Temporada de pesca ao krill da Antártica é encerrada antecipadamente
Segundo pesquisador da rede do INPO, espécie é essencial para o equilíbrio do ecossistema local
A pesca de krill perto da Antártica foi encerrada quatro meses antes do previsto, após, pela primeira vez, exceder o limite de captura sazonal. O fato chama atenção para a importância desse pequeno crustáceo, com aparência semelhante a um camarão, para o equilíbrio do ecossistema local e a valorização que vem conquistando no mercado mundial. O professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e membro da rede de pesquisadores do INPO, Eduardo Secchi, revela que o krill antártico é uma espécie-chave para o Oceano Austral. O crustáceo, que mede até cerca de seis centímetros quando adulto, é alimento para quase todos os principais animais marinhos das águas antárticas, como focas, lobos-marinhos, pinguins e peixes.
Avanços tecnológicos na captura e processamento do krill tornaram sua exploração comercial economicamente viável, o que impulsionou a expansão do mercado. A indústria pesqueira também descobriu o enorme valor do krill. Sua composição – com a presença de proteína, ácidos graxos, ômega-3 e astaxantina (um valioso antioxidante que dá ao krill a cor avermelhada) – vem sendo valorizada para o desenvolvimento de rações para a aquicultura, suplementos nutricionais para o consumo humano, além de produtos para a indústria farmacêutica.
“O krill converte algas microscópicas em biomassa rica e proteica. Desempenha, também, um papel crucial no ciclo do carbono oceânico, através de suas migrações verticais diárias, transportando carbono das águas superficiais para o oceano profundo e contribuindo significativamente para o sequestro de carbono”, explica o pesquisador, acrescentando que o crustáceo ajuda, ainda, a regular as florações de fitoplâncton.
Alternativa sustentável aos estoques pesqueiros
“A enorme biomassa da espécie inicialmente parecia oferecer uma alternativa sustentável aos estoques pesqueiros em declínio mundial. Entretanto, uma forte pressão de pesca do krill, se não controlada, tanto no que diz respeito à quantidade quanto aos locais de captura, pode comprometer espécies predadoras, algumas em declínio e outras em lenta recuperação, após décadas de exploração comercial”, afirma Secchi, que no momento atua como como professor-visitante na Nova Zelândia.
O funcionamento da cadeia alimentar entre espécies é tênue. Dependendo da magnitude do impacto da pesca do krill em grande escala, o equilíbrio do ecossistema Antártico pode ser altamente comprometido. Apesar da existência de regulamentação proveniente da Comissão para a Conservação dos Recursos Vivos Marinhos da Antártica (CCAMLR), o aumento do interesse pelo crustáceo aponta para uma revisão dos modelos atuais e para a necessidade de uma regulamentação de pesca mais rígida.
Para Secchi, o investimento em pesquisas sobre distribuição, abundância e interações ecossistêmicas que envolvam o krill é essencial para o desenvolvimento de uma regulamentação da pesca eficiente. “É importante a colaboração científica internacional. Independentemente da distância geográfica, a conservação do planeta é assunto de interesse global”, afirma o pesquisador, vinculado ao Programa Antártico Brasileiro (Proantar) e ao Comitê Científico de Pesquisa Antártica (SCAR).
Aprendendo com o passado
O krill não é o único crustáceo a ganhar a atenção do mercado pesqueiro. Entre as décadas de 1960 e 1980, a captura do caranguejo-rei do Alasca entrou em expansão. Neste caso, o avanço nas tecnologias de pesca, as mudanças nas demandas do consumidor e as pressões econômicas também transformaram uma espécie, previamente desvalorizada, em alvo de pesca comercial sob intensa pressão de captura.
O caranguejo é famoso por seu grande tamanho – pode chegar a 1,8 metro – e carne suculenta, de sabor intenso, semelhante ao da lagosta. A espécie recebeu uma regulamentação de pesca rigorosa para garantir sua preservação, que inclui a definição dos períodos liberados para captura, os tamanhos mínimos e a restrição à pesca de fêmeas.
O krill antártico e suas características
Para quem não conhece, o krill é semelhante a pequeninos camarões. Grande parte de seu corpo é transparente, embora apresente manchas vermelhas na carapaça e, algumas vezes, uma coloração verde, por conta da ingestão de fitoplâncton. Krill é um termo geral usado para descrever cerca de 86 espécies de crustáceos encontrados no oceano, que pertencem ao grupo de crustáceos chamado de eufausídeos.
O krill antártico é uma das cinco espécies de krill que vivem no Oceano Antártico e a mais abundante de todas. É a mais conhecida e comercialmente explorada também. Como estão agrupados em enormes cardumes (que podem ter quilômetros de extensão), chegam a colorir o oceano quando avistados à distância.
Pelo fato de viver em um ambiente escuro e extremamente frio, o krill antártico sofre adaptações durante o período de inverno. Ele pode ficar por longos períodos sem se alimentar, usando as proteínas do próprio corpo para sobreviver. Por conta disso, diminui, modificando o seu tamanho ao longo da vida.