INSTITUIÇÃO DE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO

Latitude 34 Sul acende alerta global: sinais de colapso climático começam a aparecer no Atlântico Sul

Ponto turístico na Cidade do Cabo, na África do Sul
01 DE JULHO, 2025
Compartilhe

Um dos pontos mais críticos do oceano global pode estar muito mais próximo do Brasil do que se imagina. Localizada entre o sul do Brasil e a Cidade do Cabo, na África do Sul, a latitude 34º Sul tornou-se um dos epicentros da vigilância científica mundial sobre o clima. Ali, mudanças recentes e aceleradas nas propriedades físicas do oceano estão acendendo um alerta para a possibilidade de um colapso na circulação oceânica global — com impactos devastadores para o clima do planeta.

A advertência vem do oceanógrafo físico Edmo José Dias Campos, pesquisador da Rede INPO (Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas) e um dos mais respeitados especialistas da área e coordenador do Projeto SAMBAR, braço brasileiro da rede internacional SAMOC (South Atlantic Meridional Overturning Circulation), que monitora a circulação meridional do Atlântico — uma das engrenagens centrais do sistema climático da Terra.

“Se queremos saber se o sistema climático vai entrar em colapso nas próximas duas décadas, é na latitude 34 Sul que precisamos olhar”, afirma Edmo Campos.

Um sistema sob pressão

Edmo Campos cita estudos recentes, como o liderado por Van Westen e publicado na Science Advances, que indicam que essa faixa do oceano já mostra alterações significativas no balanço de calor, salinidade e entrada de água doce oriunda do degelo polar. A circulação meridional do Atlântico (AMOC) — responsável por transportar calor entre hemisférios — pode estar se tornando instável.

Essa instabilidade pode deflagrar um efeito dominó: o colapso da AMOC comprometeria os padrões globais de precipitação, causaria secas prolongadas em regiões tropicais, impactaria diretamente a Amazônia e intensificaria extremos climáticos em todo o planeta. O Atlântico Sul, especialmente a região observada pelo SAMOC, é o único “portal” por onde essas trocas interoceânicas podem ser medidas com precisão. Por isso, é estratégico.

Mudanças já detectadas

De acordo com Campos, os instrumentos do projeto já registram sinais concretos e preocupantes:

  • aumento da temperatura das águas profundas no Atlântico Sul, inclusive no Canal de Vema — ponto de entrada de águas antárticas no oceano Atlântico;
  • mudanças nos padrões de salinidade;
  • elevação do nível do mar;
  • perda de biodiversidade, incluindo episódios de branqueamento de corais;
  • aumento na frequência e intensidade de furacões e eventos extremos.

Essas transformações indicam que o oceano está buscando um novo equilíbrio — e não há garantias de que ele será favorável à estabilidade climática atual.

“Já sabemos que vamos sofrer consequências drásticas. A pergunta agora é: quando?”, alerta Edmo. “E só poderemos preparar medidas mitigatórias se soubermos quando isso vai ocorrer.”

Brasil: liderança natural em risco

Campos defende com veemência que o Brasil assuma o protagonismo na pesquisa oceânica do Atlântico Sul, tanto pela sua posição geográfica estratégica quanto pela capacidade científica instalada. Ele lembra que países como Argentina e África do Sul enfrentam restrições políticas ou focam outras regiões, como o Índico ou a Antártica. 

“Em termos de Atlântico Sul, o Brasil tem que assumir o protagonismo. Temos o maior número de pesquisas, de conhecimento e condições políticas para liderar esse processo”, afirma.

Mas há um entrave: a falta de infraestrutura e apoio logístico para a ciência de águas profundas. Apesar de o país dispor do navio de pesquisa Vital de Oliveira, ele é pouco utilizado para esse tipo de pesquisa. 

“Precisamos colocar instrumentos a 4.000 ou 5.000 metros de profundidade no meio do Atlântico. Isso requer apoio logístico robusto. Hoje, o Brasil ainda precisa investir muito.”

O impacto será regional — e profundo

A América do Sul será a primeira a sentir os efeitos dessas mudanças. Alterações na circulação oceânica vão afetar o regime de chuvas, com consequências para a Amazônia, o Sul do Brasil e outras regiões. Agricultura, saúde pública, abastecimento de água e segurança alimentar podem ser diretamente impactados.

“Precisamos olhar para o oceano com a visão da próxima década, não apenas do amanhã. O tempo de agir é agora.”

Um alerta científico, um chamado político

Edmo Campos vê o monitoramento da latitude 34º Sul como uma prioridade nacional — e internacional.

“Se queremos evitar surpresas climáticas catastróficas, precisamos investir agora em observação, modelagem e cooperação internacional”, afirma.

Num mundo que acabou de reunir os melhores especialistas do mundo na Conferência do Oceano da ONU (UNOC 2025), em Nice, e caminha COP30, no Brasil, as palavras de Edmo Campos ganham urgência. O que está acontecendo sob as águas do Atlântico Sul pode decidir o futuro do planeta — e a liderança brasileira nesse esforço pode ser decisiva.