Mercado interno pode ser saída para taxação de pescado brasileiro, analisa membro da rede de pesquisadores do INPO
destaque-4Especialista chama atenção para a experiência dos produtores de camarão, como um exemplo a ser seguido e uma alternativa para o setor
Com grande parte da produção de pescado brasileiro voltada ao mercado norte-americano, os produtores nacionais já começam a sentir os efeitos negativos da tarifa de 50% anunciada pelo governo Donald Trump para os produtos do Brasil. O professor do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e membro da rede de pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas (INPO), Ronaldo Cavalli, aponta o mercado interno como uma alternativa e chama atenção para a experiência dos produtores de camarão, como um exemplo a ser seguido e uma opção para o setor.
“Uma das alternativas que vejo é apostar no mercado doméstico, assim como já aconteceu com o camarão no passado. A gente produz muito camarão aqui, principalmente na região Nordeste. Mas esse camarão não mais é exportado para os Estados Unidos como no início do século, quando o mercado americano era o principal destino por conta da proximidade e do custo”, afirma o pesquisador, especialista em aquicultura e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Aquicultura e Biologia Aquática.
Em 2003, os pescadores de camarão norte-americanos acusaram produtores de seis países, entre estes o Brasil, de dumping, ou seja, de vender seus produtos no exterior com um preço abaixo do custo interno, e entraram com uma ação antidumping. Na época, os produtores americanos eram responsáveis por cerca de 10% do camarão consumido nos Estados Unidos, enquanto exportadores supriam os outros 90% com crustáceos produzidos em viveiros. A ação surtiu efeito: no ano de 2005 teve início a cobrança da tarifa antidumping e os produtos passaram a ser taxados. Na época, metade da produção brasileira era destinada aos Estados Unidos. A ação teve impacto principalmente no Nordeste, já que a carcinicultura (criação de camarão em cativeiro) era uma atividade geradora de empregos e divisas para a região, detentora de 98% de todo camarão produzido no país.
“Durante esses anos em que a gente não pôde exportar o camarão, descobrimos o mercado interno. Hoje em dia, o Brasil exporta muito pouco camarão. Quase todo crustáceo que antigamente era vendido para o exterior hoje é consumido localmente no mercado brasileiro. Essa pode ser uma saída, principalmente para a tilápia”, completa Cavalli.

Analisando a situação atual, o membro da rede de pesquisadores do INPO aponta a tilápia, lagosta, pargo e alguns tipos de atum como os principais produtos afetados pela taxação, já que grande parte de sua produção é destinada à exportação para os Estados Unidos. “Outra saída, mais diplomática, seria a exportação para o mercado europeu. Estamos, desde 1999, tentando fechar um acordo entre o Mercosul e a União Europeia, que parece estar em vias de ser assinado”, afirma Cavalli, defendendo o aumento do número de compradores para os produtos brasileiros. “Não podemos, como diz o ditado, botar todos os ovos em uma mesma cesta”, finaliza.