Onde estão os dados brasileiros sobre o oceano? Diagnóstico do INPO aponta dependência estrangeira
Dados OceânicosDiagnóstico Nacional sobre o OceanoMapeamento revela apenas sete bases de dados dedicadas exclusivamente para o oceano no Brasil; estudo mostra fragmentação e baixa disponibilização de dados nacionais
O Brasil possui uma das maiores áreas marinhas do planeta, com 5,7 milhões de km² sob sua jurisdição. Apesar disso, o primeiro Diagnóstico Nacional sobre o Oceano (Ciclo 1), lançado pelo INPO (Instituto Nacional de Pesquisas Oceânicas), identificou um elevado uso de bases de dados abertas e uma intensa interação com repositórios internacionais, mas ainda com baixa disponibilização de dados sobre o oceano gerados nacionalmente. O diagnóstico, que já está disponível para consulta (acesse aqui) no site do Instituto, mapeou 147 bases nacionais e internacionais que contêm informações sobre o Brasil e o Oceano Atlântico Sul e Tropical e apontou que existe uma fragmentação da informação, com dados oceânicos nacionais espalhados por diversas instituições e bases de dados. Das 41 bases de dados nacionais mapeadas, apenas sete bases contêm dados in situ e produtos exclusivos para o oceano no Brasil.
Para Andrei Polejack, diretor de Pesquisa e Inovação do INPO, o estudo marca um avanço inédito na compreensão desse cenário. “Esta é a primeira vez que se realiza um diagnóstico de dados no Brasil para entender onde essas informações são depositadas e de que forma são utilizadas pela comunidade científica”. Segundo ele, o levantamento é parte de uma visão institucional de longo prazo. “O INPO está empenhado em compreender o ecossistema onde atua para que possamos, a partir disso, planejar e executar ações mais efetivas”, destaca.
O material foi elaborado a partir de uma metodologia de abordagem mista, que combinou levantamento bibliográfico, consultas diretas a especialistas e a aplicação de um questionário online estruturado com 22 perguntas, que contou com a participação de 143 respondentes da comunidade científica brasileira.
Além de classificar as bases quanto aos seus métodos e protocolos, níveis de acesso, padrões de interoperabilidade e cobertura temática e espacial, o estudo revela que o país sofre com uma dependência de infraestruturas estrangeiras e um paradoxo de comportamento: embora 81% dos cientistas respondentes utilizem bases de dados abertas, 43,4% ainda não disponibilizam os resultados de suas próprias investigações ao público.
“Os riscos de manter o ‘patrimônio de dados marinhos’ brasileiro armazenado em servidores de outros países são diversos, mas o principal é a vulnerabilidade da autonomia científica e tecnológica do Brasil”, alerta Raquel Oliveira, analista de Pesquisa e Inovação do INPO e uma das autoras do relatório. Segundo ela, essa dependência sujeita o país a dinâmicas de “colonialismo científico”, de modo que o acesso à informação possa ser condicionado a cenários políticos e interesses de nações que hospedam esses dados.
Já a resistência ao compartilhamento nacional de dados é vista como um reflexo de falhas estruturais no sistema científico. Raquel explica que essa “dissonância” entre usar e não compartilhar “pode ser entendida como um reflexo de barreiras estruturais no Brasil que extrapolam os aspectos técnicos da pesquisa e da geração do dado em si, estando profundamente ligada a fatores institucionais, culturais e de incentivo”. Ela ressalta que o esforço de curadoria e controle de qualidade muitas vezes não é valorizado em métricas de produtividade acadêmica, o que desestimula os pesquisadores. Áreas como a Oceanografia Química, por exemplo, que exige análises laboratoriais longas e caras, apresentaram os menores índices de compartilhamento: cerca de 70% dos dados permanecem fechados, de acordo com os respondentes.
“O diagnóstico aponta que um elevado percentual de dados que foram coletados no Atlântico Sul se encontram armazenados no Hemisfério Norte. Isso é um grande desafio para a gente”, destaca Janice Trotte-Duhá, diretora de Infraestrutura e Operações do INPO, reforçando que o objetivo do instituto é ir além da avaliação do que já existe para construir uma infraestrutura nacional de dados robusta.
Como solução estratégica, o INPO trabalha no desenvolvimento do Sistema de Armazenamento e Disponibilização de Dados (SADD). A plataforma visa ser um integrador nacional que assegure a custódia, a rastreabilidade e a visibilidade da produção científica brasileira, oferecendo identificadores permanentes, similares ao DOI (Digital Object Identifier), para garantir o crédito aos pesquisadores. E o interesse da comunidade é alto: o diagnóstico revela que 90% dos pesquisadores estariam dispostos a utilizar o SADD para compartilhar seus dados. Embora a maioria (64,3%) condicione essa adesão, entre outras, a regras claras de governança e licenciamento, 25,9% dos cientistas afirmaram estar prontos para disponibilizar suas informações sem qualquer restrição.
Polejack reforça que o sucesso da plataforma depende diretamente de resolver as barreiras culturais apontadas no diagnóstico. “Do ponto de vista científico, ficou evidente que precisamos adotar estratégias mais contundentes para que os pesquisadores se sintam motivados a depositar seus dados em uma base na web, plenamente alinhada aos princípios FAIR – Findable (Localizável/Encontrável), Accessible (Acessível), Interoperable (Interoperável) e Reusable (Reutilizável)”. O diretor explica que os dados obtidos pelo relatório ajudam a desenhar essa resposta tecnológica. “Essa orientação nos dá um excelente direcionamento para projetar o futuro do SADD”.
Falta de séries históricas
O diagnóstico também revela a carência de dados contínuos de longo prazo. A temperatura da água e a salinidade, por exemplo, foram apontadas como variáveis fundamentais em todas as disciplinas oceânicas. No entanto, o Brasil ainda carece de um monitoramento nacional contínuo e de longo prazo desses e outros dados locais em toda sua área costeira e oceânica.
“Sem séries históricas locais e regionais, a capacidade de gerar climatologias consistentes, e realizar estudos profundos sobre os efeitos das mudanças climáticas fica severamente limitada”, alerta Raquel.
Além disso, a analista pontua que a previsão oceânica depende do fornecimento contínuo de dados de alta resolução. “Esses dados alimentam modelos numéricos capazes de gerar alertas que auxiliem na formulação e aplicação de políticas públicas, de forma a evitar ou minimizar os riscos sistemáticos de desastres antrópicos e socioambientais. A fragmentação e a falta de bases de monitoramento costeiro integradas limitam o alcance e a calibração dessas ferramentas”, complementa.
Além do diagnóstico das Bases de Dados Oceânicos, ainda estão previstos outros três ciclos complementares sobre Infraestrutura Nacional de Pesquisa Oceânica, Inovação Tecnológica, e Oceano e Sociedade, consolidando um Diagnóstico Nacional sobre o Oceano, com objetivo de mapear o cenário brasileiro em pesquisa, inovação e desenvolvimento em ciências oceânicas.