásticos, geralmente polietileno tereftalato (PET) ou PVC, revestidos com alumínio. Por definição, essas partículas se enquadram na categoria de microplásticos, que são fragmentos de plástico com menos de cinco milímetros.

A rota de contaminação é simples e direta. Ao lavar o corpo ou o rosto após a folia, o glitter escorre pelo ralo. Por serem extremamente pequenos, os microplásticos não são filtrados de forma eficiente pelas estações de tratamento de esgoto. Consequentemente, eles são despejados em rios e, inevitavelmente, chegam ao mar, contribuindo para a poluição marinha. A presença desses microplásticos nos oceanos é massiva, com estimativas que variam entre 15 e 51 trilhões de partículas. 

Uma vez no ambiente marinho, o glitter é facilmente ingerido pela fauna aquática. Organismos na base da cadeia alimentar, como o plâncton, além de peixes, ostras e mexilhões, confundem o brilho com alimento. A ingestão afeta o crescimento, a alimentação e a sobrevivência desses animais, gerando um efeito cascata que pode levar os microplásticos até o prato do consumidor humano.

Glitter e biomineralização: ameaça química aos organismos marinhos

O impacto do glitter no oceano vai além da simples ingestão. Pesquisas científicas recentes apontam que o glitter de PET interage ativamente com a água do mar, alterando processos químicos vitais. Um estudo publicado na Environmental Sciences Europe demonstrou que as partículas de glitter atuam como superfícies de nucleação, acelerando a formação de cristais de carbonato de cálcio (CaCO3).

Este processo, conhecido como biomineralização, é crucial para a sobrevivência de diversos organismos marinhos, como corais, moluscos e ouriços-do-mar, que utilizam o CaCO3 para construir suas conchas e esqueletos. A interferência do glitter pode levar à formação de minerais com a forma e resistência inadequadas, comprometendo a integridade estrutural desses animais.

Além disso, a formação desses cristais na superfície do glitter causa a fragmentação do microplástico em pedaços ainda menores os nanoplásticos. Essas partículas são quase impossíveis de serem removidas do ambiente e possuem maior capacidade de penetrar tecidos biológicos, intensificando a ameaça à vida marinha.

A ilusão do glitter biodegradável

Diante da crise dos microplásticos, o mercado respondeu com a produção do glitter biodegradável, muitas vezes feito com um núcleo de celulose regenerada (MRC) ou mica sintética. Essa alternativa é frequentemente vista como a solução para um Carnaval sustentável.

No entanto, a pergunta “glitter biodegradável funciona?” não tem uma resposta simples. Pesquisas, como a publicada no Journal of Hazardous Materials, indicam que a versão ecológica também pode causar prejuízos ambientais significativos, especialmente em ecossistemas de água doce.

Em testes de laboratório, glitters tradicionais e alternativos (celulose e mica) apresentaram efeitos negativos semelhantes. Eles reduzem o crescimento de plantas aquáticas (Lemna minor) e a biomassa de fitoplâncton, e geram desequilíbrios ecológicos. O estudo publicado no Journal of Hazardous Materials revelou que o glitter de celulose, especificamente, dobrou a presença de caramujos não nativos (Potamopyrgus antipodarum), um sinal de desequilíbrio na cadeia alimentar.

A razão para isso é que, embora o núcleo de celulose possa se degradar em condições ideais, o revestimento metálico e as camadas de acabamento plástico ainda presentes em muitas versões “eco-friendly” retardam o processo e mantêm a toxicidade. A conclusão dos especialistas é que, embora seja um avanço, o glitter biodegradável não deve ser usado de forma irrestrita, pois seu impacto no oceano ainda é uma preocupação.

Dicas para um Carnaval mais sustentável

A chave para um Carnaval sustentável é a redução do consumo e o descarte correto do glitter. A União Europeia já proibiu a venda de produtos com microplásticos, incluindo o glitter. No Brasil, dois projetos de lei semelhantes estão em tramitação, aguardando um parecer da Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria, Comércio e Serviço.

Para os foliões que não abrem mão do brilho, as recomendações são:

1.Evite o ralo: nunca lave o glitter diretamente no chuveiro ou pia.

2.Descarte no lixo comum: remova o glitter do corpo com óleos, lenços ou algodão e descarte o resíduo no lixo comum. Desta forma, ele será encaminhado para aterros sanitários, minimizando a chance de chegar aos cursos d’água.

3.Opte por alternativas naturais: considere o uso de maquiagens naturais, como a mica mineral pura, ou outros materiais de brilho que não contenham plástico.