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Por que o nível do mar não sobe igualmente em todos os lugares?

31 DE AGOSTO, 2026
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Temperatura, correntes, gravidade e movimentos do próprio terreno fazem com que a elevação do nível do mar seja diferente em cada região do planeta

Uma banheira que recebe mais água tem seu nível elevado praticamente por igual. Seria natural imaginar que o mesmo acontecesse com os oceanos, à medida que o aquecimento da água e o derretimento de geleiras e mantos de gelo aumentam o volume de água no planeta. Mas é justamente a analogia com uma “banheira gigante” que a NASA usa para explicar por que isso não acontece. Embora o aumento do nível do mar seja um fenômeno global, seus efeitos variam de uma região para outra. Ou seja, todo nível do mar é, em certo sentido, local.

Parte da explicação está na própria dinâmica dos oceanos. Correntes transportam grandes quantidades de água de uma região para outra e são influenciadas por ventos, aquecimento, evaporação e precipitação. Fenômenos como El Niño e La Niña, além de variações climáticas de prazo mais longo, também modificam a circulação oceânica e, com ela, a distribuição da água pelo planeta.

O resultado dessas diferenças pode ser expressivo. De acordo com a NASA, entre 1993 e 2018, houve regiões em que o nível do mar aumentou entre 12 e 15 milímetros por ano e outras em que caiu em magnitude semelhante. No mesmo período, a média global subiu cerca de 3 milímetros por ano. Grande parte dessa desigualdade regional está associada à dinâmica dos oceanos.

Correntes e calor redesenham o mapa

A temperatura acrescenta outra variável. A água se expande quando aquece e passa a ocupar mais espaço, mas o calor não se distribui de maneira uniforme pelos oceanos. Nos trópicos, por exemplo, um aumento de 1°C nos primeiros 100 metros da coluna de água pode provocar cerca de três centímetros de elevação do nível do mar apenas por expansão térmica. Regiões que armazenam quantidades diferentes de calor, portanto, também apresentam respostas diferentes.

Há ainda um mecanismo menos intuitivo. Grandes massas de gelo não apenas armazenam enormes volumes de água: sua massa também exerce atração gravitacional sobre a água dos oceanos. Quando uma dessas massas diminui, muda o campo gravitacional ao seu redor e, consequentemente, a maneira como a água se distribui.

O paradoxo Groelândia

A Groenlândia é um bom exemplo de como esses processos se relacionam. Seu manto de gelo perde centenas de bilhões de toneladas de massa por ano e contribui para a elevação do nível médio global do mar. Ao mesmo tempo, essa perda produz um efeito local que pode parecer contraditório. Conforme a camada de gelo diminui, reduz-se o enorme peso exercido sobre a terra. Com o alívio dessa carga, o terreno sob o gelo se eleva.

A perda de massa também reduz a atração gravitacional que o gelo da Groenlândia exerce sobre o oceano próximo. A água que antes era mais fortemente atraída para aquela região tende a se afastar. Assim, o mesmo derretimento que acrescenta água aos oceanos e contribui para elevar o nível do mar em regiões distantes pode produzir o efeito oposto nas proximidades da Groenlândia. Ali, o nível relativo do mar pode cair.

Medições das missões de satélite americano-alemãs GRACE (Gravity Recovery and Climate Experiment) e GRACE Follow-On (GRACE-FO) indicavam uma perda média de 281 gigatoneladas de gelo da Groenlândia por ano. Dados da GRACE-FO mostravam ainda que o derretimento do gelo localizado sobre os continentes (em geleiras, calotas e mantos de gelo) havia respondido por cerca de dois terços da elevação global do nível do mar na década considerada no levantamento.

É justamente essa redistribuição desigual que produz as chamadas “impressões digitais” do nível do mar. Cada grande massa de gelo que perde volume gera um padrão geográfico próprio, determinado não apenas pela água acrescentada aos oceanos, mas também pelas mudanças na gravidade e por pequenas alterações na rotação da Terra. No caso do derretimento do gelo da Antártida, por exemplo, a elevação do nível do mar na Califórnia e na Flórida pode ser até 52% maior do que seria se toda a água simplesmente se espalhasse de maneira uniforme pelos oceanos.

Nível relativo do mar

Para quem vive no litoral, há ainda outra peça nessa equação: a terra também se move. O que uma população costeira percebe não depende apenas de quanto a superfície do oceano sobe ou desce, mas da posição do mar em relação ao terreno. É o chamado nível relativo do mar.

O solo pode afundar devido, por exemplo, à compactação de sedimentos. Movimentos tectônicos também podem elevar ou rebaixar o terreno. Dois lugares submetidos a mudanças semelhantes na altura do oceano podem, portanto, enfrentar situações bastante diferentes se o terreno estiver afundando em um deles e se elevando no outro.

É por isso que a média global, embora fundamental para medir as mudanças nos oceanos, não permite dizer sozinha o que acontecerá em cada trecho do litoral. Correntes, temperatura da água, perda de gelo, gravidade e movimentos do terreno interferem no resultado observado em cada região. O nível do mar está subindo globalmente, mas, para uma cidade costeira, é a combinação desses processos locais e globais que determina quanto dessa elevação chegará à sua costa.

Fontes

NASA Sea Level Change — Are sea levels rising the same all over the world, as if we’re filling a giant bathtub?

NASA Science — Sea Level 101, Part Two: All Sea Level is “Local”