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Dos oceanos à cadeia alimentar: microplásticos desafiam a ciência

01 DE JULHO, 2026
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Pesquisador da rede INPO Alexander Turra, explica o que a ciência já sabe (e o que ainda precisa descobrir) sobre os impactos dos microplásticos no oceano

Cerca de 14 milhões de toneladas de microplásticos já estão acumuladas no fundo do oceano. Presentes em praticamente todos os ambientes marinhos, essas partículas – com menos de 5mm de diâmetro – também começam a aparecer em alimentos consumidos pela população, enquanto pesquisadores ainda buscam responder uma das perguntas mais urgentes sobre o tema: quais são seus impactos para os ecossistemas e para a saúde humana?

A estimativa foi publicada em um estudo da revista Frontiers in Marine Science, que reuniu dados de diferentes pesquisas para calcular a quantidade de microplásticos depositada nos sedimentos marinhos. De acordo com os autores, o fundo do mar funciona como um dos principais reservatórios desse material, acumulando partículas que afundam ao longo do tempo e podem permanecer no ambiente por décadas. 

Segundo Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), pesquisador da rede INPO e coordenador da Cátedra UNESCO para Sustentabilidade dos Oceanos, o maior gargalo da ciência hoje é entender como os microplásticos afetam os organismos e os diferentes ecossistemas marinhos. “A principal lacuna de conhecimento hoje é em relação à exposição dos microplásticos nos diferentes compartimentos ambientais e, especialmente, seus efeitos”, afirma.

A dificuldade se torna maior quando se trata dos nanoplásticos, partículas ainda menores que desafiam as tecnologias atuais de monitoramento. De acordo com o pesquisador, quanto menor o fragmento, maior a capacidade de atravessar barreiras biológicas. “Quanto menores as partículas, maior os efeitos em nível celular, nos tecidos, órgãos e sistemas”, explica. 

Essas partículas também são capazes de atuar como transportadoras de substâncias tóxicas. “Os microplásticos funcionam como um vetor de poluentes orgânicos e de contaminantes para o nosso organismo”, destaca Turra.

Microplásticos chegam à cadeia alimentar

Animais filtradores, como ostras, mexilhões e sururu, retêm partículas presentes na água e podem concentrar microplásticos em seus organismos.

“No caso dos peixes, nós não comemos o tubo digestivo desses animais, diferentemente de uma ave marinha que acaba comendo o animal por inteiro. Já no caso das ostras e dos mexilhões, nós comemos o animal por inteiro e, com isso, o risco é um pouco maior de a gente se expor aos microplásticos”. – alerta o pesquisador.

O professor exemplifica que, em algumas localidades do Nordeste, uma porção de 100 gramas de sururu pode conter aproximadamente 500 partículas de microplástico. Segundo Turra, esses organismos “foram coletados nos mercados em que as pessoas compram o seu alimento”, demonstrando que a contaminação já alcança produtos disponíveis para consumo. Embora ainda não exista um consenso científico sobre os limites seguros de exposição para seres humanos, os resultados reforçam a necessidade de ampliar as pesquisas sobre os possíveis efeitos dessas partículas na saúde.

Como interromper o caminho do plástico até o oceano

Embora o monitoramento da poluição plástica tenha avançado nos últimos anos, os cientistas ainda trabalham com estimativas obtidas a partir de amostragens pontuais, o que torna a quantificação global um desafio logístico e científico.

Para Turra, uma das prioridades é impedir que novos resíduos cheguem aos ambientes marinhos. “O grande problema são os microplásticos secundários. A solução é não deixar o plástico chegar no mar”, ressalta.

Além do descarte inadequado de resíduos, fontes menos conhecidas também contribuem para esse processo, como as fibras sintéticas liberadas durante a lavagem de roupas e o desgaste de pneus nas estradas. Esses fragmentos são transportados pelos sistemas de drenagem e acabam alcançando rios, estuários e, posteriormente, o oceano.

Diante da dimensão do desafio, pesquisadores de diferentes países trabalham para padronizar métodos de monitoramento e ampliar o conhecimento sobre a poluição por microplásticos.

“A colaboração internacional é fundamental. Sem o diálogo entre cientistas e sem estratégias para promover a harmonização dos métodos de coleta, processamento e análise, nós não temos como falar a mesma língua e não podemos avançar coletivamente”, relata Turra.

Para o pesquisador, enfrentar o problema exige mudanças tanto em nível coletivo quanto individual. “Precisamos racionalizar essas questões do ponto de vista individual, mas também coletivo, de forma que a gente consiga organizar o uso de recursos e a geração de resíduos numa perspectiva mais sustentável”, conclui.