“Uma Só Saúde Azul” é foco de parceria entre INPO e Fiocruz
Em entrevista, Carla Campos, da Fiocruz, reforça como as saúdes humana, animal e ambiental estão diretamente ligadas ao oceano
O INPO firmou, no fim de 2025, um protocolo de intenções para cooperação com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no desenvolvimento de ações e pesquisas no contexto do conceito de “Uma Só Saúde Azul*”. A iniciativa reforça a inclusão do oceano nas estratégias integradas de saúde humana, animal, ambiental e vegetal, enfatizando a importância dos ambientes marinhos e de seus serviços ecossistêmicos para a manutenção da saúde e da vida na Terra.
Carla Campos, assessora técnico-científica em Uma Só Saúde na Estratégia Fiocruz para a Agenda 2030 (EFA2030), diretora-adjunta e coordenadora em Uma Só Saúde no Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos (ICTB/Fiocruz), explica, na entrevista abaixo, o conceito, a valorização do oceano nas ações políticas e a importância cada vez maior de pesquisas transdisciplinares, especialmente quando o foco é a saúde em seu conceito ampliado.
“A saúde humana, a dos animais, dos demais seres vivos e do grande ambiente em que nos inserimos são interdependentes e requerem ações conjuntas e pesquisas interdisciplinares para resultados efetivos e sustentáveis”, afirma.
Você poderia falar um pouco sobre o conceito de “Uma só saúde” e como o oceano foi ganhando importância nesse contexto?
O conceito de “Uma Só Saúde” não é novo e possui várias definições. A temática ganhou mais força após a pandemia, por sua provável origem em animais. Naquele período, a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) se uniram para a criação de um painel de especialistas de alto nível sobre Uma Só Saúde (OHHLEP). Posteriormente, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) passou a integrar o acordo.
A partir desse arranjo, todos os países signatários da Organização das Nações Unidas (ONU) foram estimulados a desenvolver seus planos de ação nacionais dentro dessa abordagem. Nesse contexto, o Brasil criou, em 2024, o Comitê Uma Só Saúde, com o objetivo de elaborar o plano brasileiro e integrar diversos ministérios, instituições públicas e conselhos de classe, articulando as saúdes animal, humana, vegetal e ambiental.
O plano foi pré-lançado em 2025 e encontra-se em fase de incorporação das sugestões recebidas da sociedade civil, após um período de consulta pública. Sendo assim, o Brasil ocupa uma posição de destaque, por já ter elaborado o seu plano, no qual o oceano será incluído.
Embora exista uma definição mais recente de Uma Só Saúde dada pela OHHLEP, focada na operacionalização, a prática da estratégia no Brasil é muito mais antiga e se fundamenta nos pilares da saúde coletiva, constituindo uma importante ferramenta de fortalecimento do SUS. Ela é reconhecidamente eficaz na redução dos riscos de doenças, especialmente em populações em vulnerabilidade socioambiental, e capaz de demonstrar, de forma prática, a Determinação Social da Saúde.
Como esse movimento se organizou internamente? Quando a Fiocruz passou a desenvolver ações nesse sentido?
Na Fiocruz, o movimento de Uma Só Saúde Azul é liderado pela EFA2030, coordenado pelo pesquisador Paulo Gadelha. Adicionalmente, estabelecemos um Grupo de Trabalho sobre Oceano, Águas Costeiras e Continentais dentro do Programa de Pesquisa Translacional em Uma Só Saúde, ligado à Vice-Presidência de Pesquisa e Coleções Biológicas, e estamos estruturando nossa rede de profissionais ligados ao tema. Será muito oportuno e produtivo podermos aproximar a nossa rede institucional à rede do INPO, catalisando e fortalecendo cooperações interinstitucionais.
Na sua perspectiva, por que só agora o oceano passa a ser visto pela população como essencial para a saúde do planeta como um todo?
De forma geral, é comum associar o mar apenas à saúde das populações que vivem em zonas costeiras ou insulares, mas ele é essencial para todos, ainda que indiretamente. É importante lembrar que o oceano é fonte da maior parte do oxigênio que respiramos, um grande reservatório de carbono, regulador do clima em escala global, elemento fundamental do ciclo hidrológico, além de prover alimento para bilhões de pessoas.
O oceano também garante condições climáticas necessárias para a produção de alimentos em terra, viabiliza o transporte e é fonte de renda, entretenimento e manifestações culturais e religiosas. Queremos promover essa mudança de percepção, colaborando para uma transformação cultural na forma como as pessoas se relacionam com o oceano e com o ambiente em geral.
Segundo o World Wide Fund for Nature (WWF — Fundo Mundial para a Natureza), apenas 2% da biodiversidade marinha do país está protegida, embora avanços recentes venham sendo observados. O desafio é mostrar como a saúde do oceano está diretamente ligada à vida humana e à saúde de todos.
