Pesquisa revela que microbiota marinha pode fortalecer o monitoramento de recifes de corais
Recifes de CoraisVida MarinhaPaulo Sergio Salomon (UFRJ e rede INPO) comenta artigo publicado na Nature e fala sobre estratégias de conservação diante das mudanças climáticas
A combinação de diferentes técnicas de sequenciamento de DNA permitiu que pesquisadores da Universidade de Queensland e do Instituto Australiano de Ciências Marinhas identificassem centenas de espécies na Grande Barreira de Corais, na Austrália, até então desconhecidas. “Os resultados do estudo publicado na revista Nature mostram como o avanço das ferramentas científicas pode ampliar a compreensão da saúde dos ecossistemas marinhos”, afirmou Paulo Sergio Salomon, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e membro da rede do INPO.
Salomon ressalta, no entanto, que ainda temos muito a descobrir sobre a microbiota marinha. “O retrato da biodiversidade microbiana dos oceanos que temos ainda é bastante incompleto. É como se a gente soubesse que existem muitas pessoas num ambiente, numa sala, mas a gente não tem resolução suficiente para enxergar claramente os rostos e os detalhes das características dessas pessoas”, acrescenta o professor, que é pesquisador dos Programas Ecológicos de Longa Duração (PELDs) da Baía de Guanabara e do Sistema Recifal de Abrolhos.
Um alerta para o monitoramento ambiental no Brasil
Na avaliação do professor, os resultados trazem reflexões importantes para o contexto brasileiro. Apesar da relevância dos recifes e de outros ecossistemas marinhos do país, “a microbiota da água do mar ainda nem sempre é tratada como um componente essencial, muitas vezes por desconhecimento dos tomadores de decisão, por falta de atualização metodológica e até mesmo por resistência à incorporação de novas abordagens nos programas de monitoramento. Isso é claramente um equívoco”, aponta Salomon.
Segundo ele, os microrganismos respondem rapidamente a diferentes tipos de pressão sobre os ecossistemas marinhos, como poluição, contaminação por óleo, rejeitos de mineração e alterações provocadas pela pesca, podendo indicar sinais de degradação antes mesmo que impactos mais visíveis apareçam em corais e peixes. “Esses organismos são, portanto, indicadores naturais e muito sensíveis do estado do ecossistema.”, explica.
Na pesquisa publicada na Nature, os cientistas conseguiram diferenciar áreas protegidas da pesca de regiões abertas à exploração utilizando apenas informações sobre a composição do microbioma, alcançando uma taxa de acerto de aproximadamente 75%. Para Salomon, o resultado mostra um caminho promissor para complementar os programas de monitoramento ambiental. Ao mesmo tempo, ele ressalta que essa abordagem não substitui outras formas de acompanhamento dos ecossistemas: “É uma ferramenta importante de resposta rápida, e que deve ser combinada com outras abordagens.”
Pesquisas brasileiras em curso
As pesquisas conduzidas pelo grupo do professor Salomon na UFRJ, com foco no Banco dos Abrolhos, formação de recifes de cerca de 46 mil km² situada entre o sul da Bahia e o norte do Espírito Santo, demonstram que esses microrganismos não são apenas habitantes passivos, mas também componentes funcionais que reagem em tempo real às ameaças ambientais. Um dos estudos baseou-se no isolamento da microalga Symbiochlorum hainanense, que revelou uma capacidade surpreendente de manter o crescimento acelerado a 32 °C, indicando que as ondas de calor marinhas já podem estar reorganizando as comunidades recifais brasileiras. Da mesma forma, o grupo identificou que a alta concentração de bactérias do gênero Vibrio em recifes sob estresse costeiro funciona como um aviso precoce de desequilíbrio, manifestando-se muito antes que danos físicos aos corais sejam detectáveis visualmente.
Diante desses achados, Salomon adverte a urgência de integrar esses dados aos protocolos nacionais de vigilância, reforçando que o Brasil já produz ciência capaz de validar indicadores locais sem depender exclusivamente de modelos estrangeiros. Segundo o pesquisador, “o microbioma não deve ser tratado apenas como uma lista de microrganismos associados aos corais; ele é parte ativa do funcionamento do sistema recifal”. O trabalho do grupo da UFRJ demonstrou, inclusive, que uma vasta biodiversidade de microalgas estava “escondida” em bancos de dados já existentes, bastando uma nova abordagem analítica para revelá-la.
“Biblioteca genética” e a biotecnologia
Outro resultado do estudo publicado na Nature foi a criação de um banco de dados com mais de cinco mil genomas microbianos e centenas de milhares de genomas virais. Para Salomon, essa “biblioteca genética” representa uma importante referência para acompanhar como esses organismos respondem ao aquecimento do oceano, às ondas de calor marinhas e a outras alterações ambientais.
Além das aplicações voltadas à conservação ambiental, o banco de dados abre novas possibilidades para a biotecnologia. A diversidade genética dos microrganismos pode contribuir para a descoberta de novas enzimas, compostos bioativos e tecnologias ambientais.
A descoberta australiana valida também o esforço do grupo da UFRJ em revelar a biodiversidade oculta nos recifes brasileiros. Para Salomon, “é possível entender a microbiota marinha como uma das últimas fronteiras para prospecção biotecnológica. O mar é uma das nossas últimas fronteiras no conhecimento científico. O potencial existe, mas transpor esse enorme vale entre o potencial e a real aplicação depende muito de investimento.”