Justiça climática: comunidades costeiras exigem protagonismo na resposta à crise
destaque-4Pesquisadora da rede do INPO alerta para a vulnerabilidade de pescadores artesanais e quilombolas e defende uma maior priorização dos saberes locais nas políticas de adaptação
As mudanças climáticas não afetam a todos da mesma forma. Essa é a principal conclusão da professora Leandra Regina Gonçalves, do Instituto do Mar da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro da rede de pesquisadores do INPO. Em sua análise, a pesquisadora coloca a justiça climática no centro do debate sobre a crise ambiental. Leandra aponta que os impactos severos nas zonas costeiras — como a elevação do nível do mar, a acidificação dos oceanos e a maior frequência de eventos extremos — atingem desproporcionalmente as comunidades tradicionais, como pescadores artesanais, quilombolas e ribeirinhos, que dependem diretamente dos recursos naturais para a sua subsistência e manutenção dos modos de vida.
“Aos impactos ambientais somam-se as desigualdades sociais e institucionais, o que resulta em vulnerabilidades múltiplas”, explica. Ela destaca que, apesar de serem historicamente pouco responsáveis pela origem da crise climática, essas populações enfrentam o desamparo. A pesca artesanal, por exemplo, é altamente sensível a alterações oceanográficas, à erosão costeira e à perda de biodiversidade, ameaçando diretamente a segurança alimentar e a estabilidade econômica dessas comunidades.
Diante desse cenário, a justiça climática surge como um campo fundamental para a construção de respostas mais justas e eficazes. A pesquisadora defende que as estratégias de adaptação e mitigação devem ir além das dimensões técnicas, incorporando aspectos éticos, sociais e territoriais. Isso passa, necessariamente, pelo reconhecimento dos saberes locais, dos direitos territoriais e do protagonismo das populações afetadas, superando a visão de que o conhecimento científico é a única fonte de solução. Segundo Leandra, é necessário propor soluções que considerem as especificidades de cada território e os valores culturais locais.
Para a professora, a governança climática precisa ser sensível às desigualdades, valorizando a experiência e o conhecimento das comunidades sobre o território. “É preciso ampliar os mecanismos de escuta ativa e fomentar a ciência cidadã”, afirma. Ela cita como exemplo a colaboração ativa das comunidades em todas as etapas da pesquisa científica, desde a coleta de dados até a disseminação dos resultados, de forma a garantir que as soluções sejam cocriadas e não impostas de cima para baixo. O mesmo vale para a construção de políticas públicas e ações de adaptação às mudanças do clima.
A pesquisadora esclarece que há reconhecimento da comunidade internacional sobre a necessidade de fortalecer a capacidade adaptativa, mas faltam orientações para desenvolvê-la. A adaptação depende da disposição e capacidade de converter recursos financeiros, humanos e sociais em ações eficazes. De acordo com Leandra, a falta de dados detalhados em categorias, como gênero, idade, renda, localidade e pertencimento étnico-cultural, oculta desigualdades e dificulta a concretização de políticas eficazes. Ela cita o exemplo das mulheres pescadoras, que enfrentam múltiplos desafios associados às mudanças climáticas na atividade pesqueira, incluindo a redução do estoque pesqueiro, a alteração dos regimes de maré, o aumento da temperatura e a intensificação de eventos de inundação, somados às desigualdades estruturais expressas no acúmulo de responsabilidades relacionadas à manutenção da família, à gestão do lar e a invisibilidade das mesmas como profissionais da pesca.
Leandra ressalta que a construção de uma justiça climática costeira exige, portanto, um esforço que valorize as experiências locais e promova a capacidade adaptativa. Isso inclui o fortalecimento da soberania alimentar, a gestão comunitária dos recursos naturais, o direito aos territórios e a proteção de ecossistemas estratégicos, como manguezais e recifes. Ao articular o conhecimento científico com as práticas tradicionais, o Brasil pode fortalecer a resiliência socioecológica de suas comunidades costeiras, garantindo que a resposta à crise climática seja, acima de tudo, justa e inclusiva.
Nota: Este texto é baseado no subcapítulo “Justiça climática e comunidades costeiras tradicionais” do livro “Mudanças Climáticas no Brasil: Estado da Arte e Fronteiras do Conhecimento”, organizado pelo diretor-geral do INPO Segen Estefen e pelo professor Moacyr Araujo (UFPE).