No Brasil, os olhares começam a se voltar para o oceano. As pessoas precisam compreender que o mar é muito mais do que apenas lazer e alimento. Esperamos que, com mais dados científicos e ações articuladas entre instituições de diferentes áreas, possamos contribuir para uma maior conscientização sobre a importância do oceano e das águas para a saúde coletiva e o bem-viver na Terra.
Você poderia dar exemplos de pesquisas que vêm sendo desenvolvidas e que comprovem essa integração trabalhada no conceito de Uma Só Saúde Azul?
Sim, há vários exemplos. As pesquisas demonstram que a contaminação do ambiente marinho retorna como ameaça à saúde humana. Em 2024, por exemplo, uma equipe de pesquisadores da Fiocruz e colaboradores identificou a presença de cocaína em tubarões (artigo “Cocaine Shark”: First report on cocaine and benzoylecgonine detection in sharks).
Outro caso foi a identificação de altas concentrações de metais e metalóides em cinco espécies de tubarões e raias, observadas no estudo de doutorado de Amanda Pontes Lopes, orientado pela doutora Rachel Ann Hauser-Davis, com base em amostras coletadas no Rio de Janeiro entre 2020 e 2022. O achado mais alarmante foi de 58 miligramas por quilograma de arsênio na musculatura de raia-manteiga, enquanto o limite permitido é de apenas um miligrama por quilograma (artigo: Should stingrays be on the menu? Significant human health risks associated to the consumption of the endangered Groovebelly Stingray (Dasyatis hypostigma) in southeastern Brazil). Os peixes absorvem contaminantes gerados pelas atividades humanas e, posteriormente, esses contaminantes retornam às pessoas por meio do consumo do pescado.
Outro exemplo é a parceria do ICTB/Fiocruz com instituições como a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), o Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio de Janeiro (CRMV-RJ), o Instituto Boto Cinza e a Prefeitura de Mangaratiba, para atuar na conhecida Ilha dos Gatos, em Mangaratiba, a Ilha Furtada. Essa ilha se tornou um ponto de abandono de gatos, uma prática criminosa efetuada por tutores ou por barqueiros que são pagos para esse fim. A ilha não é habitada por humanos, e os gatos passam a viver de forma muito precária, com estresse extremo, o que faz com que acabem desenvolvendo doenças e sendo mais propensos a disseminá-las, além de perturbar e predar a fauna nativa, por serem exímios caçadores tentando sobreviver. Os gatos participam do ciclo da toxoplasmose como hospedeiros intermediários, eliminando o agente causador pelas fezes. Com a chuva, essas fezes atingem a água do mar, podendo contaminar a vida marinha, inclusive peixes e mariscos consumidos pela população, que, dessa forma, pode se contaminar também.
Adicionalmente, larvas de mosquitos vetores de doenças proliferam na água utilizada para a hidratação dos animais, constituindo mais um risco de saúde compartilhado. Assim, o abandono de gatos, além de cruel e criminoso, pode estar ampliando o risco de toxoplasmose e de doenças como dengue, zika e chikungunya para a população humana, para botos e golfinhos e para a fauna terrestre da ilha.
Fica evidente, portanto, que questões sociais e culturais impactam diretamente a saúde coletiva e que resultados efetivos e sustentáveis exigem uma abordagem transdisciplinar e integradora.
Você tem exemplos internacionais que ajudem a ilustrar essa lógica?
Um exemplo internacional que também preocupa o Brasil é o uso intensivo de fertilizantes e agrotóxicos no Texas, nos Estados Unidos. Estes produtos contaminam o rio Mississippi e, a partir dele, atingem o Golfo do México, provocando a formação de zonas mortas em determinados períodos do ano, eliminando a vida marinha em áreas anteriormente abundantes. O impacto não se restringe à região, sendo propagado pelas águas e pelos produtos agrícolas.
Você poderia falar sobre o acordo firmado entre INPO e Fiocruz no ano passado? Já há ações previstas?
Em 2025, o INPO e a Fiocruz assinaram um protocolo de intenções durante a COP30, que evoluirá para um acordo de cooperação técnico-científica. Essa parceria permitirá a integração das redes de pesquisadores das duas instituições, facilitando o desenvolvimento de projetos e ações por pesquisadores de diferentes formações, favorecendo a capacidade brasileira em ciência, tecnologia e inovação. Já estamos articulando ações iniciais, como a promoção de um simpósio conjunto sobre Uma Só Saúde Azul, para facilitar o contato entre pesquisadores, profissionais e instituições.
Estamos muito felizes em somar esforços com o INPO e sua rede, colaborando para a saúde de todos — de todas as espécies — e do nosso planeta azul.
*Mais informações sobre Uma só saúde azul podem ser encontrada no capítulo “Oceano e Zonas costeiras” do livro “Mudanças Climáticas no Brasil: Estado da Arte e Fronteiras do Conhecimento”, organizado pelo diretor-geral do INPO Segen Estefen e pelo professor Moacyr Araujo (UFPE).