INPO, Fiocruz e Cátedra Unesco promovem debates científicos sobre relação da saúde humana com a do oceano e seus ecossistemas
Primeiro webinário aconteceu nesta quarta-feira (16) e encontros fazem parte da Iniciativa Nacional sobre Uma Só Saúde Azul
O INPO, em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) – através da Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 (EFA 2030) – e a Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano/USP, deram início, nesta quarta-feira (16), ao primeiro encontro virtual da Iniciativa Nacional sobre Uma Só Saúde Azul (Blue One Health). O webinário abordou o tema “Saúde animal, ambiental e humana” e reuniu as pesquisadoras Silvia Nascimento (UNIRIO); Marinella Laport (UFRJ); Amanda Pontes e Carla Campos, (ambas da Fiocruz), com mediação da coordenadora da diretoria de Pesquisa e Inovação do instituto, Priscila Lange. Serão realizados mais três encontros virtuais e um workshop nacional, presencial. A iniciativa busca construir, de forma participativa, as bases para uma agenda nacional de pesquisa, tecnologia e inovação em Uma Só Saúde Azul.
“A saúde do oceano não pode ser dissociada da nossa e a dos animais. No debate de hoje contamos com a integração de diversas áreas e expertises. Tocamos em temas essenciais e, no próximo encontro, que acontecerá no fim de setembro, vamos aprofundar algumas questões a partir da temática da poluição”, afirmou o diretor de Pesquisa e Inovação do INPO, Andrei Polejack.
Silvia Nascimento iniciou o webinário falando sobre as florações de algas nocivas no Brasil. A pesquisadora alertou que um grupo de cerca de 100 espécies de algas produz florações tóxicas que podem contaminar moluscos e peixes. Estes, quando consumidos, podem adoecer as pessoas. Entre os estudos e dados apresentados esteve o aumento de casos de Ciguatera, intoxicação alimentar grave causada pelo consumo de alguns tipos de peixes contaminados com ciguatoxina, em Fernando de Noronha (PE). Segundo ela, o aumento da temperatura do oceano devido às mudanças climáticas, e da presença de nutrientes, por conta do despejo de esgoto em algumas regiões, estão entre os fatores que ocasionam a maior incidência das florações.
“Esses casos afetam toda uma cadeia econômica também. Há uma diminuição de renda de pescadores, que deixaram de comercializar algumas espécies de peixes, além de afetar o turismo e a saúde pública”, explicou.
Marinella Laport dedicou sua fala aos microorganismos marinhos e apresentou estudos na Baía de Guanabara, em Arraial do Cabo (RJ) e em Fernando de Noronha. As análises revelaram a presença de bactérias na água resistentes a classes de antibióticos. Os locais mais poluídos, como a Baía de Guanabara, apresentaram maior incidência de bactérias com genes resistentes a antibióticos, que acabam chegando ao oceano.
Amanda Pontes tratou da relação entre contaminantes ambientais, saúde animal e segurança do alimento. Ela apresentou pesquisas que comprovam como fertilizantes, lixo e esgoto não tratados acabam chegando ao mar. “Com o aumento da poluição ambiental, geramos mais resíduos que acabam trazendo mais contaminação ao ambiente. Isso ocasiona impacto na saúde animal e vegetal”, disse.
A diretora-adjunta do Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos e coordenadora de Uma só Saúde (ICTB/Fiocruz), Carla Campos, fechou o primeiro debate do ciclo falando sobre zoonoses e saúde animal. Ela apresentou situações que revelam como a contaminação do ambiente marinho retorna como ameaça à saúde humana, verdadeiros ciclos que exemplificam o conceito de Uma Só Saúde Azul ao comprovar como os ambientes estão interligados.
Um dos exemplos citados foi o da Ilha Furtada, popularmente conhecida como Ilha dos Gatos, em Mangaratiba, no Rio de Janeiro. O local virou um ponto de abandono de felinos, que, vivendo de forma precária, adoecem. Os gatos participam do ciclo da toxoplasmose como hospedeiros intermediários, eliminando o agente causador pelas fezes. Com a ocorrência de chuvas, essas fezes chegam ao mar, podendo contaminar a vida marinha, inclusive peixes e mariscos consumidos pela população, que, dessa forma, pode se contaminar também.
“O oceano participa da produção do oxigênio que respiramos, absorve e armazena carbono e exerce papel fundamental na regulação do clima. Esperamos que este encontro fortaleça uma cultura de respeito e cuidado com as pessoas, os demais seres vivos e o ambiente que compartilhamos, contribuindo para a saúde e o bem-viver coletivos”, destacou Carla.
O conceito de “Uma Só Saúde Azul” reconhece que a saúde humana, a animal e a integridade dos ecossistemas marinhos, costeiros, insulares, ribeirinhos e estuarinos são componentes inseparáveis de um mesmo sistema socioecológico. Em um cenário marcado pelas mudanças climáticas, expansão da poluição marinha, perda da biodiversidade e surgimento de zoonoses associadas aos ambientes aquáticos, torna-se necessário integrar diferentes áreas do conhecimento para compreender e enfrentar desafios que ultrapassam fronteiras disciplinares e institucionais.