Pesquisadores da rede INPO apontam maior vulnerabilidade das zonas costeiras aos eventos climáticos extremos
Possibilidade de super El Niño reforça urgência na implementação de medidas de adaptação
As previsões de um super El Niño em 2026 impulsionam os debates sobre o aquecimento global – já que a maior incidência e intensidade de eventos extremos está associada às mudanças climáticas – e a adaptação necessária para os efeitos previstos. Segundo Marcus Polette, professor da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI) e integrante da rede de pesquisadores do INPO, o último relatório do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) já ressaltou que o ano de 2025 no Brasil foi marcado por uma ampla variedade de desastres hidrometeorológicos, fortalecidos por padrões climáticos extremos associados ao aquecimento global. O resultado aponta, principalmente, para a vulnerabilidade dos municípios costeiros, propensos a efeitos como chuvas extremas, secas ou ondas de calor.
“As áreas costeiras estão entre as mais densamente povoadas do Brasil, sendo que o rápido processo de urbanização, a partir da década de 1970, empurrou milhões de pessoas para esses locais, elevando o risco das moradias. Há uma grande população que vive em favelas e comunidades urbanas em áreas sujeitas a inundações, enxurradas e deslizamentos”, ressalta o pesquisador, destacando que o número de eventos extremos relacionados à chuva também triplicou desde os anos 1990.
As estratégias de adaptação às mudanças climáticas são essenciais para tornar regiões costeiras mais preparadas para lidar com os desafios futuros. Entre elas, Polette cita medidas que unem conhecimento científico com recursos naturais. “É fundamental implementar estratégias, algumas já em curso, para uma justiça climática, tendo como base, por exemplo, o relatório Cidades Verdes-Azuis Resilientes, o qual reúne conhecimento científico e tecnológico para restaurar a infraestrutura verde e azul das cidades, visando ao enfrentamento de enchentes, ilhas de calor, poluição e crises hídricas”, explica o pesquisador, que coordena o Observatório Costeiro do Setor Centro-Norte de Santa Catarina – iniciativa que integra ciência, tecnologia e governança para apoiar a tomada de decisões em oito municípios da região.
Fragilidade costeira
Professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e pesquisador da rede INPO, Nils Edvin Asp investiga há décadas a dinâmica sedimentar e a evolução da zona costeira brasileira, com foco na foz do rio Amazonas e em pesquisas pontuais nas costas dos estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Seus estudos mostram que o estoque de sedimentos nas regiões é essencial para manter a estabilidade natural do ambiente, o que não tem acontecido em grande parte do litoral brasileiro, tornando esses ambientes mais suscetíveis aos impactos climáticos. De acordo com Nils Asp, características como a proporção entre areia e lama e a granulometria influenciam a capacidade de resposta à erosão, às tempestades e à elevação do nível do mar.
“Uma das conclusões mais críticas é o fato de a maioria das zonas costeiras brasileiras estar com seus estoques e sua disponibilidade de sedimentos já muito reduzidos, por vezes exauridos, o que coloca esses locais em grande vulnerabilidade em relação aos eventos extremos”, constata o pesquisador.
Já na região Norte, a preocupação está relacionada à extensa presença de manguezais, à elevada amplitude das marés e ao relevo muito plano. Nessas condições, pequenas elevações do nível do mar podem provocar grandes avanços da água sobre o continente e alterar significativamente os ecossistemas costeiros.
Para reduzir os impactos das mudanças climáticas, Nils Asp defende políticas públicas voltadas ao ordenamento da ocupação costeira e à adoção de soluções baseadas na natureza, como a conservação e recuperação de manguezais e outras formações naturais capazes de proteger o litoral. Em situações mais críticas, como em grandes centros urbanos e áreas portuárias, obras de engenharia podem ser necessárias, segundo ele, mas devem ser precedidas por planejamento rigoroso e estudos científicos aprofundados.
O pesquisador também chama atenção para a necessidade de ampliar os investimentos em monitoramento costeiro no Brasil. Isso porque o país ainda apresenta lacunas importantes na coleta contínua de dados sobre nível do mar, marés, ondas e descarga de água e sedimentos dos rios, informações essenciais para prever impactos e orientar políticas de adaptação.
Super El Niño amplia riscos
Segundo Polette, o mais recente relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM) indica uma probabilidade de cerca de 80% de ocorrência de um El Niño entre julho e agosto de 2026, com chances superiores a 90% de sua permanência até, pelo menos, o mês de novembro. Eventos extremos como esse costumam intensificar fenômenos climáticos em diferentes regiões do país. Enquanto Sul e Sudeste podem enfrentar aumento de chuvas, enchentes e deslizamentos de terra, a Amazônia tende a sofrer com secas severas, dificuldades de navegação, isolamento de comunidades e problemas de abastecimento de água.
Para Nils Asp, a preparação para a chegada do fenômeno deve ocorrer com antecedência, por meio de sistemas de monitoramento e alerta, além de políticas públicas capazes de garantir acesso à água, alimentos e serviços essenciais. Entre as alternativas para a Amazônia, ele destaca a ampliação da captação de água da chuva por meio de cisternas, estratégia já utilizada no semiárido brasileiro.
De acordo com Polette, a chegada do fenômeno requer atenção redobrada. “O El Niño não representa apenas uma mudança na temperatura do Oceano Pacífico. Ele é um dos principais moduladores do clima global e, quando ocorre sobre um planeta já aquecido pelas mudanças climáticas, aumenta a frequência, a intensidade e a duração de ondas de calor, secas, chuvas intensas e outros eventos extremos”, explica.
Nas regiões costeiras, acrescenta o pesquisador, esses impactos tendem a ser potencializados pela combinação entre chuvas intensas, ressacas, erosão costeira, alagamentos e sobrecarga dos sistemas de drenagem urbana, afetando infraestruturas, atividades econômicas, turismo e populações vulneráveis.
Com o objetivo de enfrentar esse cenário, o pesquisador destaca o fortalecimento dos sistemas de monitoramento meteorológico, hidrológico e oceanográfico; a atualização dos planos de contingência da Defesa Civil; o mapeamento das áreas de risco; além de investimentos em infraestrutura e soluções baseadas na natureza. Ele ressalta, ainda, a necessidade de recuperação de áreas úmidas, manguezais, restingas e matas, bem como o fortalecimento da comunicação de riscos e da educação climática, de modo a permitir que gestores e população compreendam os cenários e adotem medidas preventivas.
“O El Niño reforça a importância de integrar ciência, planejamento territorial, governança e adaptação climática como elementos centrais para aumentar a resiliência dos territórios diante dos eventos extremos que tendem a se tornar cada vez mais frequentes e severos”, alerta Polette.