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“Paradoxalmente, o aquecimento do planeta pode levar ao resfriamento do Atlântico Norte”, diz Edmo Campos

Clima Edmo Campos é professor emérito da USP e membro da rede de pesquisadores do INPO
05 DE AGOSTO, 2026
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Professor da USP e pesquisador da rede do INPO explica os impactos do fenômeno da “Mancha Fria” do Atlântico

O surgimento de uma “Mancha Fria” (Cold Blob) no Atlântico Norte, resultante do enfraquecimento da circulação oceânica global, está diretamente ligado ao aumento da intensidade e frequência de ondas de calor registradas principalmente na Europa. Segundo Edmo Campos, professor emérito da USP e membro da rede do INPO, o fenômeno altera o comportamento de ventos na atmosfera, permitindo que massas de ar quente vindas do Saara avancem com mais força sobre o continente europeu. O alerta aponta que esse desequilíbrio é um paradoxo do aquecimento global, causado pelo derretimento acelerado de geleiras.

A existência dessa anomalia térmica é monitorada rigorosamente por satélites artificiais, que medem as propriedades da superfície do mar, como a temperatura, em tempo real. Essas ferramentas permitem identificar anomalias, que são as diferenças entre os valores atuais e a média histórica. Enquanto o planeta apresenta temperaturas superficialmente mais quentes de forma generalizada, a região do Mar do Labrador, próxima à Groenlândia, registra um “buraco” de resfriamento. 

A “Mancha Fria” no Atlântico – NASA Scientific Visualization Studio/Goddard Space Flight Center

A magnitude desse fenômeno é evidenciada pelo registro de uma queda de 0,9°C na mancha fria desde o ano de 1900. Embora pareça um número pequeno, em termos oceânicos ele representa uma mudança energética massiva. O pesquisador destaca a importância desse dado. “Quando você tem 0,9 graus de diferença num século, é muita coisa. Uma pequena variação de temperatura no oceano significa uma mudança radical, porque exige uma grande quantidade de energia”. 

Isso acontece porque a água possui uma capacidade térmica muito superior à do ar. Em outras palavras, ela precisa absorver ou liberar uma quantidade muito maior de energia para variar apenas um grau de temperatura. Como os oceanos armazenam cerca de 90% do excesso de calor acumulado pelo sistema climático terrestre, uma alteração média de apenas 0,9°C representa uma gigantesca redistribuição de energia em um volume imenso de água, capaz de modificar correntes oceânicas, padrões atmosféricos e o clima em escala global. 

Mancha Fria e a AMOC

Essa “mancha” sinaliza também o enfraquecimento da AMOC, a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico, que funciona como uma “correia transportadora” que redistribui o calor das regiões tropicais para as polares, mantendo o clima global equilibrado. Sem essa circulação, os polos seriam drasticamente mais frios e os trópicos excessivamente quentes. O oceano é o principal regulador climático devido à alta capacidade térmica da água, que exige uma quantidade colossal de energia para sofrer variações de temperatura. No entanto, esse mecanismo fundamental está sendo interrompido no Atlântico Norte, onde as águas que deveriam afundar para retornar ao sul estão perdendo densidade.

O gatilho desse processo é justamente o aquecimento global, que provoca o derretimento massivo de gelo na Groenlândia e no Ártico. A injeção de água doce no oceano inibe o afundamento da água salgada, impedindo que o calor vindo do sul chegue às altas latitudes. Isso gera um ciclo de retroalimentação: menos calor faz a região esfriar, o que enfraquece ainda mais a circulação. Esse resfriamento, por sua vez, gera um desequilíbrio na atmosfera, afetando o chamado jato polar, ventos que sopram de oeste para leste. A Mancha Fria então intensifica as oscilações desse jato, conhecidas como Ondas de Rossby, tornando-as mais frequentes e intensas. Na Europa, essa dinâmica favorece a formação de anticiclones que “puxam” o ar quente do Saara, resultando em ondas de calor severas. Já na América do Norte, o sistema empurra o ar polar para o sul, causando invernos muito mais rigorosos.

E como isso pode afetar o Brasil? 

Embora os impactos mais imediatos ocorram no Hemisfério Norte, o Brasil e o Atlântico Sul não estão imunes. No longo prazo, o calor que deixa de ser transportado para o norte tende a sofrer um “represamento” térmico em nossa região, o que pode causar mudanças radicais no clima local em algumas décadas ou séculos. Espera-se que esse aquecimento das águas regionais altere significativamente o ciclo hidrológico, influenciando a frequência e a intensidade das chuvas.

O pesquisador reforça que o fenômeno é um fato científico: “Isso que a gente está falando aqui não é achismo, isso é resultado de observação. Existe a mancha fria no Atlântico Norte, que é observada e está associada intimamente com o aquecimento do planeta. O que está acontecendo é que o ser humano está contribuindo para que esses processos naturais – como a Mancha Fria do Atlântico – estejam acontecendo de forma não natural”.