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Os avanços da energia eólica offshore no Brasil

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25 DE AGOSTO, 2025
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Membro da rede de pesquisadores do INPO analisa situação do setor

O ano de 2025 começou com boas notícias para a transição energética brasileira. Em janeiro, foi sancionada a Lei nº 15.097/25, que fixou o marco regulatório para o setor offshore no país, normatizando, por exemplo, a instalação de parques de energia eólica produzida em alto mar. Mas como estão as pesquisas para a viabilização desse setor energético em termos práticos e financeiros? Qual a capacidade de produção e qual a previsão para que a energia eólica offshore esteja em atuação? Professor do Programa de Engenharia Elétrica da Coppe/UFRJ (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da UFRJ) e membro da rede de pesquisadores do INPO (Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas), Edson Watanabe analisa a transição energética no país, traça um panorama das pesquisas que estão sendo realizadas sobre energia eólica offshore, destacando pontos positivos e negativos, e arrisca um prazo para a concretização das metas.

“O tempo para que a população comece a utilizar a energia eólica offshore em escala significativa deve variar entre cinco e dez anos. As chamadas fazendas eólicas devem demorar cerca de cinco anos para serem licenciadas. Depois disso, é rápido”, explica Watanabe, que está à frente de uma equipe de pesquisa, financiada pela TotalEnergies, que estuda as alternativas viáveis de transmissão de energia das fazendas eólicas offshore até o continente.

A pesquisa de Watanabe está centrada no estado do Rio de Janeiro, já que a empresa financiadora conta com um pedido no Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) para instalação de eólicas offshore no estado, embora possa ser aplicada em outras localidades, adaptando-a às características de cada região. Outros grupos de pesquisadores, no Sul e no Nordeste, também estão empenhados em superar os desafios relacionados à produção de energia eólica offshore, a sua transmissão e, também, a conexão ao Sistema Interligado Nacional (SIN).

Há áreas demarcadas e pedidos de licenciamento no Ibama, principalmente para a parte Norte do Rio de Janeiro, Sul do Espírito Santo, Rio Grande do Sul e todo o Nordeste. Em junho deste ano, o órgão emitiu a primeira licença prévia para um projeto de energia eólica offshore no Brasil, no litoral do município de Areia Branca, no Rio Grande do Norte, para o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). A capacidade de produção desta estação, porém, ainda é pequena, de cerca de 24 megawatts (MW).

O Brasil tem, atualmente, cerca de 250 gigawatts de capacidade instalada de geração de energia elétrica e, segundo dados da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), cerca de 84% advêm de fontes renováveis. Se forem aprovados pelo Ibama, os pedidos de instalação de fazendas eólicas offshore, que ultrapassam 250 gigawatts, poderão exceder esta marca. “E seremos quase 100% verdes”, afirma.

No entanto, ainda há desafios a serem superados. No caso da eólica offshore, a transmissão de alto mar para o continente a baixo custo é um dos pontos. Além disso, a geração de energia precisa estar alinhada ao consumo imediato, o que significa que, no instante em que ela é gerada, algum consumidor deve estar consumindo. A maior parte do consumo, no Brasil, está nas regiões Sul e Sudeste. Por outro lado, a geração de energia eólica onshore, hoje, está, principalmente, no Nordeste.  Como as cidades do Nordeste não consomem tanto, apresentando períodos de baixa utilização de energia, é preciso lidar com o chamado curtailment, o corte da geração de energia de fontes renováveis, como solar e eólica, pelo Operador Nacional do Sistema (ONS), devido à necessidade de equilibrar oferta e demanda.

Outro possível obstáculo é a variabilidade na produção energética, já que recursos naturais, como o vento, são previsíveis, porém, com certo grau de erro. Através do monitoramento e da análise de dados, o pesquisador da rede do INPO revela que tem havido, por exemplo, grandes picos de energia eólica de madrugada, quando o consumo é bastante reduzido. Para ele, o cenário ideal da transição energética seria, portanto, a integração de diferentes fontes. “As hidrelétricas atuam, por exemplo, como compensadoras para equilibrar a variação da geração solar e eólica, que não são controláveis. O Brasil é rico nesses recursos”, afirma.

O interesse das empresas na transição energética offshore

Segundo Watanabe, um dos interesses das empresas em investir na produção eólica é a capacidade de produzir hidrogênio de forma limpa, o chamado hidrogênio verde – gerado a partir de energia solar ou eólica. Muito usado na indústria, pode ser capaz de substituir combustíveis fósseis em diversos setores, como transporte, indústria e geração de energia, sem deixar resíduos poluentes.

“Um dos problemas atuais é que muito do que consumimos chega até a gente através de caminhões a diesel, produzindo dióxido de carbono para a atmosfera. O hidrogênio verde não tem resíduo, vira água e evapora. Uma opção limpa”, explica o pesquisador.

Além disso, a energia eólica offshore tem vantagem em relação à produzida no continente. A instalação no mar evita problemas de ruído e ocupação de espaço em terra, que são comuns em fazendas eólicas. Também não produzem poluição visual. Na Alemanha, por exemplo, elas estão sendo instaladas a mais de 15 km de distância da costa. As turbinas offshore também podem ter pás bem maiores (de até 100 metros ou mais), o que aumenta a capacidade de geração de energia e diminui o custo. O transporte dessas pás em terra seria praticamente impossível.

As fontes de energia ao longo da história

Watanabe esclarece que as pesquisas acadêmicas já começaram a investigar os efeitos das energias de fontes renováveis. Ao longo da história, diferentes fontes energéticas passaram de salvadoras para vilãs. É o caso do carvão, por exemplo, que foi o carro-chefe da revolução industrial, mas, após 200 anos de uso, foi condenado como poluente. O petróleo também teve destino semelhante. “O petróleo possibilitou o combustível do automóvel. Mas, passados uns 100 anos, virou poluidor. Isso faz com que muita gente se pergunte: será que isso vai passar com a energia solar e eólica?”, reflete o pesquisador.